O herói de 2.800 anos com quem Russell Allen se identifica porque passou por algo parecido
Por Gustavo Maiato
Postado em 25 de abril de 2026
No mês de conscientização sobre o autismo, Russell Allen falou sobre Ava, sua filha diagnosticada com TEA, ao comentar o lançamento de "Love Her Like I Do (Ava's Song)". Mas, ao longo da entrevista a Gustavo Maiato, do Whiplash.Net, o vocalista do Symphony X também revelou como costuma buscar conexão emocional mesmo em canções inspiradas em literatura, fantasia e aventura épica. E citou um exemplo central da discografia da banda: Odisseu, herói da tradição grega associado à "Odisseia", poema atribuído a Homero e geralmente situado por estudiosos no século 8 a.C..

Allen começou deixando claro que nada, em sua carreira, o toca mais do que a música feita para Ava. "Obviamente, estou mais conectado a isso porque é sobre a minha filha", afirmou. A canção, segundo ele, não exige nenhum esforço de interpretação. "Essa emoção é real", disse. "Sou o pai dela. Isso aconteceu de verdade com a minha filha."
Foi a partir dessa comparação que o cantor explicou como se relaciona com o repertório mais épico do Symphony X. Em músicas baseadas em personagens literários ou situações grandiosas, ele disse que procura um ponto de contato humano. "Nas outras coisas, eu tento fazer a conexão, mesmo que a base seja literária", afirmou. "Tento me encontrar naqueles personagens. Tento encontrar um pouco de mim, como um ator tentaria formar uma interpretação de como alguém se sentiria naquela situação."
Ao citar "The Odyssey", Allen mostrou que essa ponte não é apenas intelectual. Odisseu, figura central do poema, é o guerreiro que passa anos longe de casa tentando retornar à família depois da Guerra de Troia. A jornada, composta há cerca de 2.800 anos, segue atual justamente porque trata de perda, distância, resistência e desejo de reencontro. Foi nessa dimensão que Russell encontrou eco para sua própria vida.
"Quando canto 'To the one that I love, my journey has begun' [Para aquela que amo, minha jornada começou], penso em casa", disse. "Eu viajei para muito longe de casa quando era jovem. Saí de casa aos 18 anos, atravessei meu país, que é muito grande, e construí uma vida muito distante." Em seguida, completou: "Naquele momento, eu me relacionava com isso. Sentia falta da minha família, dos meus parentes."
Segundo o vocalista, esse é o desafio prazeroso das músicas de base épica: dar emoção verdadeira a histórias que, à primeira vista, parecem distantes da experiência cotidiana. "Esses são os desafios divertidos de tentar dar a esse tipo de música o sopro de emoção de que ela precisa para que as pessoas se conectem com a história", explicou.
Com Ava, porém, a lógica é outra. Não há personagem, máscara ou construção dramática. Há vivência direta. E, por isso, a dor também muda de escala. "Isso é algo totalmente diferente", afirmou. "Dói demais. Não vou mentir." Russell disse que até hoje tem dificuldade de ouvir a música sem se abalar. "Eu nem consigo escutar essa canção sem me emocionar", confessou.
Ainda assim, ele vê nesse desconforto um passo importante. Depois de anos marcados por trauma e silêncio criativo, o cantor disse que hoje enxerga valor em acessar sentimentos difíceis por meio da música. "Acho que isso é muito saudável para mim", afirmou. "Poder ir a esse lugar com esse tipo de assunto, depois de tudo o que eu passei e do que nós passamos, é algo que já devia ter acontecido há muito tempo."
No fim, a entrevista revela dois Russell Allen ao mesmo tempo. O intérprete capaz de habitar heróis antigos, como Odisseu, e o pai que já não precisa buscar metáforas para cantar. Se, no Symphony X, ele recorre à imaginação para encontrar a verdade emocional dos personagens, em "Love Her Like I Do (Ava's Song)" a verdade já está dada. E talvez seja justamente por isso que o lançamento soe tão forte: porque nasce menos de uma performance e mais de uma ferida aberta.
Confira a entrevista completa abaixo.
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