Miasthenia: "Legados Do Inframundo", arte além do óbvio
Resenha - Legados Do Inframundo - Miasthenia
Por Claudinei José de Oliveira
Postado em 01 de abril de 2015
Nota: 9 ![]()
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Do "underground" do Distrito Federal, a banda Miasthenia nos brinda com "Legados Do Inframundo", álbum lançado em 2014 e que esbanja originalidade, singularidade e uma beleza incomum, sem abrir concessões.
Muitas vezes, o radicalismo do "underground" funciona como uma espécie de cortina de fumaça, escondendo a falta de talento. Porém, podemos, também, encontrar na cena, artistas que fazem arte com um senhor "A" maiúsculo, sem a preocupação com qualquer espécie de retorno, seja ele o reconhecimento midiático ou o econômico. Um representante honroso do segundo caso é a banda brasiliense de "Pagan Black Metal" Miasthenia.
Para começar, a banda passa longe do lugar comum, isto já na peculiaridade de sua formação: um trio cuja vocalista e letrista Hécate também cuida dos teclados, enquanto que Thormianak é responsável pela guitarra e pelo baixo e, completando, o baterista V. Digger. Ao vivo, as linhas de baixo são executadas através do teclado e de pedais de efeito na guitarra. Outra peculiaridade na banda: a temática das letras é centrada na cultura dos povos pré-colombianos, também chamados pelos estudiosos de ameríndios ou, pura e simplesmente, índios.
O "Pagan Black Metal" tem raízes escandinavas e, assim sendo, a cultura abordada na temática das letras é a das tribos germânicas erroneamente chamadas de "vikings". O Miasthenia, apesar de, em seus primórdios ter sido influenciado por bandas de "Black Metal" gregas e pelo paganismo da Antiga Grécia, adequa a abordagem pagã para a realidade do Brasil enquanto país americano, ao invés de bancarem os "crentes de Odin" perdidos no calor tropical. O paganismo nas letras é abordado com seriedade e conhecimento de causa (para quem se interessar, é só conferir a excelente entrevista com a vocalista Hécate na revista "Road Crew" n° 187, onde não há espaço para as obviedades da maioria dos entrevistados).
"Legados Do Inframundo", lançado em 2014 é o quarto álbum da banda e, desta vez, o paganismo das letras foca na cosmologia mítica da civilização maia, numa jornada pelo "Inframundo" ou mundo dos espíritos, erroneamente associado ao Inferno cristão pelos colonizadores. Para quem nunca ouviu o som do Miasthenia, outra peculiaridade: as letras em português e um aviso: a sonoridade da banda faz parte daquilo que se convencionou chamar "Metal Extremo", ou seja, é arte feita com técnica e beleza, porém carregada de brutalidade como se, enfim, todo o genocídio e a aculturação infligidos pelos europeus na América pudessem finalmente se manifestar na cultura dominante.
"Legados Do Inframundo" é uma espécie de tratado de História Cultural, pois contextualiza, quase que de maneira conceitual, a beleza artística como legado cultural, considerando que toda cultura se sustenta sobre oceanos de sangue e, o que é melhor, sem recorrer ao inocente erro do "mito do bom selvagem" de Jean Jacques Rousseau, vício encalacrado na historiografia ocidental.
Arte além do óbvio.
Tracklist do CD:
1."Deuses Fúnebres"
2."Saga Do Xibalbá"
3."Entronizados Na Morte"
4."Sacerdote Jaguar"
5."Tok'yah"
6."13 Ahau Katún"
7."Senhores Do Mitnal"
8."Legados Do Inframundo"
9."onde Sangram Pagãs Memórias" (Faixa Bônus)
Gravadoras: Mutilation e Misanthorpic
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