O disco do Kiss feito a partir de "quase lixo inutilizável", segundo Paul Stanley
Por Bruce William
Postado em 25 de novembro de 2025
Em 1984, o Kiss vivia mais uma fase de transição. A banda já tinha deixado a maquiagem para trás, dois fundadores estavam fora do barco havia algum tempo e os discos do começo da década tinham afastado parte do público. Ao mesmo tempo, "Lick It Up" recolocou o grupo no jogo e abriu caminho para um novo álbum, que acabaria sendo o "Animalize."
Só que, por trás da capa cheia de bichos e do clima de "Kiss em modo anos 80", o clima interno estava bem longe da unidade que o grupo vendia desde os anos 1970. Gene Simmons estava cada vez mais envolvido com outros projetos, tentando a sorte como ator e produtor enquanto a banda seguia em frente. Quando chegou a hora de gravar "Animalize", ele praticamente sumiu do estúdio, deixando Paul Stanley à frente de composição, produção e direção do disco.

No livro "Face the Music", Stanley descreve o período com palavras ásperas, reproduzidas na Far Out. Ele lembra que "Gene basicamente tinha desaparecido naquele momento. Eu me senti abandonado quando chegou a hora de fazer 'Animalize'. Depois de me avisar, sem qualquer aviso prévio ou discussão, que não estaria por perto para o disco, Gene entrou em um estúdio e cagou uns demos o mais rápido que conseguiu. Depois foi embora fazer um filme. Ele me deixou com uma pilha de quase lixo inutilizável." A produção citada é "Runaway", longa com Tom Selleck que tomou o tempo e a atenção do baixista enquanto o Kiss tentava manter o ritmo de lançamentos.
Na prática, isso significou um disco em que quase tudo passou pelas mãos de Paul Stanley. Além de assumir a produção, ele puxou composições, escolheu caminhos sonoros e ainda precisou lidar com mais uma troca de guitarrista solo, já que Animalize acabou sendo o único álbum de estúdio com Mark St. John na formação oficial. O clima de bastidor era de cansaço e atrito, com Simmons cada vez mais distante do dia a dia da banda.
Ironia das ironias, o álbum que nasceu desse cenário acabou rendendo um dos maiores sucessos comerciais do Kiss nos anos 1980. "Animalize" trouxe "Heaven's on Fire", single que ganhou rotação forte na MTV, ajudou a empurrar o disco para a casa do platina e manteve a retomada comercial iniciada em "Lick It Up". Nos números, foi o lançamento mais bem-sucedido do grupo desde "Dynasty", mesmo com toda a confusão de bastidores e com a banda mudando de guitarrista em plena turnê.
Visto de longe, "Animalize" acaba ficando com uma dupla identidade: para o público, é o álbum de "Heaven's on Fire" e da fase mais glam do Kiss; para Paul Stanley, é o projeto em que ele bancou praticamente tudo enquanto o parceiro histórico cuidava da carreira em Hollywood e largava, segundo o próprio guitarrista, uma pilha de demos "quase inutilizável" sobre a mesa. E, para um disco que começou assim, cercado de ausências, atritos e material que o próprio autor chamava de "lixo", o fato de ter virado parte importante da guinada comercial da banda nos anos 1980 diz bastante sobre o quanto o Kiss conseguia se manter em pé mesmo quando a casa parecia prestes a cair de vez.
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