O formato que Roger Waters rejeitou com raiva, mas acabou adotando ao notar que ficaria rico
Por Bruce William
Postado em 20 de setembro de 2025
Em 1977, o Pink Floyd estava na estrada divulgando "Animals". Foi nessa turnê que Roger Waters viveu uma de suas fases mais sombrias, chegando a dizer que saiu dela "seriamente perturbado". A experiência serviu de gatilho para a criação de "The Wall", dois anos depois, mas também consolidou o rancor do baixista contra os megashows em estádios.
"Depois da turnê de 1977 eu fiquei seriamente perturbado em relação a shows em estádios. Acho que eles são horríveis. São sobre estatísticas", disse Waters à Q Magazine em 1987. Para ele, o público parecia mais interessado em dizer que estava entre 85 mil pessoas apertadas do que na música em si. "Você não conseguia se mexer, não conseguia chegar ao bar. Todos tinham que mijar em pé, espremidos. E ainda assim as pessoas achavam ótimo!", ironizou.

O músico também criticava os bastidores, onde só se falava em números e arrecadação. "Tudo o que se ouvia era: 'Vocês sabem quanto arrecadamos, quantas camisetas vendemos?'. É absolutamente isso. É só sobre dinheiro. E aí você vai parar no Guinness Book por ter tocado para o maior público da história. Mas, ah não, foda-se isso", desabafou.
O desgaste chegou ao limite no último show da turnê, em Montreal, quando Waters cuspiu em um fã. "O que eu acho que aconteceu foi que eu estava puto ou desiludido de tocar para multidões (...) completamente bêbadas. Um moleque se meteu na minha frente e eu acho que cuspi nele. Quem sabe se eu fiz ou não?" O episódio se tornaria o símbolo de sua ruptura com a ideia de "comunhão de massa" em grandes plateias e um dos pilares para a narrativa de isolamento em "The Wall".
Curiosamente, foi esse mesmo formato que Waters abraçou em sua carreira solo. Depois de criticar os estádios, ele montou algumas das maiores produções ao vivo do rock, como as turnês de "The Wall Live" e "This Is Not a Drill", que rodaram o mundo com públicos gigantescos. A lógica que ele rejeitava nos anos 1970 se transformou em uma de suas principais marcas.
O resultado também pesou no bolso, e nesse caso, "pesar" é algo positivo, como se a quantidade de dinheiro tivesse crescido muito, que foi o que aconteceu de fato. Estima-se que Roger Waters tenha um patrimônio cerca de 700 milhões de reais superior ao de David Gilmour, diferença explicada em parte pelas megaturnês milionárias que realizou ao longo das décadas. Ao fim, o formato que ele disse odiar acabou sendo o que mais consolidou sua fortuna.
Entre o desprezo declarado e a realidade prática, Waters construiu um legado paradoxal. De um lado, o músico que rejeitou os estádios com raiva e chegou a chamar esse formato de "horrível" nos anos 1970; de outro, o artista que passou a lotá-los mundo afora com produções cada vez mais grandiosas, transformando-os na base de sua carreira solo. Essa contradição não apenas serviu para marcar sua imagem pública como também ajudou a ampliar sua fortuna, mostrando que, no fim, o mesmo modelo que ele renegava se tornou o motor financeiro e artístico de sua trajetória.
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