Haken: Sons eletrônicos marcam mais um grande trabalho
Resenha - Affinity - Haken
Por Victor de Andrade Lopes
Fonte: Sinfonia de Ideias
Postado em 03 de maio de 2016
Nota: 9 ![]()
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Após lançarem seu aclamado terceiro álbum The Mountain, e saírem em turnês ao lado de outros grupos progressivos, o sexteto britânico de metal progressivo Haken entrou em estúdio com a difícil missão de criar um trabalho tão bom quanto o anterior. A divulgação do sucessor, intitulado Affinity, foi inusitada e envolveu um site que imitava um computador dos anos 1980 e simulava um programa sendo rodado. O site da banda, inclusive, adota neste momento um layout que mimetiza essa interface.
Essa vibe eletrônica dita a atmosfera do álbum, que trata de temas mais científicos e diretos do que as letras introspectivas do lançamento anterior, o que combinou com o som menos orgânico e mais artificial. São letras sobre a relação de seres humanos com máquinas e sobre a inteligência artificial, por exemplo.
A breve introdução eletrônica "affinity.exe" só confirma o que eu disse acima. Sua sequência, "Initiate", tem aquela cara mais recente do Haken, meio pop. Mas se você é muito conservador, espere até os 2:30, quando uma sequência de riffs matadores chega com tudo. Vem então "1985", uma das melhores, com teclados de uma cristalina influência de Jordan Rudess, do Dream Theater, com quem o tecladista Diego Tejeida andou brincando em turnês recentes. Na quarta faixa, "Lapse", ele arrisca até alguns solos bem técnicos, incomuns para ele.
A épica "The Architect" impressiona menos que outras épicas do sexteto e demora mais para agradar, mas logo se mostra mais um destaque do álbum. Sua introdução de três minutos resgata vários aspectos de álbuns anteriores, como a fritação de "Pareidolia" e a orquestração de "Celestial Elixir" (respectivamente, dos álbuns The Mountain e Aquarius). A faixa conta ainda com a participação de Einar Solberg, vocalista e tecladista do ótimo grupo norueguês Leprous, que aparece para mandar uns guturais.
"Earthrise" é mais ou menos o que aconteceria se os compatriotas do Codlplay rumassem para o metal progressivo (que eles nunca tentem isso, pelamor)."Red Giant", por sua vez, leva a calmaria a outro nível, resultando numa faixa pouco empolgante e que apenas complementa o conceito do disco.
"The Endless Knot", que ganhou um lyric video, é a consumação da proposta mais eletrônica do álbum, com um ótimo breakdown meio dubstep seguido de mais competentes solos de guitarra. Talvez o vídeo tenha sido criado por conta disso, porque a faixa é uma opção de cartão de visitas para Affinity.
Encerrando a jornada, temos "Bound By Gravity", tão serena quanto "Red Giant" mas duas vezes mais longa e com um trabalho vocal que lembra Maroon 5. Parece até que estou pedindo para você pular a faixa, mas não, estou apenas descrevendo-a como é. Ela encerra tudo de maneira leve, aliviante, mas sem a chatice de "Red Giant".
Os dois últimos álbuns do Haken trazem propostas musicais opostas: primeiro, um disco de sons mais orgânicos, depois, um disco de sons eletrônicos. E para manejar esta roupagem, um membro foi fundamental: Diego Tejeida. Ele aparece em destaque ao longo de quase todo o álbum e foi absolutamente determinante para o direcionamento da banda aqui. Ele cita os anos 1980 como influência, pois a década foi marcada pelo abuso de teclados, o que levou alguns a torcerem o nariz. A ideia do mexicano-inglês era justamente subverter essa lógica de que sintetizadores demais estragam a música.
Não posso encerrar a resenha sem falar de outro cara: o baixista e Connor Green, que faz aqui sua estreia na banda (sem contar o EP Restoration). O vocalista Ross Jennings definiu o colega assim em entrevista ao The Prog Mind: "Tom (baixista anterior) era um guitarrista preso num corpo de um baixista, enquanto que Connor vive e respira o baixo". É uma descrição de impacto, mas a verdade é que sua participação ainda é tímida e burocrática demais para ousar comparações.
É interessante comparar Affinity com The Mountain musicalmente, mas tentar colocá-los em disputa é bobagem. São como aqueles lançamentos quase simultâneos e propositalmente diferentes, como Flight of the Migrator e The Dream Sequencer do Ayreon: um complementa o outro. Os dois, juntos, mostram o quanto a banda cresceu depois de Aquarius e Visions - que já são ótimos.
Abaixo, o vídeo de "Initiate":
Track-list:
1. "affinity.exe"
2. "Initiate"
3. "1985"
4. "Lapse"
5. "The Architect"
6. "Earthrise"
7. "Red Giant"
8. "The Endless Knot"
9. "Bound By Gravity"
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