Tori Amos: impressionante jornada noite adentro
Resenha - Night Of Hunters - Tori Amos
Por Roberto Rillo Bíscaro
Postado em 29 de setembro de 2017
Nota: 10 ![]()
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Álbuns conceituais são obras que tratam de um mesmo tema. Os artistas progressivos foram mestres nisso. Justamente devido aos exageros prog, esses álbuns passaram a ser olhados com desconfiança/escárnio pelos críticos. Talvez isso tenha começado com o abandono autoindulgente de Tales of Topographic Oceans, álbum duplo do Yes, com apenas 4 faixas, que colocou o grupo como um dos alvos favoritos da malhação crítica até hoje.
A mesma ambição conceitual informa Night of Hunters, lançado em setembro de 2011, que se pretende como ciclo de canções inspiradas em composições eruditas dos últimos 400 anos. Não se trata de pegar a debussiana Claire de Lune e botar letra por cima. Em sua empreita para o prestigioso selo alemão Deutsche Grammophon, a norte-americana selecionou temas de Satie, Granados, Bach, Schumann, Alkan e outros e compôs personalíssimas canções a partir deles.
As 14 faixas narram a jornada em uma noite de uma mulher que se encontra no dilema de um relacionamento que se encerra. Uma série de eventos conclui na reinvenção da protagonista, guiada por Anabelle, criatura que se metamorfoseia em raposa e ganso. Repleto de momentos prenhes de intensidade Romântica, as letras misteriosas passam por chalés com quartos ensanguentados ou aludem a noivados com fantasmas. Night of Hunters deve manter os devotos de Tori Amos ocupados por anos, discutindo o significado de cada verso em fóruns na internet.
Os arranjos suntuosos trazem orquestra de cordas e sopros, mas o destaque vai para o piano de Amos, imperante em todas as faixas. Os quatro minutos de contraponto entre piano e oboés e violinos de Star Whisperer dão orgulho de ser humano.
Anabelle (hello, Edgar Allan Poe!) é cantada pela filha pré-adolescente da artista. A riqueza da voz da menina impressiona nas quatro ou cinco faixas em que dueta com a mãe, frequentemente cantando versos que uma criança de dez anos nem remotamente poderia compreender, como "todo casal tem sua própria versão do que é verdade", que se repete enigmaticamente na soberba Cactus Practice. Na gótica Job’s Coffin a garota canta sobre caixões de defunto. Na seriedade lúdica de The Chase, as duas falam sobre a dualidade de ser ao mesmo tempo caça e caçador. Em doce duelo mortal de transformações, mãe e filha – ou melhor, a Protagonista e Annabele – falam sobre a cadeia alimentar dos predadores e suas caças. "Use sua cabeça ou morrerá"...
A voz de Tori está no topo da forma e varia, alcançando esplendores dramáticos e nuanças intimistas. Todo mundo a compara (acertadamente) com a inglesa Kate Bush, mas sempre achei que muitas vezes sua voz lembra o registro de algumas faixas de Madonna. Edge of the Moon me lembra tanto Dear Jessie!
Night of Hunters não é pop porque não tem refrães fáceis e repetidos e a rigorosa estrutura das canções é sofisticada e complexa demais. Penetrar em seu requinte e maestria requer repetidas audições numa época em que não temos tanto tempo para isso.
Tracklist:
Shattering Sea 5:40
Snowblind 3:15
Battle Of Trees 8:45
Fearlessness 6:34
Cactus Practice 4:29
Star Whisperer 9:54
Job's Coffin 3:32
Nautical Twilight 3:19
Your Ghost 5:40
Edge Of The Moon 4:53
The Chase 3:03
Night Of The Hunters 5:34
Seven Sisters 2:48
Carry
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