"Slash" - Slash & Anthony Bozza

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Por Rafael Correa, Fonte: Rock Pensante
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Retratar uma vida através de palavras não é tarefa fácil. Lembranças, sonhos e sentimentos das mais variadas espécies trafegam em grande parte das vezes na contramão, enquanto trava-se uma verdadeira luta com a própria memória para distinguir aquilo que é real e de fato aconteceu, daquilo que não passou de uma inspiração áspera que poderia ter acontecido. Ainda que árdua, esta foi mais uma batalha vencida por Slash, que não teve receio algum em entrar na montanha russa de seu passado para redescobrir sua própria história e dividí-la por uma via surpreendentemente cativante: a sinceridade. É este o sentimento que guia a leitura de "Slash", biografia escrita pelo guitarrista com o auxílio de Anthony Bozza.

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Slash é uma daquelas poucas pessoas capazes de atrair para si, na mesma fração de segundo, diversas significações. Para uns, não passa de um "junkie safado", que não faz mais do que aproveitar-se de um passado superestimado. Para outros, sua postura é uma referência sincera sobre a explosão que é a relação humana com o rock n' roll, que faz de sua figura uma espécie de catalisador de energia por onde quer que passe. A imagem esfarrapada do ébrio guitarrista empunhando uma Les Paul e escondendo a face sob uma cartola não era apenas uma alusão a si mesmo: chega a traduzir, com esta representação, uma síntese de tudo que rock n' roll poderia proporcionar e cobrar, tudo isso na velocidade de um estalo. À exemplo de tantos outros, a partir de sua imagem muitos jovens fizeram guitarras imaginárias explodir em seus quartos ao som de suas canções; outros, mais descomprometidos, simplesmente adotaram seu estilo de vida e tornaram-se tão ébrios, em determinado período da vida, como ele. De uma forma ou de outra, Slash, primeiramente através do Guns n' Roses, esteve presente na vida de milhares de pessoas que atravessaram as marés violentas da juventude.


Em "Slash", Saul Hudson narra de modo incrivelmente sincero sua história, desde as alucinadas corridas de bicicleta pelas ruas californianas e os primeiros furtos da juventude, até a conquista do mundo com o Guns n' Roses e sua consequente e incontrolável deterioração. Sem a presença de um formalismo exagerado e desnecessário na escrita, em diversos momentos pode-se ler frases diretas de Slash, cuja intensidade não foi filtrada (para nossa sorte) pelo co-autor e revisor Anthony Bozza. A narrativa utilizada segue a mesma linha introduzida por J. D. Salinger em "The Catcher un the Rye", através de um modo intimista e dialogal que deixa transparecer, a todo instante, um convite ao leitor para não se limitar a apenas ler a história, mas também participar de seus meandros. A versão original em inglês é repleta desses momentos marcantes, que se reproduzem em grande parte da versão brasileira. Mas, como não poderia ser diferente, alguns tropeços na tradução são percebidos em certos momentos, representados por frases desconexas e passagens truncadas que, na versão americana, têm um significado totalmente diverso e limpo.


À exemplo dos ícones da música que surgiram em momentos precedentes e posteriores, Slash teve, em sua infância, uma forte ligação com a arte, introduzida, em primeiro passo, por seus pais. Desde a prematura saída da pequena cidade inglesa de Stroke-on-Trent (onde também nasceu Lemmy Kilmister, do Motörhead) até a chegada aos EUA, onde sua personalidade tomou os primeiros contornos, Slash dava sinais que trilharia um caminho diverso dos demais: assim como Kurt Cobain, Saul utilizava-se de desenhos para expressar o que sentia, quando pequeno. Ao longo de seu crescimento, os desenhos deram lugar a uma aos sentimentos pulsantes da adolescência, onde a música e pequenos atos de vandalismo marcavam cada vez mais sua personalidade. Foi também neste período que Slash deu o ponta-pé inicial na sua relação com as drogas e escolheu a guitarra, com incentivo da avó, como novo meio de canalizar e expressar o que sentia.


