O disco que une David Gilmour e Steve Vai na admiração pela genialidade de seu autor
Por Bruce William
Postado em 10 de novembro de 2025
Quando se coloca lado a lado os caminhos de Steve Vai e David Gilmour, parece improvável encontrar um ponto comum além da palavra "guitarra". De um lado, o virtuosismo técnico, arranjos cheios de seções, mudanças, efeitos e malabarismos. Do outro, notas escolhidas com calma, uso de timbres e texturas para construir clima, peso emocional e narrativa musical. Ainda assim, ambos olham na mesma direção quando o assunto é entender até onde o instrumento pode ir.
Esse ponto de encontro atende pelo nome de Jimi Hendrix. Mais do que influência obrigatória de manual, ele surge para Vai e Gilmour como alguém que reorganizou a forma de tocar, gravar e pensar guitarra. Em vez de apenas somar velocidade ou distorção, Hendrix tratava o instrumento como extensão da própria cabeça, preenchendo cada espaço com alguma ideia nova, efeito, ruído controlado ou frase diferente do que se ouvia na época.
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Steve Vai conta que teve contato com Hendrix antes mesmo de saber o grau de dificuldade do que estava ouvindo. "Eu ainda não tinha pegado no instrumento, então não sabia o quão ridiculamente difícil era fazer as coisas que ele fazia, mas alguma coisa me dizia que ele era brutalmente inovador na guitarra", relembrou. "Aliás, ele foi basicamente meu ponto de partida, então levei um tempo para perceber quantas barreiras ele tinha rompido. Eu só sabia que cada música, cada trecho, cada som que ele fazia era como uma grande viagem para o desconhecido, e eu estava mais do que feliz em embarcar."
David Gilmour, por outro lado, costuma destacar a experiência de ver Hendrix antes da fama consolidada. Ele lembra um show em Londres, em meados da década de 1960, que mudou a forma como enxergava o instrumento. "Fui a um clube em South Kensington em 1966", contou. "Um garoto subiu ao palco com Brian Auger and the Trinity. Ele começou a tocar a guitarra ao contrário, de cabeça para baixo, e o lugar inteiro ficou em choque. No dia seguinte, fui às lojas de disco perguntar se tinham algo do Jimi Hendrix. Ele ainda não tinha gravado nada, então tive que esperar pelo primeiro lançamento."
É nesse contexto que os dois convergem sobre um mesmo título, relata a Far Out: "Electric Ladyland". O álbum aparece nas listas pessoais de Gilmour e é citado por Vai como referência de criatividade levada ao limite, equilíbrio raro entre técnica, improviso, experimentação de estúdio e sensação de que a guitarra está empurrando as bordas o tempo todo. Não se trata só de tocar rápido ou alto, mas de testar combinações, camadas, ecos, panoramas e ideias que ainda soavam novas anos depois.
Quando guitarristas tão diferentes apontam para o mesmo disco, a mensagem é simples: mais do que coleção de solos, "Electric Ladyland" funciona como material de estudo para quem quer entender o impacto real de Jimi Hendrix no instrumento. Em um cenário cheio de listas, disputas e exageros sobre "melhor de todos os tempos", a concordância entre Gilmour e Vai ajuda a separar ruído e memória afetiva daquilo que, de fato, mudou a forma de escutar e tocar guitarra.
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