Como Dostoiévski levou Nando Reis a um problema que carregou por décadas
Por Gustavo Maiato
Postado em 11 de setembro de 2026
Nando Reis contou que a descoberta de Fiódor Dostoiévski na adolescência teve consequência direta sobre um hábito que o acompanharia durante décadas. O relato está em vídeo publicado pelo canal do Estadão no YouTube, em que o compositor mostra sua biblioteca e comenta as leituras que moldaram sua formação. Aos 15 anos, ele encontrou o autor russo em uma banca de jornal, no intervalo entre os dois ônibus que pegava para chegar à escola. A Editora Abril lançava então uma coleção de clássicos em capa dura, e foi ali que o nome do romance chamou sua atenção.

O interesse começou pelo título, antes mesmo de qualquer noção do que havia dentro do livro. "Sempre tive intrigado por esse nome. Achava 'Crime e Castigo' um nome assim instigante", disse. Comprou o exemplar num fim de semana e caiu doente logo em seguida, com uma gripe forte e febril. Foi nesse estado que atravessou o romance inteiro em dois dias, sem sair de casa.
A febre acabou se misturando à leitura, e o resultado foi uma identificação que ele descreve como um desarranjo. Segundo o cantor, o personagem Raskólnikov também atravessa o livro em estado de alucinação, e a coincidência entre a condição do protagonista e a sua própria o desorganizou por completo. "No meu estado febril, eu me misturei com Raskólnikov, que é o personagem que também tem uma alucinação. Eu simplesmente pirei", afirmou. Dali em diante, procurou tudo o que encontrasse do escritor.
A casa do avô tinha a coleção completa, e Nando não parou até esgotá-la. O que veio depois, ele conta sem rodeios e sem se estender muito no assunto:
"Eu li tudo que tinha naquela coleção, tudo. Eu fiquei um Dostoiévski maníaco. E daí eu li os russos também alguma coisa, mas o Dostoiévski ele entrou tão profundamente que eu comecei a beber vodca. Isso até me trouxe um grande problema na minha vida."
A admiração pelo autor, no entanto, permanece intacta. O compositor cita "O Idiota", "Os Irmãos Karamázov" e "Memórias do Subterrâneo" como obras-primas e classifica o russo como genial. Sobre a mesa da biblioteca está uma biografia do escritor publicada pela Edusp, que ele comprou recentemente e ainda não leu - são cerca de oito volumes e algo próximo de 5.000 páginas. "Eu não sei se eu preciso me aprofundar tanto na vida dele, mas tá aqui", comentou.
O impulso, explica, é o mesmo que o levou a devorar a coleção do avô décadas antes. Ele se define como alguém de cabeça compulsiva, de colecionador, que sente vontade de entrar em um autor e ler tudo em ordem cronológica. Reconhece que o método nem sempre é útil e que às vezes trava em um livro que não é tão bom. O vídeo integra uma série de conversas do vocalista dos Titãs sobre leitura, gravada na casa onde mora há um ano.
Confira o vídeo completo abaixo.
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