A música que Robert Smith viu como o primeiro grande salto do The Cure
Por Bruce William
Postado em 04 de junho de 2026
Depois de "Pornography", lançado em 1982, Robert Smith parecia ter levado o The Cure até um limite difícil de sustentar. O álbum era sombrio, pesado emocionalmente e fechava uma fase em que a banda parecia cada vez mais mergulhada em tensão interna, desgaste de turnê e excesso. Para muita gente, aquele poderia ter sido o fim natural do grupo.
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Smith chegou a se afastar por um período e foi para Lake District, no norte da Inglaterra, tentando limpar a cabeça depois daquela fase. Quando voltou, no entanto, não apareceu com uma continuação óbvia de Pornography. Em vez de reforçar a imagem mais sombria que já cercava o The Cure, ele seguiu para o lado quase oposto.
"Let's Go to Bed" foi lançada como single em novembro de 1982, logo depois da fase mais pesada da banda até então. A música tinha sintetizadores, batida mais dançante, humor estranho e um clima pop que parecia deslocado para quem esperava outro mergulho no desespero. Era The Cure, mas também era um aviso de que Robert Smith não queria ficar preso a uma única imagem.
Quando apresentou a faixa à gravadora, Smith percebeu o espanto. Em entrevista à Rolling Stone, ele lembrou que a reação foi de silêncio, seguida por algo próximo de "você não pode estar falando sério" e "seus fãs vão odiar isso". A preocupação fazia sentido dentro daquela lógica: depois de "Pornography", lançar uma música como "Let's Go to Bed" parecia quase uma provocação.
O próprio Smith não esperava que a canção abrisse grandes portas. Ele chegou a pensar que o The Cure teria de se acostumar a fazer apenas música underground. Mas a reação foi diferente, especialmente fora do Reino Unido. "Let's Go to Bed" teve desempenho modesto nas paradas britânicas, chegando ao 44º lugar, mas entrou no Top 20 na Austrália e na Nova Zelândia, alcançando respectivamente as posições 15 e 17.
Para Smith, mais do que os números, importava a sensação de mudança. Ele disse que lembrava de pensar que a banda nunca teria um hit, até que fizeram "Let's Go to Bed" e, de repente, "estavam indo". Como coloca a Far Out, a frase resume bem o impacto daquela virada: não foi simplesmente um sucesso comercial gigantesco, mas um sinal de que o The Cure podia escapar do canto em que havia sido colocado.
A música também iniciou uma sequência importante de singles mais voltados aos sintetizadores e ao pop esquisito, reunidos depois em Japanese Whispers. "The Walk" e "The Lovecats" seguiriam esse caminho, mostrando que Smith podia mexer na própria imagem sem destruir a identidade da banda. A mudança não apagou o lado sombrio do The Cure, mas abriu espaço para que ele convivesse com humor, leveza torta e melodias mais acessíveis.
Essa talvez seja a principal importância de "Let's Go to Bed" na história do grupo. A música não é lembrada como a faixa mais profunda, mais dramática ou mais ambiciosa do The Cure, mas funcionou como uma porta de saída. Depois de chegar ao fundo com "Pornography", Robert Smith encontrou um jeito de virar a mesa sem pedir licença. E, ao fazer isso, descobriu que o público podia seguir a banda mesmo quando ela parecia estar fugindo de si mesma.
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