A música do Nirvana que critica o machismo e homenageia as mulheres
Por Bruce William
Postado em 04 de junho de 2026
Kurt Cobain raramente parecia confortável elogiando o próprio trabalho. Mesmo depois de "Nevermind" transformar o Nirvana em uma das maiores bandas do mundo, ele costumava tratar o sucesso com desconfiança, especialmente quando percebia que parte do público consumia as músicas sem entender muito bem o que havia por trás delas.
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Dentro desse cenário, "Territorial Pissings" ocupa um lugar interessante em "Nevermind". A música está longe de ser o single mais conhecido do álbum, não tem a construção pop de "Smells Like Teen Spirit" ou "Come as You Are", nem a estranheza melódica de "Lithium". É uma faixa curta, barulhenta, com energia punk e um tipo de agressividade que parecia quase escapar do controle.
Ainda assim, Cobain gostava muito dela. Em uma declaração lembrada pela Far Out, o vocalista disse que provavelmente era sua música favorita do disco. "Acho que gosto mais de 'Territorial Pissings'. É apenas uma ode às mulheres e à minha apreciação por elas... como um todo, como pessoas. Acho que elas merecem muito mais crédito do que recebem", afirmou.
A letra traz uma das frases mais diretas de Cobain nesse sentido: "Nunca conheci um homem sábio; se conheci, é uma mulher". A música também carrega no título uma imagem ligada ao comportamento territorial, frequentemente associado a uma ideia mais primitiva de masculinidade. Em vez de transformar isso em discurso longo, Cobain colocou a crítica dentro de uma música veloz, quase caótica, que parecia mais um estouro do que uma explicação.
Esse tipo de postura não era isolado na obra dele. O Nirvana também abordou violência sexual em "Polly", uma das músicas mais desconfortáveis de "Nevermind", escrita a partir de um caso real. Em entrevistas e declarações públicas, Cobain frequentemente demonstrava incômodo com o machismo presente em parte do público do rock e com a ideia tradicional de masculinidade que ele associava a muita coisa que detestava.
"Territorial Pissings" também começava com Krist Novoselic cantando versos de "Get Together", música lançada pelo The Youngbloods nos anos 60. A entrada, quase deslocada, falava em união e amor entre as pessoas antes de a banda cair em uma das faixas mais explosivas do álbum. O contraste podia soar como deboche, mas também combinava com a forma como o Nirvana misturava melodias pop, ruído e sarcasmo.
A canção se tornou uma das mais violentas do repertório ao vivo do Nirvana. Em algumas apresentações, era usada como ponto de ruptura, com a banda levando a música para um limite físico e barulhento. No programa britânico Friday Night with Jonathan Ross, em 1991, o grupo deveria tocar "Lithium", mas acabou mandando "Territorial Pissings" e terminou destruindo equipamentos no palco.
O gosto de Cobain pela faixa ajuda a entender uma parte importante do Nirvana que às vezes fica escondida atrás do gigantismo de "Smells Like Teen Spirit". Ele não via a banda apenas como veículo de refrões fortes, mas como espaço para despejar repulsa, humor, crítica e desconforto. "Territorial Pissings" talvez não fosse a música mais acessível de Nevermind, mas condensava muito do que Cobain queria dizer sem precisar transformar aquilo em manifesto.
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