Fabio Lione rompe silêncio e fala pela primeira vez sobre motivos da sua saída do Angra
Por Gustavo Maiato
Postado em 22 de janeiro de 2026
Foram 13 anos, centenas de shows, três álbuns de estúdio, registros ao vivo, turnês internacionais e um período decisivo de reconstrução da imagem do Angra no exterior. Ainda assim, a saída de Fabio Lione, anunciada em meio a um hiato prolongado, deixou uma série de questões em aberto.
Em entrevista extensa ao jornalista Igor Miranda, da Rolling Stone Brasil, o cantor fala pela primeira vez de forma direta sobre os bastidores de sua decisão, o legado que acredita ter deixado, as leituras equivocadas sobre declarações de Andre Matos, o peso excessivo do passado dentro da banda e seus planos para o futuro.

"É complicado e não é complicado"
Logo ao abordar o tema da saída, Lione deixa claro que a explicação pública dada até aqui não é falsa, mas tampouco é completa. "É complicado e, ao mesmo tempo, não é complicado. Depende do ponto de vista", afirma.
Segundo ele, a versão de que pediu para sair por não querer manter um compromisso fixo enquanto a banda seguia em hiato é verdadeira, mas representa apenas uma parte da história. "Eu aprendi muitos anos no Brasil que a gente sabe muito bem como falar de um jeito confortável. Muitas vezes as pessoas se escondem atrás de quem fala mais direto. E eu sou direto, sou sincero, talvez pelo fato de ser italiano."
Para Fabio, o discurso apresentado foi uma "verdade confortável", que evita conflitos internos e encerra o assunto sem aprofundá-lo. "Não é mentira. Mas é uma maneira de falar que passa como se estivesse tudo resolvido, como se fosse simples."
O Bangers como despedida
Embora o show de despedida no festival Bangers tenha enorme peso histórico, Lione afirma que, pessoalmente, ele não ocupa lugar central em suas preocupações atuais. "Sinceramente, o Bangers é o último dos meus problemas no momento."
Ainda assim, ele deixa claro que fará a apresentação por respeito. "Eu faço isso por amor à banda, por amor aos fãs, por amor ao Brasil. E também porque, para a história dessa banda linda, seria muito feio o vocalista que ficou mais tempo não participar."
Fabio lembra que permaneceu mais tempo no Angra do que seus antecessores. "O André ficou nove anos, o Edu mais ou menos onze. Eu fiquei treze."
Andre Matos e a frase que virou mito
Um dos pontos mais sensíveis da entrevista envolve Andre Matos e a recorrente afirmação de que ele teria dito que "o Angra tinha que acabar". Fabio é categórico ao negar essa leitura. "Ele nunca falou isso dessa forma. Nunca." Segundo Lione, a declaração foi retirada de contexto e distorcida ao longo do tempo. "A entrevista completa mostra outra coisa, mas as pessoas pegam só a parte que interessa para criar polêmica."
Ele relembra o teor real da fala: "Ele disse algo como: 'O Fábio é meu amigo, é um cara legal, está indo bem. Se o Angra não vai continuar com ele, então aí eu acho que a banda tinha que acabar'. É completamente diferente." Para Fabio, a fala foi honesta e coerente. "Não foi agressivo. Foi um raciocínio lógico. Dá para entender o Andre."
As turnês e álbuns com o Angra
Ao falar de sua passagem pelo Angra, Fabio destaca números e fatos concretos. "Foram muitos shows, muitas turnês, Japão lotado, festivais, Estados Unidos, Canadá. No Brasil, não sei se foram 300 ou 400 shows." Ele lembra que a banda voltou a ocupar espaço relevante no circuito internacional. "A empolgação na Europa foi muito grande. A banda recuperou prestígio."
Quando o assunto são os álbuns, Lione não suaviza o discurso. "O Angra nunca fez um CD ruim. Mas alguns estão em outro nível." Para ele, Rebirth, Temple of Shadows, Ømni e Cycles of Pain formam o topo da discografia. "Isso não é só opinião pessoal. É objetivo. Não tem comparação." Fabio também detalha sua contribuição direta. "Eu contribuí em 23 ou 24 músicas com melodias vocais. Ajudei em letras, em ideias. Não foi pouca coisa."
Turnês comemorativas e o risco de viver do passado
Um dos temas centrais da entrevista é o excesso de turnês comemorativas, algo que Fabio vê com ambivalência. "Eu gosto, porque o brasileiro gosta de comemoração. Mas a banda precisa fazer algo novo sempre."
Segundo ele, a mistura constante de ciclos comemorativos com lançamentos novos prejudica a assimilação das músicas recentes. "Você lança um CD e já mistura com turnê de 20 anos de outro disco. Aí você perde o fogo."
Fabio acredita que parte do repertório criado em sua fase pode não voltar aos palcos. "Não porque não são boas, mas porque são difíceis." Ele cita faixas que exigem decisões vocais muito específicas. "Tem músicas que ou você canta de um jeito muito específico, ou não funciona." Ainda assim, ele vê isso como um sinal da profundidade de sua contribuição. "Isso me deixa um pouco triste, mas também um pouco feliz."
Frustrações
Após décadas em bandas, Lione admite frustração por nunca ter lançado um disco solo. "Eu poderia já ter lançado três ou quatro álbuns solo fácil." O plano segue vivo, mas sem pressa. "Quero fazer algo com qualidade, com tempo."
Ele também confirma conversas com uma grande banda internacional. "Faz quase um ano que conversamos. O cara aparece, desaparece. Não sei o que vai acontecer." Por ora, segue ativo. "Foram 19 músicas gravadas em um mês e meio. É bastante coisa."
Fabio Lione não fala em ruptura amarga, mas em encerramento. "Foi uma experiência incrível. Mudou minha vida." A saída do Angra marca o fim de um ciclo intenso, mas não apaga o que foi construído. "O legado está lá. Nos discos, nos shows, na memória dos fãs."
Confira a entrevista completa abaixo.
A saída de Fabio Lione e a entrada de Alírio Neto no Angra
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