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U2: A jornada entre a inocência e a experiência

Resenha - Songs of Experience - U2

Por Vivianne Nunes
Em 04/12/17

Songs of Experience, prometido desde 2014 pelos irlandeses, chega aos ouvidos de todos os fãs. Já tivemos algum aperitivo com lançamentos e apresentações ao vivo de algumas faixas: The Blackout, You Are The Best Thing About Me, Get Out of Your Own Way, American Soul e The Little Things That You Give Away. Apesar desta grande espera irritar a muitos, podemos dizer que na realidade ela é muito maior. Nas próximas linhas vamos fazer uma análise das influências da banda, de como a turnê dos 30 anos de Joshua Tree se encaixa nessa busca e além de comentar nossas expectativas e opiniões sobre o que está por vir.

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William Blake, a inocência e a experiência

Bono é capaz de citar em meia-hora de entrevistas mais de uma dúzia de influências / inspirações / ídolos, que podem ir desde Jesus Cristo até Kayne West.

William Blake entrou nesse rol de inspirações do nosso vocalista. O inglês nascido em 1757, atuou como pintor e tipografo e poeta. Vivendo em um momento único da História, marcado pelo Iluminismo e pela Revolução Indústria em seu país, Blake dizia desde criança possuir o dom de ter visões, a primeira delas teria acontecido aos nove anos quando declarou ter visto anjos. Junto com o seu dito dom sobrenatural floresceu o seu talento, aos 10 anos ele já escrevia e ilustrava seus próprios poemas, além de realizar cópias de desenhos da Antiguidade trazidos pelo seu pai. Blake escreveu mais de 20 livros, e apesar de estar inserido na realidade do Iluminismo, quando a ciência parecia dar um passo a frente dos dogmas religiosos e da fé, os seus escritos sempre tiveram uma áurea mística, o que acabou por infelizmente fazer com que o seu trabalho só alcançasse o reconhecimento posteriormente a sua morte. Blake não se apegava a uma religião, porém misturava em um a própria mitologia aspectos da cultura judaico-cristã, influências pagãs, especialmente das lendas druidas além de uma carga grande de filosofia. Blake, como alguns autores do século XX que acabaram por encantar milhares com a sua própria mitologia a exemplo de J.R.R Tolkien e o seu Senhor dos Anéis, ou J.K. Rowling com o seu universo único em Harry Potter; deuses apareciam como personagens em suas obras, símbolos aparecem para comunicar a sua visão e a sua ideologia. Mesmo sem se afastar da sua fé, e da fé protestante cristã que dominava a Inglaterra na época, incorporando figuras bíblicas e a maioria dos seus valores em sua poesia, Blake foi um revolucionário em realizar a fusão de diversos pontos para comunicar a sua mensagem e utilizar importantes elementos para mesmo que de forma velada compartilhasse os novos ideias e visão da época que começaria a mudar a cultura ocidental.

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Blake e a sua influência na cultura pop

Nascido em uma tradicional e rica família britânica, Edward Alex Crowley (1875-1947), tornou-se conhecido por ter sido uma influente figura na cultura do século XX, mas não por sua linhagem, mas pelo seu interesse no ocultismo, sendo considerado "o mago" da última geração. A partir da morte do seu pai, rebelou-se contra o cristianismo, se interessando pela magia negra e outras artes, recebendo o apelido de A Besta inicialmente por parte de sua mãe. Ingressando no Trinity College, em Cambridge, como aluno do curso de filosofia em 1895, mudou seu nome para Aleister no mesmo período. Referenciado como sendo influente nas obras de nomes como Jimmy Page – que comprou não apenas a mansão na qual Crowley viveu e muito de seus pertences -, Ozzy Osbourne – que compôs Mr. Crowley inspirado por ele -, Bruce Dickinson, David Bowie, Beatles e Raul Seixas, foi ele próprio talvez um dos primeiros grandes influenciados e curiosos sobre a obra de William Blake, os seguidores dele, portanto passaram a absorver, mesmo que de maneira indireta a mitologia e a criação do universo idealizada por Blake.

