A música do Rush que faz Geddy Lee ficar sem graça quando ele ouve no rádio
Por Bruce William
Postado em 12 de novembro de 2025
No meio da história do Rush, "Caress Of Steel" (1975) ocupa um lugar curioso. Foi o disco em que o trio se afastou do hard rock mais direto dos primeiros trabalhos e se aventurou em suítes longas, letras fantásticas e estruturas mais elaboradas, num passo que quase custou o contrato com a gravadora. A repercussão fraca fez a banda cogitar o fim, ao mesmo tempo em que a Mercury considerava desistir do grupo. A resposta veio no ano seguinte, com "2112", álbum que consolidou a identidade que o Rush realmente queria seguir.

Neil Peart resumiu bem aquele momento ao lembrar a pressão externa e a decisão de bancar suas próprias ideias: "Eles estavam pressionando a gente no momento mais frágil. Então, quando fomos para o próximo álbum, decidimos manter nossos princípios. Nós gostávamos do que fazíamos e, se fracassasse, tudo bem. Eu voltava para a fazenda. Foi tudo um grande não. Não, não vamos seguir isso. Não, vocês não podem nos dizer o que fazer. E não, nós não nos importamos." A aposta funcionou, e "2112" passou a ser visto pelos próprios integrantes como o verdadeiro ponto de virada.
Anos depois, em conversa com a revista RAW em 1993, Geddy Lee comentou como enxergava a fase anterior. Ao falar sobre "Counterparts", ele comparou o peso do álbum com o passado e deixou claro que não via sentido em tentar reproduzir o clima dos anos 1970 de forma calculada: "Há momentos em 'Counterparts' que são mais pesados do que qualquer coisa que fizemos em muito tempo. Mas mesmo que a gente ficasse realmente pesado de novo, não seria como em '2112'. Aqueles discos foram feitos em um certo tempo e lugar, e a única maneira de recriar aquilo seria por acidente. Se fizéssemos de propósito, soaria como besteira."
A partir daí, Geddy estabeleceu uma linha divisória. Ele disse enxergar "2112" como início do período em que se sente mais confortável com o material da banda e admitiu que tem dificuldade para revisitar parte do que veio antes. "Muito das coisas antigas me deixa orgulhoso", explicou, conforme relembra a Far Out. "Algumas soam bem esquisitas, mas algumas se sustentam melhor do que eu imaginava. Por mais estranha que minha voz soe quando eu escuto, eu realmente curto alguns dos arranjos. Mas eu não consigo voltar muito antes de '2112', porque aí começa a ficar complicado para mim e, se eu ouço 'Lakeside Park' no rádio, eu fico sem graça. Que música ruim! Ainda assim, não me arrependo de nada do que fiz."
O alvo específico é justamente "Lakeside Park", faixa de "Caress Of Steel" composta por Peart a partir de lembranças pessoais. O baterista recordava o parque em Port Dalhousie como cenário da adolescência: verões trabalhando nas barracas, rádios tocando sem parar, fogueiras na praia depois do expediente, descobertas musicais que o marcariam para sempre. Para ele, aquele lugar tinha um peso afetivo profundo, ligado às primeiras experiências que acabariam conduzindo à vida artística.
O contraste entre a conexão emocional de Peart com o tema e o incômodo de Geddy com o resultado mostra um ponto recorrente na trajetória de bandas longevas: nem toda composição envelhece da mesma forma para quem a criou. No caso do Rush, Lakeside Park permanece como registro de uma fase de transição - importante para a história do trio e para a biografia de Neil Peart - ainda que, para o próprio vocalista e baixista, seja hoje uma lembrança musical difícil de encarar sem torcer o rosto.
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