Let There Be Rock: A História da Banda AC/DC
Por Rafael Correa
Fonte: Blog Rock Pensante
Postado em 29 de março de 2010
Escrever sobre o AC/DC não é uma simples tarefa. Aliás, antes pelo contrário: retratar com palavras a trajetória biográfica de um dos maiores patrimônios do rock n' roll reveste-se em uma missão determinantemente hercúlea. Este é o painel que a jornalista americana Susan Masino traçou em sua obra "Let There be Rock: A História da Banda AC/DC", que há pouco tempo atracou em livrarias tupiniquins. Por mais que a existência de uma obra deste tipo sobre um dos grupos de rock mais emblemáticos da história seja louvável, transformando-se em um indispensável item de colecionador, a obra trafega, em certos momentos, na contramão.
Dizem os maiores apreciadores da literatura que, em grande parte, a qualidade de um livro pode ser observado já em sua introdução. Portanto, embora esta seja uma das lições proferidas por nossos Imortais da Academia Brasileira de Letras, não usaremos tal pressuposto para julgar a mais recente biografia do AC/DC pois, se assim o fizessemos, não passariamos mesmo da introdução.
Susan Masino é considerada como uma das mais importantes jornalistas especializadas em rock nos EUA. Sua convivência próxima com grandes nomes da década 70 e 80 (como KISS, VAN HALEN e MOTLEY CRUE) impulsionou a manufatura de "Rock n' Roll Fantasy: My Life with AC/DC, Van Halen and KISS", sua primeira obra literária e editada originalmente em formato e-book e que alavancou sua carreira como escritora. De fato, Masino é uma amante incondicional do rock e, principalmente, do AC/DC, fator este que possibilitou à autora evidenciar suas andanças com as bandas acima referidas e, provavelmente por isso, ela seja uma das figuras mais queridas pelos grupos ao se tratar do meio jornalístico destinado à música.
Todavia, como se verá adiante, toda a paixão de Masino pelo rock e, em destaque, pela trupe dos irmãos Young acabou por comprometer o viés qualitativo do livro.
Como não poderia ser diferente, "Let There be Rock:..." inicia os trabalhos tratando da história de Angus e Malcom. Oriundos de uma família de músicos, Masino conseguiu captar com clareza a importância desta influência na formação dos irmãos Young. Desde a saída prematura da Escócia para a Austrália, até o sucesso peremptório do Easybeats (banda do irmão de Malcom e Angus, George, que até hoje é considerada como "os Beatles" australianos), a relação e evolução de Angus e Malcom com o rock n' roll é tratada com responsabilidade. Outro ponto importantíssimo que merece destaque é a narrativa da turbulenta infância e adolescência de Bon Scott, pedra fundamental e eterno ícone da banda.
É interessante ler a obra e acompanhar o desenvolvimento do AC/DC visto por "trás" das cortinas. Além de entrevistas com todos os membros do grupo, Masino lançou mão de diversos artigos, resenhas e comentários feitos sobre a banda em publicações de relevância, que vão desde o top de Creem, Kerrang! e Rolling Stone até os fanzines publicados na Austrália que, já em 1975, evidenciavam os primeiros passos do grupo. Tal prospecto é importantíssimo pois corrobora o peso das declarações que permeiam o livro.
Contudo, é nestas folhas iniciais que o leitor poderá encontrar as primeiras dificuldades. Logicamente, o AC/DC possui uma extensa carreira e, ao retornar até a infância dos principais membros da banda, esta observação se torna ainda mais alongada e densa. Logo, a indicação de datas nos títulos dos capítulos e no meio da narrativa auxiliariam a quem deita os olhos sobre a obra a se "localizar" na vasta história no grupo, que beira já quatro décadas.
No entanto, isso não ocorre: inúmeras são as vezes em que o leitor tem que parar a leitura, voltar duas ou três páginas, e então saber em qual ano a autora está concentrando sua atenção, uma vez que os capítulos levam somente o nome de discos e canções. Levando em consideração a intensidade do AC/DC, que desde seu "nascimento" passou anos excursionando sem pausas consideráveis, a indicação de datas é indispensável para que o leitor que ainda não decorou o ano de lançamento cronológico dos álbuns do grupo ou o tempo de duração de cada turnê possa se ambientar e apreciar com calma a obra.
Outro ponto negativo reside no hábito intermitente da autora em travar a narrativa para dialogar com o leitor. Essa técnica pode ter funcionado com a genialidade de Machado de Assis mas, para Masino, faltou no mínimo tato. Por vezes, parece que não estamos a ler a história do AC/DC, mas sim, uma confissão extensa de sentimentos da autora.
Talvez, ao incluir tantos pontos de vista extremamente pessoais (revestidos em piadas e comentários desnecessários), Masino tenha condenado à indiferença certos tópicos da história da banda, como a postura de palco de Angus no início da carreira e o fascínio que Bon exercia sobre o público. E, em outras oportunidades, pode-se perceber que a tradução e a edição também pecaram em certos aspectos. No decorrer do livro, algumas frases simplesmente não fazem sentido ao parágrafo que integram. Por sua vez, na relação de fotografias e imagens do livro, algumas delas surgem com legendas totalmente equivocadas (como em uma foto em que Brian Johnson aparece sozinho no palco e a legenda nomina a banda inteira "bebericando" em uma bar em Rhode Island).
Felizmente, o livro guarda momentos de êxito que compensam as falhas. Masino merece todos os méritos por captar singularmente a importância de Bon para a banda e o impacto que a sua prematura perda representou ao AC/DC. Adiante, ela narra com maestria o esforço empenhado por Johnson ao substituir Bon Scott e, mesmo todos já sabendo que ele lograria sucesso nessa missão, nós acompanhamos a narrativa como se desconhecessemos o seu final, tal qual em um bom suspense relido. Vale, de fato, muito a pena.
Igualmente, Susan demostrou a importância da influência de George Young para que seus irmãos mais novos sempre respeitassem a essência do rock n' roll. Se o AC/DC é (re)conhecido e respeitado por nunca ter deturpado a fórmula de sua música ao longo de sua carreira, devem isso certamente à George.
Outro ponto interessente é o invejável fôlego da banda: desde 1975 até a segunda metade da década de 80 o grupo simplesmente não parou de excursionar. Nem mesmo a morte de Bon obstou por muito tempo o vigor de trabalho do AC/DC (muito embora, nesse caso particular atinente à perda de Bon e o lançamento quase contínuo de "Back in Black", a banda admita ter se "afundando em trabalho" para suportar o falecimento do amigo), o que ressalta ainda mais o compromisso do grupo com a música e, principalmente, com seu público.
Em suma, diante dos possíveis prós e contras, "Let There be Rock: A História da Banda AC/DC" vale a pena ser adquirido como item de coleção (pois é a primeira biografia do grupo traduzida para o português) e estudado com empenho. Talvez, o único problema do leitor resida na superação da nítida limitação da redação da autora e da tradução falha desta primeira edição em solo brasileiro. Mas, fora isso, a obra apresenta uma visão interessante do grupo e reforça ainda mais a sua importância. Afinal, AC/DC é um sinônimo forte e eterno de rock n' roll.
LET THERE BE ROCK!!!
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