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Outro influente nome da cultura no século XX que teve a sua obra profundamente influenciada por William Blake, foi o também britânico Aldous Huxley, o autor do renomado Admirável Mundo Novo, de 1932, a influência foi tanta que ele chegou a citar trechos de Blake nas suas obras. The Doors of Perception (As Portas da Percepção), de 1954, foi batizado como referência a um poema escrito por William The Marriage of Heaven and Hell* (O casamento entre o céu e o inferno), no livro Huxley defende o uso de drogas psicotrópicas, como chave para a libertação da mente criativa. E se você se lembrou de uma outra influente banda ao ler esse nome, sim, o The Doors se inspirou nele para batizar o grupo, e consequentemente em Blake, já que "Se as portas da percepção estivessem abertas, o homem poderia ver as coisas como realmente são: infinitas."

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Aquele que chacoalhou o mundo ao vencer o Nobel de literatura em 2016, Bob Dylan é mais um dos que bebeu das fontes de Blake e seus poemas. Se a voz de Dylan pode soar estranha aos ouvidos de alguns, meio fanhosa, meio desafinada, a sua poesia é de difícil contestação. Tarantula livro de poemas publicado em 1971 com poemas de Dylan talvez seja a sua primeira aproximação com a literatura formal, e lá com as imagens, alegorias e toda a mitologia os ecos de Blake estão presentes. Allen Ginsberg, poeta da mesma geração de Bob trabalhou com ele na possibilidade da gravação de algum dos poemas de Blake.

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Poderíamos estender a lista das influências de Blake, a Patti Smith, aos quadrinhos de Alan Moore, a filmes como Dragão Vermelho, mas sendo Dylan uma das maiores inspirações de Bono, paramos aqui e colocamos Blake frente a frente com os rapazes de Dublin.

De todos os trabalhos de Blake, definitivamente o mais conhecido são as Canções de Inocência e de Experiência (Songs of Innocence and Experience). O primeiro volume, publicado em 1789, trazia nas suas primeiras cópias desenhos feitos pelo próprio autor como ilustrações para os textos. Cinco anos depois, a obra foi complementada por um outro volume recebendo o nome de Songs of Innocence and of Experience Showing the Two Contrary States of the Human Soul (Canções de Inocência e de Experiência Revelando os Dois Estados Contrários da Alma Humana).

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Songs of Innocence, as canções da inocência, são compostas por 19 poemas. A Inocência de Blake, assim como a Experiência, são modos de percepção em relação a consciência humana. A infância é uma época com o estado da inocência, mas não imaculada, apenas protegida, não sendo imune ou isolada do mundo em sua volta. Os medos, anseios e a transformação pelo qual passamos por toda a infância estão descritos ali. E as mudanças que atingem a inocência, fazem com que o mundo seja feito através da experiência, que se junta no segundo volume, com os estados contrários entre os dois livros. Se na Inocência existe O Cordeiro, na Experiência passam a existir The Fly (A Mosca) e The Tiger (O Tigre).

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Em 2014, quando a banda lançou Songs of Innocence, Bono logo anunciou que o álbum seria sucedido por Songs of Experience, numa clara e assumida referência aos trabalhos de William Blake. Agora após 4 anos de espera, o segundo volume da obra do U2 está prestes a ser lançado, no dia 01 de dezembro, porém podemos verificar que a relação entre os irlandeses e o poeta inglês é muito mais profunda e muito mais antiga do que isso.

Enquanto todos aguardavam o atrasado, prorrogado e prometido novo trabalho, fomos surpreendidos pelo anúncio no início deste ano da turnê comemorativa aos 30 anos daquele que foi o disco que tornou o U2 a maior banda do planeta, e definiu não apenas a música no final dos anos 80 e início dos 90, mas o modo como o rock e as turnês se desenharam desde então: The Joshua Tree. Apesar de toda a comoção causada e do sucesso absoluto – claro além do sonho realizado por muitos (incluindo nós no Brasil) de ver tal obra-prima tocada ao vivo e na íntegra -, na cabeça de muitos fãs essa peça não se encaixava, pois não havia sido prevista ou anunciada. Seria apenas mais uma estratégia de marketing para tirar alguns milhares de dólares dos seus seguidores? Seria um tapa-buracos porque o novo disco estaria mais uma vez muito fora do przo? Falta de criatividade? Qual seria a estrutura?

