O hit dos Titãs de 1989 gravado totalmente às escuras: "Você apagou a luz!"
Por Gustavo Maiato
Postado em 15 de setembro de 2026
Um take gravado literalmente às cegas acabou virando a versão definitiva de "Medo", dos Titãs. Em entrevista ao podcast Roll and Talks, o baterista Charles Gavin contou que Liminha apagou as luzes do estúdio no meio da gravação, sem avisar ninguém, e que o resultado - com erro e tudo - foi o que foi parar no álbum. O produtor, sentado à frente dele na conversa, não se lembra do episódio.
A faixa era um problema nas sessões. Não tinha arranjo fechado e não emplacava, segundo Gavin, até que a banda decidiu tocar tudo ao vivo, todos juntos na mesma sala. Foi nesse momento que a sala ficou no breu. "A gente tocou ao vivo, todo mundo junto, e num determinado momento você apagou a luz no estúdio. Apagou no meio da música, no meio do take, e o take era bom. As guitarras pararam antes, mas eu e o Nando seguimos e, no escuro, a gente finalizou a música junto", afirmou o baterista.
Liminha ouviu a história como quem ouve pela primeira vez. Chegou a perguntar se tinha cortado a eletricidade do estúdio, e Gavin explicou que não: a gravação seguiu rodando normalmente, só a iluminação caiu. O gesto, na leitura do baterista, foi um recurso de produção para que os músicos deixassem de se olhar e passassem a se ouvir.
Nando Reis comemorou assim que o take terminou e cravou que era aquele. Gavin resistiu, porque as guitarras haviam parado antes do combinado e aquilo era, tecnicamente, um erro. "Ele falou que a música fala sobre perder o medo da própria música. Tem uma coisa de metalinguagem ali muito divertida, que eu não curti muito na hora, não me convenceu. Eu falei: 'Mas o Liminha apagou a luz'. Ele falou: 'Pois é, mas a gente tocou junto'", lembrou. A faixa foi para o disco.
Cada música daquelas sessões pedia uma solução diferente, e o contraste ficou registrado no próprio álbum. "Miséria" nasceu superproduzida, com programação vinda de Los Angeles em cima de um loop de teclado de Sérgio Britto e coberturas de bateria gravadas depois. "Medo" foi o extremo oposto: banda inteira na sala, uma passada, no escuro. Gavin resumiu a lógica como uma escolha caso a caso - uma faixa vai para sample, outra para sequenciador, outra é todo mundo tocando junto.
O disco marcou uma virada de padrão sonoro para o grupo, com o engenheiro americano Brad Gilderman trazido por Liminha e mixagem no estúdio Nas Nuvens. Gavin conta que Herbert Vianna, depois de ouvir o resultado, perguntou o que os Paralamas do Sucesso iriam fazer dali em diante. Para o baterista, é um dos discos com melhor som da banda, mesmo diante de toda a tecnologia que veio depois.
A conversa integra o segundo episódio de Liminha no programa, dedicado aos bastidores de produção e à sua trajetória como produtor, multi-instrumentista e ex-baixista dos Mutantes. Ao longo dos dois episódios, ele fala também das gravações com Gilberto Gil, Daniela Mercury e Chico Science & Nação Zumbi, além do trabalho atual à frente da empresa de aquisição de catálogos Nas Nuvens Music Group.
Confira o vídeo completo abaixo.
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