Edgard Scandurra: entrevista com ex-guitarrista do Ira!
Por Vicente Reckziegel
Fonte: Witheverytearadream
Postado em 19 de novembro de 2012
São três décadas de uma carreira sólida, reconhecido como um dos principais guitarristas do rock nacional, um reconhecimento válido, diga-se de passagem. Após o fim da longa trajetória com o Ira!, Edgard Scandurra tem se envolvido com uma série de novos projetos, discos solo, com Arnaldo Antunes e até mesmo um projeto musical infantil. Neste entrevista ele faz um pequeno relato de toda sua carreira, seus projetos futuros e sobre a música em nosso pais.
Vicente - Com mais de três décadas, qual o balanço que você faz de toda sua trajetória na música?
Edgard Scandurra - Eu me foquei, nesses anos todos, na cena underground, tanto do rock, quanto da música eletrônica. Isso me credenciou a trabalhar com os novos nomes da música brasileira, pois eles buscam personalidade e estilo e isso eu consegui, durante os últimos 30 anos. 26 anos de ira!, os tempos de Mercenarias e Smack, minha fase eletrônica com o Benzina, minhas participações nos discos e shows de Arnaldo Antunes e Karina Buhr...Todos esses trabalhos buscam, nas estranhezas, suas identidades e é nessa fonte que eu bebo.
Vicente - Já faz algum tempo desde seu último disco solo de estúdio, "Amor Incondicional". Alguma previsão de um novo lançamento? Quais são seus próximos projetos?
Edgard Scandurra - Eu lancei, em 2009 um disco e Dvd ao vivo e fiz uma boa turnê com esse trabalho. Lancei em 2009, "O Pequeno Cidadão", projeto musical infantil de muita qualidade e em 2010 eu gravei com Arnaldo Antunes e o músico malinês Toumani Diabate, o disco "A Curva da Cintura". Eu considero esses discos como discos da minha carreira solo. Eu não faço mais distinção entre meus discos solos e projetos que me envolvo de corpo e alma.
Tenho um projeto bem adiantado em parceria da cantora e compositora Silvia Tape e estamos já com 7 músicas. Tenho também, adiantado, um novo disco instrumental, meu primeiro nessa linha, todos para 2013.
Vicente - Você tem trabalhado bastante com Arnaldo Antunes. Como tem sido esta parceria?
Edgard Scandurra - Com Arnaldo, a sonoridade da guitarra e muitos arranjos ficaram por minha conta, desde o seu primeiro disco solo em 92. Somos parceiros em diversas composições, tanto para minha carreira, quanto para a dele próprio e atingimos a maturidade no disco de 2011, "A Curva da Cintura", onde abrimos um grande espaço no exterior, onde fizemos shows incríveis na Europa, juntos com o parceiro africano Toumani Diabate. Espero estar sempre ao lado de Arnaldo que, acima de tudo, é um grande amigo.
Vicente - Você chegou a tocar na banda Smack na década de 80, inclusive lançando um EP em 2008. Conte-nos um pouco sobre esse trabalho.
Edgard Scandurra - O Smack era uma banda muito peculiar, com um trabalho focado na poesia existencialista, em 2 guitarras experimentais e uma baixista e um baterista de muita qualidade. Porém, éramos muito alternativos e não conseguimos respirar por muito tempo. Ficará para a historia, essa banda que fez 3 excelentes discos.
Vicente - Seus mais recentes trabalhos fogem um pouco do estilo mais "rocker" do tempo do Ira!. Você mudou sua forma de compor também?
Edgard Scandurra - Estou muito livre para compor, e tanto o rock quanto outros estilos podem me levar a criar. Acho que isso é maturidade.
Vicente - Falando no Ira!, sem entrar em pontos polêmicos, quais são as suas melhores lembranças dos áureos tempos da banda?
Edgard Scandurra - Os shows incríveis que fizemos e o público ensandecido, são as melhores lembranças que tenho do Ira!
Vicente - Hoje em dia vivemos uma nova "realidade", com os downloads e a consolidação do Brasil como uma rota (lucrativa, diga-se de passagem) para as bandas estrangeiras. Como você enxerga esse novo cenário nacional?
Edgard Scandurra - Estamos numa nova fase tecnológica e temos que viver isso da melhor maneira possível. Criatividade e qualidade são os segredos para que a música siga atraente para o público.
Vicente - Dá saudades da época de ouro do rock nacional, nos anos 80?
Edgard Scandurra - Era tudo um tanto irreal naquela época. Meses no Rio de Janeiro, gravando um disco. Equipes enormes viajando de avião pra cima e pra baixo, enquanto a inflação comia tudo, o tempo todo. Mas o sucesso era um alimento agradável, que nem todos souberam consumir.
Vicente - Qual a sua maior influência, aquele que o levou a querer ser um músico profissional?
Edgard Scandurra - Meu irmão, Marco Antonio, tocava em bandas amadoras quando eu era criança. Ele tocava muito e me apresentou ao Jimi Hendrix...Acho que eles dois são minhas grandes influências, que me levaram ao palco.
Vicente - Em poucas palavras, o que acha das seguintes bandas:
Ultraje a Rigor: essa banda eu dei o nome e ajudei a dar a ela a cara que tem até hoje, pois quando conheci Roger e cia, eles não se interessavam em cantar músicas próprias, mas sim covers dos Beatles, e fui eu que mostrei a eles que o lance era ter suas próprias músicas e estilo particular.
The Beatles: Geniais, em todos os seus discos, todos seus lances, suas declarações, individualmente grandes músicos e nunca serão superados.
Barão Vermelho: Banda roqueira carioca, tinha na poesia de Cazuza o seu grande diferencial e seguiu com a voz de Frejat por um caminho de sucesso .
Titãs: Os mais bem sucedidos companheiros dos anos 80, se perderam em alguns álbuns, mas merecem todo o meu respeito por uma carreira incrível de quase 30 anos.
Paralamas do Sucesso: Exemplo de que, sem amizade, uma banda não vai longe. Eles estão juntos a 30 anos, passaram por momentos muito difíceis e continuam juntos, como uma família. Admiro muito essa banda.
Vicente - Uma mensagem para os fãs e amigos que curte o seu trabalho e apostam na música nacional.
Edgard Scandurra - Queridos amigos, aguardem meus próximos trabalhos e continuem acompanhando a música nacional que esta cada vez melhor, podem acreditar!
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