A música do Led Zeppelin que começa com um erro; "Vai assim mesmo"
Por Bruce William
Postado em 15 de maio de 2026
"Black Country Woman" começa quase como se alguém tivesse esquecido a porta do estúdio aberta. Antes da música engrenar, dá para ouvir uma pequena conversa, um aviso sobre um avião passando e a decisão imediata de Robert Plant de não se preocupar muito com aquilo. Para uma banda que tantas vezes foi tratada como monumento de precisão, peso e grandeza, é um começo deliciosamente esquisito que ficou para a posteridade: o Led Zeppelin deixando o mundo real entrar na gravação e seguindo em frente.
Led Zeppelin - Mais Novidades
A faixa foi registrada em 1972, nas sessões ligadas a "Houses of the Holy", mas acabou ficando guardada até aparecer em "Physical Graffiti", lançado em 1975. O cenário também ajuda a explicar a pequena bagunça. Em vez de gravar em um estúdio tradicional, o Zeppelin estava em Stargroves, a casa de campo de Mick Jagger, usando o estúdio móvel dos Rolling Stones. Jimmy Page gostava desse tipo de ambiente menos convencional, e a banda já vinha explorando lugares que fugiam da sala comum de gravação.
No caso de "Black Country Woman", a solução foi levar a gravação para fora. Eddie Kramer, engenheiro ligado a vários trabalhos importantes do rock, explicou em seu arquivo que Page e John Paul Jones foram colocados ao ar livre para gravar os violões sem a interferência acústica de uma sala. Só que, quando a fita começou a rodar, um avião passou por cima. Kramer percebeu o problema e comentou algo como: "Não quero pegar esse avião." Plant respondeu sem cerimônia: "Nah, leave it." Ou, em português bem simples: "Não, deixa aí". Que, neste caso significa: "Vai assim mesmo".
Esse detalhe poderia ter sido cortado. Em uma gravação mais limpa, a banda simplesmente teria recomeçado, esperado o avião passar e preservado a ilusão de um ambiente perfeito. Mas o Zeppelin não era esse tipo de grupo o tempo inteiro. Page podia ser obsessivo com timbres e produção, mas também entendia o valor de uma tomada com vida própria. O ruído, nesse caso, não atrapalha a música. Ele quase apresenta a cena: músicos no campo, fita rodando, clima solto e alguém decidindo que a imperfeição fazia parte do pacote.
A própria canção combina com isso. "Black Country Woman" não é uma peça monumental como "Kashmir", nem uma pancada elétrica como "Trampled Under Foot". É uma faixa acústica, com pegada roots, gaita, violões e aquele jeito de blues rural filtrado pelo universo do Led Zeppelin. Dentro de "Physical Graffiti", um álbum duplo que alterna sobras reaproveitadas, gravações novas e momentos de várias fases da banda, ela funciona como um respiro mais cru no meio da grandiosidade.
O título também carrega uma referência geográfica. Black Country é uma região das Midlands Ocidentais, na Inglaterra, associada historicamente à indústria pesada e próxima das origens de Robert Plant e John Bonham. Isso dá à música uma camada curiosa: ela soa como uma brincadeira acústica meio americana, mas o nome aponta para um pedaço bem britânico da história da banda.
A fala "deixa aí" virou uma pequena senha para fãs porque resume bem uma parte do charme do Led Zeppelin. A banda podia fazer discos enormes, tocar por horas e transformar o rock em espetáculo de arena, mas também sabia preservar um acidente quando ele melhorava a atmosfera. Nem toda falha precisa ser corrigida; às vezes, ela coloca o ouvinte dentro do lugar onde a música aconteceu.
No fim das contas, "Black Country Woman" é quase uma fotografia sonora de Stargroves em 1972. O avião passa, Kramer se preocupa, Plant não liga, e a gravação segue. Décadas depois, esse começo errado talvez seja justamente uma das coisas mais certas da faixa. O Led Zeppelin podia apagar o ruído e fingir que tudo nasceu limpo. Preferiu deixar o avião sobrevoar o disco, como quem diz que certas músicas funcionam melhor quando não passam pela alfândega da perfeição.
Receba novidades do Whiplash.NetWhatsAppTelegramFacebookInstagramTwitterYouTubeGoogle NewsE-MailApps



5 músicas de metal que são vergonha alheia, mas todo mundo ouve mesmo assim
O clássico do AC/DC considerado por Angus Young "um rock perfeito para um guitarrista"
Os melhores riffs de guitarras de todos os tempos, segundo Zakk Wylde
Disney lança coleção de vilões inspirada na estética do heavy metal; veja modelos
O clássico do Judas Priest em que Rob Halford alcançou a nota mais alta da carreira
A banda que ofereceu algo novo para o metal, segundo Andreas Kisser
A música do Megadeth que se aproxima do death metal, segundo Dave Mustaine
A música que tirou o Yes do esquecimento e atingiu o topo das paradas
Linkin Park anuncia álbum ao vivo registrado em São Paulo
Os sete discos essenciais do Grave Digger
O melhor álbum e música do Heavy Metal de cada ano dos anos 1980, segundo a Loudwire
O melhor solo do guitarrista Eddie Van Halen, segundo a Classic Rock
A música do King Crimson inspirada pela separação dos Beatles
A música que Paul McCartney escreveu para cantar em cabarés e virou clássico dos Beatles
"Passem mais tempo com a guitarra do que com mulheres", aconselha Richie Sambora a guitarristas



A instrumental do Soulfly que foi inspirada pelo Led Zeppelin
O álbum dos anos sessenta que antecipou "Kashmir" do Led Zeppelin
15 coisas que você não imagina que coexistiram com bandas famosas
O guitarrista que Jimmy Page chamou de gênio antes da fama: "Facilmente o melhor"
O violonista dos anos 60 que para Jimmy Page "estava muito à frente de qualquer outro"
A canção do Led Zeppelin que Robert Plant disse ser "rock progressivo enlouquecido"
O cantor que Robert Plant definiu como único, eterno e maravilhoso
As músicas mais progressivas de 5 bandas que não são de rock progressivo
A música "terrível" que ajudou Jimmy Page a criar algo que se tornaria marca do Led Zeppelin
O mega sucesso do Led Zeppelin que era pra ser uma piada mas se tornou um hino
Jimmy Page: pediam "toca Raul" ao desleixado Jimmy Lama, morando na Bahia


