U2: álbum agrada, mas patina em modernices
Resenha - Songs of Experience - U2
Por Victor de Andrade Lopes
Fonte: Sinfonia de Ideias
Postado em 29 de dezembro de 2017
Nota: 6 ![]()
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Demorou três anos, mas finalmente o lendário quarteto irlandês U2 apresentou ao mundo o "irmão" de Songs of Innocence, Songs of Experience. Álbuns irmãos geralmente vêm no mesmo ano (vide os Universal Migrator do Ayreon; Mezmerize/Hypnotize do System of a Down; Justice/Guilty do GLAY, etc.), mas muita coisa aconteceu no último triênio - e o conjunto de eventos acabou atrasando o lançamento do trabalho, que virou quase uma colcha de retalhos.
Extensas turnês mundiais, um acidente de bicicleta que deixou Bono temporariamente de molho, a escalada conservadora pelo mundo e a incapacidade dos próprios membros de ficarem plenamente satisfeitos com o produto: tudo isso foi fundamental para o disco ficar com essa cara.
As turnês forçaram a banda a escrevê-lo aos poucos, entre um show e outro - fórmula que já se tornou bastante comum atualmente. Ao mesmo tempo, o acidente de Bono deu ao vocalista bastante tempo para criar música nova. Por outro lado, os novos paradigmas sociopolíticos fizeram o grupo refletir se o álbum como ele estava em 2016 passava a mensagem que eles realmente gostariam de expressar como resposta às mudanças. Por fim, a produção frankensteiniana viu os membros gravarem suas partes separadamente, sendo que eles preferiam preparar o disco juntos. Assim, os quatro decidiram refazer quase tudo.
E no que deu tudo isso? Bem, a abertura "Love Is All We Have Left" empolga tanto quanto uma chuva de meteoros num dia nublado, mas a coisa começa a melhorar logo depois. "Lights of Home", que reaparece numa interessante versão em cordas entre as faixas bônus da edição de luxo, é um trabalho de mais atitude, mais condizente com o que a banda é hoje.
Ao longo do disco, especialmente na primeira metade, veremos várias canções que, em maior ou menor grau, mantêm a essência do U2 ao mesmo tempo em que incorporam elementos modernos. Com "essência", refiro-me às linhas marchantes de Larry Mullen Jr., o baixo proeminente de Adam Clayton, os acordes e licks rústicos de The Edge e o interessante diálogo que os dois instrumentos travam há quatro décadas. E com "elementos modernos" quero dizer, por exemplo, camadas de teclados valorizadas na mixagem e batidas eletrônicas.
Esse lado do álbum se manifesta em "You're the Best Thing About Me" (cuja remixagem do DJ norueguês KYGO é legal por si só, mas graças a Lemmy, aparece apenas como bônus da edição de luxo em CD), "The Showman (Little More Better)", "Red Flag Day", "The Blackout" (que também foi remixado numa faixa bônus, desta vez por Jacknife Lee, e cujo resultado ficou chatíssimo) e a interessante faixa bônus "Book of Your Heart", cuja roupagem rústica lhe confere um jeitão de demo.
Outros possíveis exemplos são "Get out of Your Own Way" e "American Soul", que se distinguem das outras por serem emendadas por um breve discurso do rapper Kendrick Lamar, queridinho da crítica mainstream. "American Soul", especificamente, é de uma crueza notável, descrevendo o país como um conceito, em vez de um pedaço de terra.
Mas Songs of Experience também tem seus patinhos feios. "The Little Things That Give You Away" e "Landlady", que apresentam sintomas de coldplayzação; a balada de rock moderninho "Love Is Bigger Than Anything in Its Way"; o insosso remix de "Ordinary Love", que pouco mudou a homenagem em vida a Nelson Mandela; e "Summer of Love", pop rock meio praiano com a tímida (imperceptível?) participação de Lady Gaga. Aliás, são vários os vocalistas que aparecem mais no encarte que nas próprias músicas das quais participam.
"13 (There Is a Light)" parece um dos "vilões" do disco, com seu instrumental minimalista e sua percussão excessivamente abafada, mas sua delicadeza, sua letra verdadeiramente inspirada e sua vocação para ser a acendedora oficial de celulares e isqueiros nas próximas turnês do grupo a tornam, na verdade, um dos destaques.
Um dos maiores méritos de Songs of Experience é permitir, na maior parte das vezes, que o quarteto todo soe nítido a despeito dos produtores, tecladistas e programadores envolvidos, que formam um time mais numeroso - bem diferente do que vem ocorrendo com o Coldplay e o Linkin Park, por exemplo, que se deixaram soterrar por camadas e mais camadas eletrônicas.
Por outro lado, o álbum patina em modernices dispensáveis e sofre para se manter coeso, talvez devido à produção feita aos trancos e barrancos e por várias pessoas diferentes. A inconstância não é exatamente uma novidade para este grupo que nunca fez um disco cheio de músicas iguais, mas as faixas diferentonas às vezes destoam tanto que dão a ele uma carinha de coletânea. Ouço uma banda querendo soar fiel ao seu passado, mas constantemente seduzida pelas tentações do presente.
O décimo quarto lançamento de estúdio do U2 não chega a ser ruim porque, oras bolas, é o U2. Mas está abaixo dos melhores momentos do catálogo do quarteto. Todo fã vai querer ter o CD na sua estante, mas possivelmente ele acabará acumulando poeira.
Abaixo, o vídeo de "You're the Best Thing About Me":
Track-list:
1. "Love Is All We Have Left"
2. "Lights of Home"
3. "You're the Best Thing About Me"
4. "Get out of Your Own Way"
5. "American Soul"
6. "Summer of Love"
7. "Red Flag Day"
8. "The Showman (Little More Better)"
9. "The Little Things That Give You Away"
10. "Landlady"
11. "The Blackout"
12. 'Love Is Bigger Than Anything in Its Way"
13. "13 (There Is a Light)"
14. "Ordinary Love (Extraordinary Mix)" (faixa bônus da edição de luxo)
15. "Book of Your Heart" (faixa bônus da edição de luxo)
16. "Lights of Home (St Peter's String Version)" (faixa bônus da edição de luxo)
17. "You're the Best Thing About Me (U2 vs Kygo)" (faixa bônus da edição de luxo em CD)
18. "The Blackout (Jacknife Lee Remix)" (faixa bônus da edição de luxo em CD japonesa)
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