Kamala: além do Thrash Metal

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Por Ben Ami Scopinho
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Natural de Campinas (SP) e com pouco mais de cinco anos de estrada, a Kamala vem se mostrando um dos mais promissores nomes de sua região. A prova concreta disso se apresenta com seu debut auto-intitulado liberado pelo selo Overload Records, que exibe um Thrash Metal bastante vigoroso e, principalmente, moderno. Ou seja, segue um caminho mais alternativo raramente trilhado pelos grupos nacionais.

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Tendo em sua atual formação Raphael Olmos (voz e guitarra), Andreas Dehn (guitarra), Adriano Martins (baixo) e Nicolas Andrade (bateria), a Kamala mostra que não que se limitar artisticamente. Nessa entrevista, Raphael e Nicolas deixam claro seu apreço pela cultura underground ao contar sua história e planos para o futuro.

Whiplash!: Olá pessoal! A Kamala liberou há alguns meses seu primeiro disco. Que tal começarmos com vocês dando uma geral na história da banda?

Raphael Olmos: Formei a banda em junho de 2003, em Campinas, com o objetivo de encontrar músicos que levassem o trabalho realmente a sério e com um único foco de estilo, que seria fazer música pesada e sem nenhuma limitação de rótulos ou algo do tipo.

Raphael Olmos: Lançamos nosso primeiro Demo "Corrosive" em 2005, e em 2007 estávamos prontos para lançar nosso debut. Entramos em estúdio no final do primeiro semestre e no final deste mesmo ano lançamos o CD "Kamala", que está sendo muito bem recebido pela mídia e pelo público. No final do ano passado o guitarrista Ralph Migotto decidiu sair da banda por motivos pessoais e no começo deste ano encontramos nosso novo reforço, Andreas Dehn. Desde sua entrada já começamos preparar nosso segundo trabalho e atualmente estamos na fase final. Temos a previsão de lançamento para o final deste ano.

Whiplash!: Não são muitos os conjuntos brasileiros que investem em um Heavy Metal tão moderno como a Kamala. Mesmo com uma identidade musical devidamente amadurecida no disco de estréia, vocês acham que já encontraram sua sonoridade ideal?

Nícolas: Na verdade penso que estamos em constante evolução, gostamos de experimentar coisas novas e traçar novos rumos para nosso estilo. Aliás, não nos consideramos dentro de um estilo definido, gostamos da liberdade na hora da criação de nossas músicas e acredito que, isso sim, seja o amadurecimento devido.


Whiplash!: Qual a idéia por trás da concepção gráfica – e do próprio nome da banda – que vai à contramão de toda essa sonoridade mais contemporânea?

Raphael: Kamala é uma deusa hindu que representa força e sabedoria. Não sou praticante da religião, assim como ninguém da banda é, mas gostamos muito da ideologia proposta. Sou uma pessoa muito ligada às energias e por isso procurei um nome que tivesse esse lado positivo e, ao mesmo tempo, fosse forte para ser facilmente lembrado.

Nícolas: Como o Rapha disse, a deusa Kamala é representante do poder, da força e da sabedoria na filosofia hindu, e a arte gráfica do CD representa isso de forma relativa e metafórica. Na verdade nós não usamos a imagem da deusa, o que torna o corpo nu emergindo da mandala de lótus, que é a única representatividade da deusa e do hinduísmo numa metáfora. E isso gera vários significados, não tendo um sentido absoluto, único.

Nícolas: O corpo pode ser entendido de várias formas, pois na capa ele está com vida emergindo da mandala e na parte interna ele está todo ressecado, sem ela (a mandala) que está estampada no CD, que quando é retirado exibe essa alusão, isso mostra que a flor de lótus é que dava a vida e a força ao ser que não tem face, o que o torna vulnerável a representações. Ele pode ser o medo de alguém que precisa de um elemento de coragem, ou uma sociedade que se torna vulnerável sem um objetivo, e por aí vai.

Whiplash!: A voz de Raphael Olmos se torna marcante pela agressividade quase mórbida! Quais são suas influências?

Raphael: Muito obrigado pelo elogio! Vou contar um fato curioso, pois virei vocalista por acidente, quem cantava no começo da banda era o Nicolas. Quando ele entrou na banda, já tínhamos baterista, porém devido a uns problemas a formação mudou, e quando não tínhamos baterista, o Nicolas falou que gostaria mesmo era de tocar bateria na banda. Passou um tempo e não arrumávamos um vocal, e meu amigo Gustavo, que logo depois se tornaria meu professor, falou para eu tentar tocar e cantar. Resolvi topar o desafio e trabalhei intensamente, pois nunca tinha passado isso na minha cabeça, em ser vocalista. Fiz pouco mais de dois anos de aula, que me ajudou muito, e nesse meio tempo retirei minhas amídalas, o que fez com que eu redescobrisse minha voz. Por ser ligado a lances orientais, conheci o DVD "Melissa Cross, Zen Of Screaming", onde ela utiliza técnicas budistas de fortalecimento das cordas vocais e conhecimento corporal. No DVD aparecem alguns de seus alunos como Randy Blythe do Lamb of God, Brian Fair do Shadows Fall, Philip Labonte do All That Remains, Mark Hunter do Chimaira, Angela Gossow do Arch Enemy, entre outros.