Da adolescência raivosa até as raízes do que viria ser o Guns n' Roses, o livro traz uma miríade de acontecimentos marcantes que, página por página, se desdobram em momentos cômicos, confusões e problemas graves. Se pairava no ar alguma dúvida sobre a origem da violência e agressividade que a banda deixava transparecer no início de sua carreira, ela se esgota na leitura deste livro. Nada de marketing ou sensacionalismo: o Guns n' Roses era, de fato, a banda mais perigosa do mundo. Seus membros desfrutavam de uma união impulsionada pela pobreza, um sentimento hedonista imensurável e completa falta de qualquer tipo de razão. A fase mais criativa do Guns n' Roses, justamente a que precedeu a gravação de "Appetite for Destruction", era sustentada por poucas refeições, porres homéricos, sexo, drogas, prisões e balbúrdias: nessa época, o Gn'R apresentava-se em pocilgas literalmente banhadas à vômito e causava tumulto onde quer que fosse. Todas essas experiências são retradas com uma vivacidade marcante, passível de transmissão somente por quem as viveu e sentiu.


A narrativa sobre o crescimento do Guns n' Roses representa um momento relevante do livro, não apenas pelo fato de dar ao leitor a chance de acompanhar boa parte do processo de composição das canções que formataram os álbuns da banda, mas também (e principalmente) por evidencar a dificuldade com que a o grupo se firmou e a facilidade com que ruiu. A deterioração da banda é mostrada por um viés tocante, que chega a angustiar: desde a expulsão de Adler até o enclausuramente psicológico de Axl, Slash pincela um quadro tortuoso e, em nenhum momento, se esquiva de suas próprias responsabilidades. Ainda que indiretamente, assume que parte dos efeitos que derrubaram o Guns vieram da dificuldade de comunicação entre os integrantes, inclusive dele mesmo. A conturbada relação com Axl também é alvo de explanações, desde a cumplicidade do início da carreira até o afastamento derradeiro na metade da década de 90, mas sem objetivar ofensas ou algo semelhante: apesar de contar a história sob seu ponto de vista, Slash foi sensato a ponto de tecer vários elogios e criticar de modo comedido a postura de Axl, visto que esta foi a razão fundamental de sua saída.


O mergulho profundo de Slash nas drogas e sua luta em reabilitar-se também merece destaque. Chega a espantar a lucidez com que o guitarrista relata suas alucinações (que envolviam, na maior parte das vezes, pequenos monstros antropomórficos que o obrigou a, certa vez, destruir um quarto de hotel e fugir nu por um campo de golf - charge ao lado) e o sofrimento com as infindáveis crises de abstinência enfrentadas com a esperança de abandonar o uso praticamente cotidiano de heroína, cocaína e crack, que sucedeu a explosão de "Appetite for Destruction" no mundo. Neste ponto, certamente quem merece aplausos é Anthony Bozza, que conseguiu conduzir o relato de Slash por uma trilha nítida e clara: neste caminho, mostra-se o preço cobrado por tal "estilo de vida", e o rock n' roll não parece tão glamouroso como antes. Essa rotina do Guns n' Roses foi explicitada com um cuidado interessante: é possível "passear" pelos tormentos de Izzy com as drogas e seu afastamento súbito para a reabilitação própria; pelos incompreensíveis e sucessivos atrasos de Axl e seu temperamento imprevisível, que causaram estragos em boa parte da turnê dos Illusions (como o incidente em St. Louis, que custou à banda U$ 200.000,00 em indenizações); e pelo esfacelamento gradual do Guns n' Roses com questões contratuais inimagináveis em uma banda que surgiu, literalmente, do fundo do poço. Quem passa a conhecer os primeiros passos do Gn'R, se surpreende com os tropeços de seu fim.


Enfim, "Slash", autobiografia de um dos maiores nomes das seis cordas, traz uma gama variada de histórias que conduzem o leitor em uma viagem que vai da mais profunda degradação ao céu em uma velocidade vertiginosa, apenas para, em seguida, tornar a cair, com a diferença que, nesta última queda, é o próprio Slash quem abre as asas e pausa os acontecimentos. Levando-se em conta tudo o que se submeteu e suportou, o guitarrista merece aplausos por, hoje, estar onde se encontra. Além do mais, todos ganhamos com isso. Ou, ao menos, ganham aqueles que admiram o seu trabalho.

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Post de 21 de dezembro de 2010


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