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Na realidade a turnê de 30 anos de Joshua Tree fez todo o sentido, é a ponte perfeita e a essência da jornada entre a inocência e a experiência vivenciada pelo U2.

Há 10 anos, em 2007, quando o mesmo álbum fez 20 anos, a banda lançou edições especiais comemorativas; em meio ao material é claro que surgiram músicas até então desconhecidas ou pouco conhecidas pelos fãs do U2. B-sides, sobras de estúdios, músicas inacabadas, muitas delas viram a luz do dia e alcançaram aos ouvidos como nunca antes. Dentre elas está Beautiful Ghost / Introduction to Songs of Experience. Sim, em 1987, William Blake, a Inocência, a Experiência e o U2 já tinham um promissor flerte. Gravada no estúdio STS, então localizado na região do Temple Bar na cidade natal da banda como uma demo, a letra é inteiramente retirada de Hear the Voice of the Bard, escrito por Blake como abertura para o seu Canções da Experiência. Com sons que beiram o fantasmagórico, como o próprio título da música alardeia, sentimos Bono sussurrar em tons perdidos os trechos de Blake. Sabendo que o vocalista bebe de muitas fontes e sempre foi um ávido leitor, encontrar os textos do inglês dentre as suas citações nunca chegou a parecer algo "estranho".

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Songs of Innocence foi descrito pela própria banda como sendo um disco sobre "primeiras vezes". O primeiro amor, o modo como encontraram a sua voz, a saída da adolescência, as perdas. É um álbum cinematográfico até certo ponto para aqueles que conhecem bem a biografia do U2 e os pontos que marcaram a vida de seus integrantes. Bono nos pega pela mão e nos guia pela morte de sua mãe, pela rua onde cresceu e encontrou suas amizades, por como descobriu um meio de cantar apenas imitando em certo ponto seus ídolos, o encontro da sua primeira paixão, os conflitos com o qual conviveu sendo adolescente na dividida Irlanda, pela mesma Irlanda somos levados a lamentos sobre escândalos envolvendo a Igreja Católica para posteriormente sermos guiados pelo sol da Califórnia e o sonho dos garotos em alcançarem a sua terra prometida. É o fim da inocência, como nas primeiras obras de Blake. E o absorver a realidade que cerca e ser moldado em busca do seu novo caminho. A natureza, a religião, a experimentação, o novo, o amor, os medos, são nuances pintadas em cada ponto.

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E quando mais podemos definir o final da inocência do U2 do que com a gravação e a explosão de The Joshua Tree? Sendo assim, o surgimento de uma turnê em comemoração aos 30 anos dele veio selar brilhantemente esse ponto cruzado pelos 4 meninos que se ali tornam-se homens e alcançam a terra prometida através do disco de 1987. A inocência foi perdida ali, quando em meio a uma saraivada de críticas positivas, prêmios e estádios lotados também vieram dedos apontados e agressões, foi perdida quando eles tiveram que pela primeira vez adentrar ao seu Éden não como promessas, mas como os tocadores das trombetas da verdade, foi quando eles se viram no mesmo patamar dos seus deuses, foi quando deixaram a suas casas por meses a fio. Revisitar todas essas emoções agora com o selo de maior banda de rock da atualidade faz todo o sentido para concluir a jornada até a experiência e encerrar esse ciclo no qual se encontram.

