A relação entre Gene Simmons e um ídolo que começou com uma condenação ao inferno
Por Bruce William
Postado em 12 de setembro de 2026
A história entre Bob Dylan e Gene Simmons começou de um jeito que ninguém imaginaria como prelúdio para uma parceria. No fim dos anos 1970 e começo dos 80, durante sua fase cristã, Dylan passou a tratar parte do rock como sintoma de decadência espiritual - e o Kiss entrou nesse pacote.
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Em uma apresentação daquele período, ele chegou a dizer que quem quisesse continuar ouvindo Kiss poderia "rock and roll até o fosso", numa referência nada sutil ao inferno. Para uma banda que vivia de maquiagem, fogo, sangue falso e teatralidade, era quase uma condenação feita sob medida.
Décadas depois, porém, a relação tomou um rumo completamente diferente. Gene Simmons passou a citar Dylan como uma das figuras fundamentais de sua formação e chegou a chamá-lo de "o maior letrista da cultura pop". Para alguém conhecido por letras muito mais diretas e por um universo bastante distante do folk, a admiração parece improvável - mas Gene nunca escondeu o tamanho que Dylan tinha para ele.
A aproximação pessoal acabou acontecendo, e Simmons contou que ficou surpreso com a simplicidade do encontro. Em vez da figura quase mítica que esperava encontrar, apareceu um sujeito disposto a sentar e escrever. Gene brincou que Dylan o chamou de "Mr. Kiss", e os dois começaram a trabalhar como se aquela combinação fosse muito mais natural do que parecia por fora.
Dessa sessão nasceu "Waiting for the Morning Light", lançada mais tarde no álbum solo "Asshole", de 2004. Gene explicou que Dylan chegou com uma ideia e que a composição foi sendo construída em conjunto, sem grande cerimônia. Para Simmons, o peso da experiência estava menos na canção em si e mais no fato de estar dividindo uma sala com alguém que considerava uma referência absoluta de escrita.
O contraste fica ainda melhor quando se olha para trás. O mesmo Bob Dylan que havia usado o Kiss como exemplo de uma cultura destinada à danação acabou anos depois sentado com Gene Simmons, compondo tranquilamente. E o músico que, em teoria, representava tudo aquilo que Dylan criticava passou a tratá-lo como mestre.
Talvez a melhor parte da história esteja justamente nessa mudança. Nem Dylan permaneceu para sempre preso àquele radicalismo religioso, nem Gene ficou restrito ao personagem de língua de fora e baixo em punho. No meio do caminho, dois mundos que pareciam incompatíveis acabaram se encontrando numa sala de composição.
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