A maior revolução do rock (também) é alemã: uma homenagem aos 50 anos de Autobahn
Resenha - Autobahn - Kraftwerk
Por Fabiano Farias
Postado em 13 de junho de 2024
Os conservadores me perdoem, mas é preciso admitir que o rock sempre foi um gênero de revoluções. Uma metamorfose ambulante que ressonava influenciando os demais núcleos da música popular mundial. Atualmente perdeu força comercial, um fenômeno que pode ser interpretado de várias formas — acredito que o empobrecimento dos padrões de canção, a pasteurização das gravações e a facilidade quase que instantânea de acesso formaram um público preguiçoso, intolerante ao experimentalismo sonoro e que pouco se importa com a música em si, mas aqui voltaremos a uma época em que nenhum desses problemas se notava.

Observamos o caso dos Beatles, carro-chefe da British Invasion: suas músicas já iniciavam no refrão, liberando aquela boa dose de dopamina. Uma fórmula radiofônica perfeita e copiada em outras fileiras para atingir o sucesso comercial.
Também podemos lembrar dos Stones: quando Beatles, Gerry & The Pacemakers e Peter & Gordon cantavam sobre a ingenuidade do amor na juventude, lançam sua magnum opus em 1965, que trata de... uma trepada malsucedida. E como as músicas ficaram mais safadinhas no pop a partir dali!
Ainda veríamos uns carinhas ousados, como os Beach Boys, os Moody Blues, Jimi Hendrix, o Velvet Underground... e o Black Sabbath, apenas sete anos (!) após o surgimento dos Beatles. Algum estilo muda tanto dessa maneira? Ou considerando a música em geral, o que acontecia de diferente em 2017 ao que se produz e consome hoje?
O mais inacreditável é que, mesmo com o volume e qualidade de bandas produzidas no contexto anglo-americano, a principal revolução no rock aconteceria na Alemanha. Um século depois do lançamento do Das Kapital de Marx, dois estudantes cheios de ideias (Florian e Ralf) fundam o Organisation. Um esboço que, logo após o lançamento de seu único álbum, se transforma no Kraftwerk.
Dispensando apresentações wikipédianas, o influente grupo alemão é considerado um marco na música eletrônica ainda hoje. O que muitos não sabem é que o grupo era parte de um movimento típico das terras germânicas no final da década de 1960 e início da década de 1970: o krautrock, denominação utilizada para diversas bandas do rock experimental alemão, de onde destacavam-se com as ótimas Eloy e Tangerine Dream.
Voltando aos nossos heróis, o estúdio Kling Klang, criado na mesma época que o grupo, teve importância fundamental como laboratório dessas ideias (como a bateria eletrônica!) desenvolvidas sequencialmente álbum após álbum. Após três trabalhos com elementos interessantes, surge em 1974 a grande revolução da história da música pop mundial e primeiro disco do conjunto a furar a bolha: o disco Autobahn, uma referência às autoestradas federais do país, que não têm limite de velocidade para algumas classes de veículos. É difícil descrevê-lo enquanto a obra-prima que é — até porque acredito que grandes filmes devem ser assistidos sem spoilers —, mas o minimalismo conceitual de Mike Oldfield aqui ganha um concorrente forte e ainda mais arrojado.
Fato curioso é que o disco, assim como toda e qualquer novidade boa, foi largamente imitado à época, inclusive em terras americanas e britânicas. Porém, ninguém tinha um Kling Klang à disposição. Isso a nível de estrutura e a nível do conhecimento adquirido pela dupla. O nível de tecnologia da produção era insano, desconhecido da maioria dos músicos pop e até dos mais célebres engenheiros de som. O minimalismo sonoro experimental definitivamente não era pra qualquer um nos meados da década de 1970, o que ficou claro quando algumas tentativas foram lançadas. A mais famosa delas, o péssimo Metal Machine Music (1975) do astro Lou Reed — que eu considero o pior disco de rock de todos os tempos. Outras bandas introduziram elementos eletrônicos ao seu som, mas os resultados não ficaram naturais, como o Black Sabbath em Technical Ecstasy (1976).
Coube então ao próprio Kraftwerk mostrar como se faz nos trabalhos seguintes, construindo um arcabouço de possibilidades para o desenvolvimento da música eletrônica mundial. O que culminou na proliferação de subgêneros nas décadas seguintes, como o new wave no rock, o electropop e posteriormente o techno, o eurodance e o trance. Quem imaginaria que o "Summer Eletrohits" da sua prima tinha raízes roqueiras, não é mesmo? Mas não precisamos amaldiçoar os rapazes de Düsseldorf por isso — tampouco pelo frisson atual em torno dos "DJs de pendrive" (TADEU, R.).
Florian infelizmente faleceu no ano de 2020 em decorrência de um câncer, mas o grupo continua ativo sob a liderança de Ralf. Recomendo que visite o Spotify e preste uma homenagem mais oportuna que os meus caracteres atabalhoados. Em tempos de mesmice artística, toda reverência a quem nos ensinou que o diferente era o que deveria ser feito — e muito bem feito!
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