Jack White: um disco estranho, mas que cresce com o tempo

Resenha - Boarding House Reach - Jack White

Compartilhar no FacebookCompartilhar no TwitterCompartilhar no WhatsAppSeguir Whiplash.Net

Por Ricardo Seelig
Enviar correções  |  Ver Acessos

publicidade

Certos discos desafiam o ouvinte. "Boarding House Reach", terceiro álbum solo de Jack White, enquadra-se nessa categoria. Depois de dois bem sucedidos trabalhos onde bebeu nas raízes do blues e do rock e temperou a mistura com alguns ingredientes contemporâneos para criar uma sonoridade bastante atraente e original, o ex-White Stripes virou tudo de cabeça para baixo em seu novo disco.

Ôôôôôeeee: Sílvio Santos aprovou montagem com Steve HarrisLegião Urbana: Eduardo e Mônica, uma análise psico-neurótica

"Boarding House Reach" saiu no final de março de 2018. Quase 45 dias depois, essa resenha foi escrita. Quando tive o primeiro contato com o álbum, não entendi nada. Absolutamente nada. E confesso que isso me frustrou e me irritou, porque gostei muito tanto de "Blunderbuss" (2012) quanto de "Lazaretto" (2014). Apesar disso, não me dei por vencido e retornei ao disco diversas vezes durante todo esse tempo. Talvez essa atitude tenha aos poucos "amaciado" os meus ouvidos, acostumando-os às experimentações propostas pelo vocalista e guitarrista. É, talvez tenha sido isso.

O fato é que "Boarding House Reach" não é, em nenhum aspecto, um disco fácil. Assim como não é, em nenhum momento, um álbum ruim. Trata-se do trabalho mais experimental da carreira solo de Jack White, um cara que sempre gostou, desde os tempos do The White Stripes, de romper limites e ver até onde poderia levar a sua música. Em seu novo trabalho, White experimenta com colagens sonoras, efeitos eletrônicos, vocais que se aproximam do rap e canções estruturalmente estranhas, com andamentos longe do comum e ideias nada óbvias. Essa postura, por si só, já é digna de elogios e mostra a inquietude de um músico que já passou dos 40 anos, dono de uma carreira com duas décadas de duração e ainda disposto a desafiar sua criatividade.

Como acontece com todos esses álbuns que causam estranheza aos nossos ouvidos ao nos depararmos com eles pela primeira vez, "Boarding House Reach" requer um tempo e um estado de espírito para que se consiga entender o que Jack White está propondo. E, quando finalmente conseguimos assimilar o que sai das caixas de som, o arrebatamento é inevitável. Não vou ser hipócrita e afirmar que estamos diante de um disco genial, até porque não acho isso. Mas não há como negar que há uma enorme dose de talento e inventividade presente nas treze faixas do trabalho, em doses tão grandes que em alguns momentos o ouvinte é realmente desafiado a conseguir entender o que está acontecendo.

A canção mais convencional do álbum é "Over and Over and Over", não por acaso a faixa que a maioria do povo que escutou o trabalho apontou como destaque imediato. Claro, ela não causa estranheza e não rompe com nada, é "apenas" uma senhora composição dona de um ótimo riff. Todos os elogios são merecidos.

Há ecos, por exemplo, da inesquecível e injustamente pouco conhecida Incredible Bongo Band espalhados aqui e ali. Eles aparecem em doses homeopáticas em "Over and Over and Over", mas assumem o protagonismo em "Corporation", com percussões e batidas que fazem o coração e o corpo pulsarem. O clima urbano e contemporâneo dá as caras em faixas como "Everything You've Ever Learned" e sua letra declamada. A abertura, com "Connected By Love", mostra como o U2 manteria o seu ar profético mesmo sendo mais experimental. "Respect Commander" é, provavelmente, a síntese da explosão de ideias de "Boarding House Reach", com colagens, riffão meio Jimmy Page e uma passagem que é jazz-rock puro lá no meio.

A questão é que não há como sair indiferente após a audição do novo álbum de Jack White. E essa sensação, em uma época em que somos expostos a um volume imenso de informação musical e pouco guardamos em nossos ouvidos, é algo digno de elogios.

"Boarding House Reach" é um disco corajoso. E, em grande parte de suas canções, acerta na experimentação. Algumas faixas, principalmente o trio final, são realmente dispensáveis, mas há momentos fortes em maior número, o que faz a audição valer a pena.

Insista, você não irá se arrepender.



GosteiNão gostei

Compartilhar no FacebookCompartilhar no TwitterCompartilhar no WhatsAppSeguir Whiplash.Net


Todas as matérias da seção Resenhas de CDs e DVDsTodas as matérias sobre "Jack White"


Jack White: Sem laços de amizade com a eremita Meg WhiteJack White
Sem laços de amizade com a "eremita" Meg White

Jack White: por que a próxima revolução do rock como o grunge é iminente?Jack White
Por que a próxima revolução do rock como o grunge é iminente?


Ôôôôôeeee: Sílvio Santos aprovou montagem com Steve HarrisÔôôôôeeee
Sílvio Santos aprovou montagem com Steve Harris

Legião Urbana: Eduardo e Mônica, uma análise psico-neuróticaLegião Urbana
Eduardo e Mônica, uma análise psico-neurótica


Sobre Ricardo Seelig

Ricardo Seelig é editor da Collectors Room - www.collectorsroom.com.br - e colabora com o Whiplash.Net desde 2004.

Mais matérias de Ricardo Seelig no Whiplash.Net.