Em todas as entrevistas de "pré-divulgação" do álbum, Songs of Experience tem sido descrito como tido uma forte influência do estado de Bono nos últimos tempos, de acordo com o que foi dito e não dito, um problema de saúde acometeu o vocalista, que o fez perceber de maneira profunda a sua própria mortalidade. Rumores e especulações sobre o que teria acontecido não deixaram de surgir e povoar a cabeça de todos, mas sabemos que Bono encarou o final de perto realmente nestes últimos tempos, e não estamos sendo alarmistas sobre isso: o histórico vem desde a cirurgia que sofreu na coluna e fez com que a turnê 360 fosse pausada, passando pelos ataques terroristas em Paris e Nice em momentos nos quais a banda estava presente e claro com o acidente de bicicleta acontecido no Central Park que o fez passar por cirurgias e ficar um bom tempo fora de circulação. Em uma das entrevistas Bono cita também a morte de pessoas próximas como influências nas suas composições, pessoas próximas e geniais: David Bowie e Leonard Cohen, e talvez Bowie seja realmente um bom paralelo para entendermos as letras e o momento vivido por Bono e a banda.

Em 2003, Bowie lançou Reality que acabaria sendo o disco que culminaria na turnê que se tornou a última de sua carreira – ela foi interrompida depois que o cantor teve que se submeter a uma cirurgia de coração após ter passado mal durante um show na Alemanha – e um hiato de 10 anos sem o lançamento de uma única nova música. Gravado em Nova York – mais uma das cidades que encanta e influência o U2 – David então com 56 anos – Bono está com 57 – começa a encarar pela primeira vez nas suas músicas a sua finitude. Ele não era mais o homem das estrelas, um alienígena, um rockstar, ele percebia que estava na hora de na verdade prestar atenção que chegara o momento que ele passaria a ser um legado, e acima de tudo que na realidade era antes de tudo humano apenas. A música título nos dá uma clara ideia disso:

Hey, now my sight is failing in this twilight
Hey agora a minha visão está falhando neste crepúsculo
Da da da da da da da da da
Now my death is more than just a sad song
Agora a minha morte é mais do que apenas uma música triste.

My Death também é uma música de Bowie dos seus tempos de Ziggy Stardust, mas nesse contexto talvez ele não cite a música em si apenas, mas encare isso como um fato próximo, a realidade que está presente em todas as letras do disco e assim parece que Bono e companhia irão soar em seu novo álbum. As músicas foram descritas como sendo cartas do vocalista aos seus entes e pessoas queridas. You Are The Best Thing About Me é sobre Ali, e o medo que Bono disse de tê-la perdido depois de um sonho ruim. Get Out Of Your Own Way é direcionada por Bono a suas filhas, enquanto There Is A Light é para seus filhos. Songs of Eperience parece soar como o começo do testamento do U2 para as futuras gerações, tanto de pessoas próximas, como de fãs, músicos e o mundo. Talvez eles comecem a enxergar o início do fim, não da banda, mas os próprios, é uma melancolia verdadeira. A banda viveu muitos momentos, não apenas Bono como dito acima. Edge é um avô. Larry perdeu seu pai. Adam é marido e pai. Nas audições realizadas alguns disseram que é a primeira vez que Bono é "tão humano" em muito tempo, e sendo humano, a empatia e absorção das emoções daqueles que estão com ele há tanto tempo não podem deixar de ser uma influência.

Como Bowie deixou de ser Ziggy, talvez Bono tenha deixado finalmente de ser The Fly, desapegado um pouco do seu espírito messiânico e tenha apenas se tornado um homem no auge os seus 50 e poucos anos, sentado na janela de sua casa e pensando no que construiu e no mundo que o cerca, no que vai deixar e no que está por vir. Essa é a experiência, esse é o ponto, não baixo ou alto, mas a encruzilhada que o nosso frontman se encontra. Passado, presente e futuro.

Entre temores santos, senta e chora,
De lágrimas regando a terra inteira;
E a raiz da Humildade se elabora Debaixo de seus pés, em meio à poeira.
A essência humana – retirado de Canções da Experiência, William Blake

* Nota de rodapé: a análise da influência de Blake ao U2 segue nos próximos capítulos do especial, mas para não perder o gancho, durante as gravações de Achtung Baby a banda gravou uma música com o título de "Heaven and Hell". Coincidência?


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