A Flock of Seagulls: lindo e energético álbum com orquestra
Resenha - Ascension - Flock of Seagulls
Por Roberto Rillo Bíscaro
Postado em 13 de agosto de 2018
Nota: 10 ![]()
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Nas cada vez mais raras vezes em que é lembrado, A Flock Of Seagulls costuma vir à tona, quando se fala em artistas de apenas um sucesso, dos anos 80 ou para ironizar seus penteados estapafúrdios. Considerando-se que dois de seus fundadores eram cabeleireiros, eles deveriam tomar isso como elogio, até porque deram sorte de surgir praticamente juntos com a MTV. Assim, seu visual chamativo propulsionou o breve sucesso de massa, concentrado em 1982.
Formado em Liverpool, em 1980, o quarteto nunca fez tanto sucesso em seu país natal, por isso Mike Score vive nos EUA até hoje. Foram três álbuns entre 82-4 e desde então incontáveis mudanças de formação, desavenças, pitis, muitas turnês capitalizando o saudosismo oitentista e, volta e meia, menção aqui, outra acolá ou algum sucesso usado em comercial ou vídeo-game. Mesmo sem lançar álbuns, A Flock Of Seagulls (AFOS), aka Mike Score, se manteve na periferia dos radares pop.
Agora sem cabelo, o quarteto original se reuniu para gravar Ascension, lançado dia 6 de julho. É a primeira vez que o AFOS de verdade se junta, desde a dissolução há mais de 30 anos. Seguindo a tendência orquestral de Visage e Midge Ure (link para resenha ao final desta), os britânicos regravaram seus sucessos, acompanhados pela Sinfônica de Praga. Não custa lembrar que o levantamento da Cortina de Ferro abriu o leste europeu e a fragmentada União Soviética para os artistas 80’s já em baixa no ocidente. Juntou fome com vontade de comer: os ex-comunas gulosos de viver, mesmo que com atraso, as delícias oitentistas, com velhas estrelas pop sequiosas por mais alguns momentos de fama e dinheiro. Então, talvez não seja mero acaso que o Orchestral, do Visage, tenha sido gravado com a mesma orquestra acompanhante do AFOS.
Assuma-se o quanto se quiser qualquer atitude de condescendência cool em relação ao "comercialismo" do AFOS, mas sua sonoridade cruzada entre Kratfwerk e (pós)-punk, com restolhos visuais, temáticos New Romantic, é uma das características dos três, quatro primeiros anos da década. O frio fluxo incessante de teclados é entrecortado e sobrepujado por crispas de guitarra gélida, baixão meio sombrio, bateria marcada e vocais robóticos, despersonalizados. Sem contar os diversos tremeliques e barulhinhos da produção.
Com Ascension, AFOS prova ser cônscio de seu papel como um dos ícones – para o bem e para o mal – do som dos 80’s: ao invés de reinventar as canções, o quarteto original regravou-as o mais fidedignamente possível, com todos os maneirismos de produção de então. A orquestra serve para dramatizar, fortificar, adocicar, criar introitos e intermezzos, como é o literal caso da faixa-título, única inédita, curto número orquestral antecedendo a hipnótica Wishing (If I Had a Photograph Of You), que inicia teutônica, mas cujo tratamento orquestral confere arzinho de Jean-Michel Jarré, fase Les Concerts en Chine, de 1982, aliás. Zeitgeist é vida.
Faixas dançantes continuam puláveis; Ascension não pretendeu conferir "dignidade" orquestral a delícias como I Ran, Modern Love Is Automatic, Telecommunication, Nightmares (que baixo lúgubre!), DNA ou Electrics. Mesmo algumas mais lentas, como Space Age Love Song; The More You Live, The More You Love (resplandecente) e Transfer Affection não são baladas, mantém aquela fluidez deslizante dos jovens que cantavam um futuro imaginado de amores computadorizados, eletricidade de neon, mas sempre com o holocausto nuclear como horizonte possível. E é esse caráter distópico da ficção-científica do AFOS, que encerra o álbum com Man Made e seu casamento de Kraftwerk com Joy Division.
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