A canção que Renato Russo escreveu e a Legião Urbana preferiu esconder do público
Por Gustavo Maiato
Postado em 11 de setembro de 2026
Uma das letras mais duras já escritas por Renato Russo nunca foi lançada porque a própria banda concluiu que o momento não permitia. Trata-se de "Rapazes Católicos", tema abandonado durante a produção de "As Quatro Estações" e cuja base instrumental acabou reaproveitada em "Feedback Song for a Dying Friend". O episódio foi retomado em live no canal Pitadas do Sal, com Carla Cruz e Juscelino Filho, autores de "Renato Russo - Todas as Canções".
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Durante a conversa, o escritor abriu o arquivo do livro ao vivo e leu o verso recuperado na pesquisa. "Acho que vou ter que te matar por causa do seu Deus. Só que não precisa aprender com os muçulmanos, que os cristãos já fazem isso há muitos anos", leu Juscelino. A canção tratava de fundamentalismo religioso e conflito no Oriente Médio, sem meias palavras.
O contexto explica a cautela da banda. A letra foi escrita no período em que Salman Rushdie sofria perseguição por causa de "Versos Satânicos", livro que resultou numa sentença de morte decretada contra o autor britânico pelo líder religioso iraniano. "Não saiu por isso, por causa dos Versos Satânicos. O cara foi ameaçado lá e tal. Aí eles ficaram com medo de opa, não, segura isso aí", relatou o escritor.
O próprio Renato Russo confirmou o corte anos depois, em depoimento ao livro "Discobiografia Legionária", de Chris Fuscaldo. Ele disse que a banda tirou a faixa do álbum porque era "impublicável". Da ideia original sobrou apenas o desenho instrumental de inspiração árabe que sustenta a versão em inglês.
No lugar da guerra santa entrou uma homenagem ao fotógrafo americano Robert Mapplethorpe, morto em decorrência da aids em 1989, e ao próprio Cazuza. A tradução impressa no encarte foi feita por Millôr Fernandes, que a princípio recusou o convite alegando não traduzir do inglês e mudou de ideia ao saber de quem era a letra.
A posição de Renato sobre o tema, no entanto, nunca ficou restrita à gaveta. "Tava indo para esse ponto da guerra santa. E ele era um crítico aberto. Ele falava nos shows: não existe guerra santa", lembrou Juscelino. "Rapazes Católicos" segue entre as cinco gravações da Legião Urbana que permanecem inéditas.
Confira o vídeo completo abaixo.
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