Moonspell: "1755", um povo caído, tremendo, sem deus
Resenha - 1755 - Moonspell
Por Emanuel Leite Jr.
Postado em 07 de novembro de 2017
Nota: 9 ![]()
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Hegel escreveu que a história é cíclica. Sem discordar, em "O 18 Brumário de Luis Bonaparte", Marx foi além. Acrescentou, e bem, que a história se repete sim, mas "a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa". Não deixa de ser irônico que em 2017, ano em que os portugueses do MOONSPELL lançam o álbum "1755", que conta a história do terremoto (seguido de tsunami) que devastou Lisboa em 1º de novembro de 1755, Portugal tenha voltado a ser devastado pela força da natureza (os incêndios que tiraram a vida de 109 seres humanos e deixaram um rastro de destruição). Porém, e embora a história nunca se repita da mesma maneira (em 1755 de dimensões muito mais destruidoras e em 2017 muito por conta da ação, e também da falta de ação, humana), não deixa de ser notável que num álbum em que se fale do passado, a temática, as críticas, os lamentos e a conclamação à reconstrução sejam tão lamentavelmente atuais.
O álbum abre com uma nova versão de "Em nome do medo" (originalmente do "Alpha Noir" [2012]). Uma reinterpretação orquestrada, mais sombria e introspectiva que a original e que se coaduna com a temática apresentada, afinal o medo é este sentimento que nos deixa alertados e nos permite a sobrevivência, tão necessária quando é preciso reerguer-se das cinzas. A faixa-título "1755" é tensa, agressiva, como o tremor que se avizinha. A interpretação de Fernando Ribeiro exprime bem o sentimento de perda da tragédia que se aproxima. Os riffs potentes e acelerados da guitarra representam a agressividade. Teclados, orquestrações e coros dão o ambiente de temor e tensão. Há ainda passagens com sonoridade que alude à música árabe, cultura tão presente na história de Lisboa.
"In Tremor Dei" dá sequência ao álbum e é a primeira canção cuja letra apresenta uma crítica a deus, que nos faz lembrar a do nobel português José Saramago. A pertinente acidez de expor as contradições de um deus, pretensamente todo poderoso, mas que não passa de um gerador de exclusão, perseguidor de seus fiéis e temerosos seguidores, que em seu nome travam guerras sangrentas e homicidas. Com participação do fadista Paulo Bragança, que com seu timbre assombroso dá outra dimensão à dramaticidade da (re)interpretação deste momento de pavor em que as vítimas se sentem perdidas e abandonadas à própria sorte, diante do poder destrutivo e avassalador da força da natureza. Uma Lisboa que, caída, treme sem deus. "Desastre" volta a criticar "um deus cruel" (como certa vez disse Saramago). Os escravos de deus, como urra Fernando Ribeiro, padecem diante do desastre por ele criado. O mesmo deus que, a propósito, voltou a abandonar os portugueses em 2017. A chuva que pecou por tardia em 2017. O tremor de 1755. Os homens que sucumbiram diante dos desastres que aconteceram.
A seguir, um "Abanão" com excelentes linhas de baixo e bateria, riffs pesados, vocal seco e agressivo como o tremor que abala a terra, orquestração e teclado criam o ambiente de apreensão e angústia da terra que treme. "Evento" tem bela introdução de baixo, riffs de guitarra acelerados, refrão pegajoso, daqueles que basta escutar uma vez para não te sair da memória e te fazem sair cantando mentalmente logo a seguir. E, mais uma vez, a crítica ao abandono divino, e a uma fé que de nada serviu para as milhares de vítimas de 1755. E se no século 18 o "fica quieto" apelava ao conformismo às vontades de deus, no século 21, o Primeiro-Ministro, António Costa, e a então Ministra da Administração Interna, Constança Urbano de Sousa, disseram aos portugueses - "sossega-te" -, pois as alterações climáticas assim impõem (como se os responsáveis pela coisa pública nada pudessem fazer pelo povo pelos quais respondem).
Não é fácil dizer isto, num álbum composto por músicas excelentes, mas "1 de Novembro" é de caras uma das minhas preferidas do "1755". É arrebatadora! Um convite ao headbanging com seus riffs rápidos e agressivos. A crueza dos urros de Fernando Ribeiro encaixa perfeitamente no clima de uma música que grita em conclamação, em meio às mágoas e aos destroços, ao renascimento, à reconstrução. É, ao mesmo tempo, uma canção épica em que os elementos sinfônicos em perfeita harmonia com os riffs e o vocal dão um peso estrondoso a esta música, que com sua linha melódica (por falar em melodia, é de se ressaltar o solo de guitarra) faz desta faixa uma forte candidata a nascer clássica.
Num álbum tão pesado, tenso e agressivo, como o tema retratado exigia, "Ruínas" é a faixa que nos mostra a faceta mais soturna e melancólica do MOONSPELL. Lindos arranjos e belas harmonias, linhas melódicas encantadoras, teclado fascinante, elementos de música árabe (em referência ao que era a Lisboa no século 18) e um dos melhores solos da carreira de Ricardo Amorim.
Quando um álbum chega ao fim com sua última música autoral que poderia perfeitamente ser a faixa de abertura, acredito que esteja tudo dito quanto à sua qualidade. "Todos os Santos" bem que poderia abrir "1755", mas faz sentido que esteja no fim. Isso porque se trata de uma canção que sintetiza todo o trabalho. É um resumo de toda a obra, sendo extrema e melancólica ao mesmo tempo, variando momentos de agressividade com momentos mais calmos, melódicos e sinfônicos. Os elementos de música árabe também se fazem ouvir, ressaltando o caráter cosmopolita da cidade devastada pela natureza. Os seus primeiros acordes tétricos logo abrem passagem para uma introdução suntuosa, épica, com uma melodia que se fixa na mente do ouvinte. E assim como em 1755, em 2017 todos os santos não chegaram para evitar a desgraça que se abateu em Portugal.
Para encerrar o álbum, o MOONSPELL escolheu o enorme desafio de recriar um hino de uma das maiores bandas de rock do Brasil, Os Paralamas do Sucesso. E estiveram à altura, com louvor. "Lanterna dos Afogados", uma canção brasileira que também poderia ser portuguesa (afinal, como escreveu Fernando Pessoa, quanto do mar salgado não seriam lágrimas de Portugal), ganha uma versão ainda mais emotiva e emocionante, tétrica, soturna, épica. Uma homenagem ao Paralamas do Sucesso, a todos aqueles que perderam suas vidas no mar e aqueles que em terra ficaram, só com as memórias e as dores dos que partiram para nunca mais voltar.
Em suma, "1755" é uma obra-prima na já longeva carreira destes portugueses. E, de agora em diante, quando alguém falar em "metal sinfônico", este álbum passa a ser de apresentação obrigatória. [9.5/10]
Originalmente publicada na revista portuguesa Versus Magazine.
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