Raphael: Agora, depois da história, vamos às minhas principais influências no vocal (rs). São Corey Taylor (Slipknot e Stone Sour), Max Cavalera (Soufly e Cavalera Conspirancy, ex-Sepultura), Randy Blythe (Lamb Of God), Rob Flynn (Machine Head), Phill Anselmo (Down, Superjoint Ritual, Pantera) e Anders Fridén (In Flames e Passenger).

Whiplash!: Considerando que a Kamala faz uso de várias características que torna seu Heavy Metal algo mais alternativo, como está sendo a reação do público? O headbanger médio brasileiro geralmente é tão apaixonado pelo lado mais tradicional da coisa que acaba sendo bastante radical neste aspecto...

Raphael: Nossa escola é o Thrash Metal, mas também temos outras influências, até mesmo fora do Metal. Porém, desde o começo buscamos fazer um trabalho com personalidade, mesclando tudo o que admiramos e ao mesmo tempo criar algo que, quem escute, saiba que é o Kamala. Sabemos que não podemos agradar a todos, mas fazemos primeiramente um trabalho que nos agrada como músicos, e buscamos constantemente uma simples coisa: respeito. Respeito por um trabalho feito com muito profissionalismo e dedicação, e isso estamos percebendo até do público mais tradicional e que não admira algo com diversas influências, algumas delas atuais. Percebo que nosso público agrega pessoas que curtem mais o tradicional, pessoas que gostam de bandas mais modernas e até mesmo pessoas que não curtem bandas com som mais pesado/agressivo, mas gostam do Kamala. Procuramos trabalhar nos diferenciais para não criar alguma cópia de grandes bandas que já existem. E estamos conseguindo cada vez mais respostas positivas e cada vez conquistando mais fãs que acompanham a banda.




Whiplash!: Faixas como "Genocide", "Angel" ou "Take Away" são incríveis e suponho que tenham maior impacto ainda ao vivo. Qual o diferencial que vem fazendo com que suas apresentações estejam sendo tão comentadas por aí?

Nícolas: Temos feito o melhor possível para mostrar uma apresentação marcante às pessoas que nos assistem, com músicas bem executadas, visual e boa presença de palco. Estamos investindo ainda mais no que diz respeito à montagem do palco, com iluminação, a nossa bandeira e, além disso, recentemente conseguimos o patrocínio da Lady Snake Rock Wear, que está vestindo a banda com roupas que se incorporam no tema da própria arte gráfica e visual do palco. Isso tem sido um ponto muito forte nas nossas apresentações, pois mostrarmos que estamos ali com o público e para o público.

Whiplash!: O produtor Ricardo Piccoli (Venin Noir, Dead Nature e Scars Souls) conseguiu um resultado e tanto em "Kamala". Ele continuará com vocês no próximo CD?

Nícolas: Sim, inclusive já estamos com ele no estúdio finalizando as músicas novas. Ele fez um trabalho excelente no primeiro CD, além de ser um grande profissional e, acima de tudo, um grande amigo.

Raphael: O Piccoli é uma pessoa e um profissional fantástico, nos sentimos muito a vontade com ele, pois capta onde queremos chegar e trabalhamos em cima disso. Ficamos muito satisfeitos com nosso debut, e é aquela velha história, se está dando certo, para que mudar? Posso adiantar que o novo trabalho está soando muito forte, estamos confiantes e ansiosos para divulgar o máximo possível.

Whiplash!: Conseguir um selo é o sonho de toda banda. Como se deu sua parceria com a Overload Records? Há planos para o debut ser licenciado para outros países?

Raphael: A Overload Records já conhecia nosso trabalho através da demo e de alguns shows, e o Ricardo Piccoli já tinha trabalhado com eles em uma antiga banda. Então, quando o pessoal da Overload soube que estávamos gravando com ele, já começamos a conversar e tudo fluiu naturalmente. Temos o desejo de licenciar esse primeiro trabalho em outros países, mas não temos nada por enquanto, mas quem sabe no futuro conquistaremos isso, para esse e outros trabalhos.

Whiplash!: Ainda sobre o sucessor de Kamala... Poderia dizer onde as novas composições situam-se musicalmente? Afinal, agora vocês estão contando com o guitarrista alemão Andreas Dehn, que parece estar bem envolvido no processo de composição, certo?

Raphael: As novas composições estão mais maduras, pesadas e ao mesmo tempo mais melódicas. A formação da banda na demo era um trio, depois resolvemos acrescentar outra guitarra para deixar o som mais ‘cheio’, mas a maioria das músicas já estavam escritas. Ou seja, foram pensadas para soar bem ao vivo com uma guitarra, e com isso certos arranjos ficaram limitados.

Raphael: Porém, para esse próximo lançamento, trabalhei bem harmonias em duas guitarras, e com a entrada do Andreas, isso só ganhou mais força! Andreas é um grande músico, um cara muito determinado, com ótimo astral e, em tão pouco tempo, um grande amigo também. A energia nos ensaios, nas gravações e nos shows está muito positiva, foi sem dúvida um grande reforço para a banda. Andreas está, sim, muito envolvido com toda a banda e com este novo trabalho. Ele tem como principais pontos de sua personalidade como músico criar melodias e arranjos fortes.

Nícolas: Falar do Andreas é realmente muito fácil, o cara simplesmente se encaixou perfeitamente ao que estávamos buscando para nossa sonoridade. Ele compõe bem, faz ótimos arranjos, tem uma presença de palco fantástica, uma energia muito boa e se tornou um grande amigo para todos nós. Já é da família.

Whiplash!: Atualmente é consenso que as bandas não devam esperar lucros através da venda de CDs. A receita agora vem de shows e merchandise. A pergunta é: Como uma banda iniciante se vira nessa situação? Afinal, apresentações pelo Brasil é algo realmente complicado...

Raphael: Você tocou em um ponto muito importante e delicado. Primeiramente, estamos em um país onde a cultura não ajuda. Juntemos também a falta de apoio e valorização, por isso apóiem as pessoas/marcas que apóiam o Metal Nacional. Acho também que a estrutura e o público brasileiro estão melhorando, porém está longe de ser o ideal, com valorização justa por parte de certos produtores, estrutura para se realizar um show completo com qualidade e um maior apoio do público para com as bandas nacionais.

Raphael: São algumas coisas que caminham contra, mas acima de tudo, é o amor pelo que fazemos, o sonho em qual trabalhamos intensamente para realizar, ter uma boa divulgação e uma boa qualidade de vida no futuro, e, cada pessoa que em cima do palco que vemos conectadas com a banda, pessoas que por internet vemos que realmente amam o Metal, que isso é parte muito importante de suas vidas e que em alguns momentos as ajudamos a superarem algum problema pessoal com a nossa música, que faz com que fiquemos cada vez mais fortes e determinados a alcançar nosso objetivo!

Whiplash!: Como essa nova geração encara o fato de que, pelo menos num futuro próximo, não surgirão mais bandas do porte de Deep Purple, Iron Maiden ou Metallica?

Nícolas: Na verdade existe muito espaço, e esse espaço está se saturando de bandas, cantores e derivados. Mas isso é uma coisa muito controversa, pois quantidade não significa qualidade e talvez por isso muita gente não consiga enxergar que tem muita coisa boa nova surgindo. Têm muitas bandas relativamente novas que eu adoro e que, em minha opinião, são tão boas quanto os grandes artistas que marcaram época, mas isso é tudo questão de espaço e apoio dos fãs de música em geral. Claro que por trás destas grandes bandas existiu e ainda existe muito marketing e muito dinheiro pelo que eles fizeram e ainda fazem pela música, e por eles saberem administrar muito bem isso, estão onde estão. Eu acredito que ainda surgirão grandes bandas no metal mundial, mas também acredito que o apoio de fãs, organizadores, gravadoras e todos os envolvidos na música sejam essenciais para isso. Tem que haver vontade de fazer algo diferente, pois hoje em dia não adianta pensar que se vão fazer milhões com música, mas sim fazer boa música para milhões.

Whiplash!: Certo, pessoal... O Whiplash! agradece pelo seu tempo, e encerramos essa entrevista do modo tradicional: Ou seja, o espaço é de vocês...

Nícolas: Muito obrigado pelo espaço, gostaria de agradecer a você, Ben, e a toda equipe do Whiplash!. Gostaria também de agradecer a todos os nossos patrocinadores, a Lady Snake Rock Wear, Loja Krunner Instrumentos Musicais, Piccoli Studio, Studio Kaiowas Produções Cinematográficas e Newasko Design pelo apoio incondicional que tem nos dado. E é isso aí, apóiem o Metal Nacional, apóiem as marcas que apóiam o Metal Nacional e quem quiser conhecer a banda é só acessar o nosso MySpace no www.myspace.com/kmlthrash, também o nosso site oficial www.kamala1.net e, se quiserem conferir nosso som ao vivo e estiverem em Campinas ou região, podem assistir aos shows de abertura que faremos para as bandas Torture Squad e Sepultura nos dias 9 e 17 de maio respectivamente. Isso também foi uma grande conquista nossa e ótimo ver que estamos sendo reconhecidos. Valeu!

Raphael: Gostaria apenas de complementar o Nicolas, e agradecer todas as pessoas que acompanham e torcem pela banda. Fiquem ligados, pois esperamos ter muitas novidades para segundo semestre de 2009 e todo ano de 2010.

Fotos:
Estúdio: Daniell Marafon
Ao vivo: Suzana




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Sobre Ben Ami Scopinho

Ben Ami é paulistano, porém reside em Florianópolis (SC) desde o início dos anos 1990, onde passou a trabalhar como técnico gráfico e ilustrador. Desde a década anterior, adolescente ainda, já vinha acompanhando o desenvolvimento do Heavy Metal e Hard Rock, e sua paixão pelos discos permitiu que passasse a colaborar com o Whiplash! a partir de 2004 com resenhas, entrevistas e na coluna "Hard Rock - Aqueles que ficaram para trás".

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