Arcade Fire: Grandioso, épico, cheio de camadas, experimental

Resenha - Reflektor - Arcade Fire

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Por Thiago El Cid Cardim
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Os canadenses do Arcade Fire estão, merecidamente, assumindo o papel de banda de rock state-of-art por excelência. Desde 2010, quando apresentaram o lindíssimo e emocionante clipe de "We Used To Wait", uma espécie de vídeo interativo que ia construindo uma sensação única para cada internauta por meio de imagens combinadas do Google Street View, eles não lançam simplesmente um disco. Para gerar o barulho que precede o lançamento, eles oferecem experiências que usam combinam arte e tecnologia com inteligência e sofisticação. O clipe da faixa-título de seu novo álbum, "Reflektor", faz com que o espectador use seu mouse, tablet ou smartphone para controlar os efeitos visuais do vídeo. É possível controlar movimentos, ofuscar ou clarear imagens e criar feixes de luz. Já a faixa de abertura, batizada apropriadamente de "Hidden Track", surpreendeu os ouvintes por sua esquisitice, uma canção dissonante como se fosse tocada ao contrário. Não demorou até que os fãs se mobilizassem e nas redes sociais surgisse a canção tocada de forma correta – revelando uma colagem de trechos de todas as faixas do disco. Em termos musicais, o Arcade Fire apresenta um álbum que segue rigorosamente esta diretriz: é rock. Mas também é pop, eletrônico, experimental. Há quem ache um exagero. Há quem ache revolucionário. Você decide.
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Em "Reflektor", tudo é grandioso, épico, cheio de camadas, experimental. Na sua resenha do disco, o jornal Chicago Tribune usa uma frase que acerta na mosca o momento vivido pelo grupo: "Depois de se tornarem, de uma banda de Montreal, em uma sensação da internet e, na seqüência, em roqueiros ganhadores do Grammy que enchem grandes estádios, os caras do Arcade Fire apertam o botão de reboot". Definição perfeita. Depois de desbancarem Eminem, Lady Antebellum, Lady Gaga e Katy Perry e abocanharem o título de "melhor álbum do ano" no Grammy de 2011, eles se afastam totalmente de seu espectro pop e entregam uma coleção de 13 faixas que podem, aos ouvidos menos treinados, soar um tanto quanto impenetráveis. Esqueça o rock mais linear e padrão de outrora e prepare-se para uma experiência que não tem medo de beirar o estranho e o esquisito.

A loucura começa pela ótima faixa-título, uma espécie de canção dançante e ao mesmo tempo sombria, que mistura efeitos eletrônicos e uma linda camada com um naipe de metais. Nos backing vocals, ninguém menos do que David Bowie, em uma participação de luxo, com produção do afiado e competente James Murphy (LCD Soundsystem). Aliás, o músico britânico, responsável por um dos melhores discos do ano, pode ser claramente sentido como influência em outros momentos de "Reflektor", como nas canções "We Exist" e na excelente "Normal Person", na qual a guitarra e especialmente o baixo assumem uma vibração quase heavy metal de tão dissonante e pesada em dado momento de interlúdio. Em "Here Comes The Night Time", eles promovem uma viagem eletrônica com direito a passagens pela música latina, com um forte trabalho de percussão. Para encerrar, bingo, a guitarra volta a ganhar destaque e corpo, na forma quase pós-punk eletrônica do New Order que é possível sentir em "Joan of Arc". Fim do primeiro ato.

Primeiro ato? Pois é. Na verdade, o disco não acaba aqui – afinal, ele será lançado originalmente dividido em duas metades. Mas digamos que ele poderia acabar com "Joan of Arc". E já estaria ótimo. Já poderíamos dizer que se tratava de um dos melhores lançamentos da carreira da banda. Mas não. A segunda parte, construída quase que inteiramente em torno do mito grego de Orpheu, passa a soar pretensiosa e exagerada demais. Mais espacial, etérea e ainda mais experimental, esta nova leva de seis canções chega a ser muito longa e, em dado momento, cansativa. Por mais que uma faixa como "Porno", uma pizza mezzo-The Cure mezzo-Depeche Mode, até seja interessante, o restante é contemplativo demais, tornando a audição frustrante. Nem mesmo "Afterlife", aquela do clipe que usou cenas do filme franco-brasileiro "Orfeu Negro" (1959), ajuda no processo – que se encerrar dolorosamente com a imensa "Supersymmetry", que parece simplesmente interminável. Em um disco notadamente experimental, talvez tenha sido até proposital que sua conclusão fosse assim tão anti-clímax.

Estamos diante de um disco que está longe, mas MUITO longe, de ser fácil e acessível. Resta saber se você é do tipo que está disposto a descobri-lo. E decifrá-lo. Eu gostei de pelo menos metade dele. E você?

Line-up:
Win Butler – Vocal, Guitarra, Baixo, Teclado
Régine Chassagne – Vocal, Bateria, Piano, Teclado
Richard Reed Parry – Guitarra, Baixo, Piano, Teclado
William Butler – Baixo, Guitarra, Percussão
Tim Kingsbury – Guitarra, Baixo, Teclado
Jeremy Gara – Bateria, Guitarra, Teclado

Disco 1
0. Hidden Track
1. Reflektor
2. We Exist
3. Flashbulb Eyes
4. Here Comes the Night Time
5. Normal Person
6. You Already Know
7. Joan of Arc

Disco 2
1. Here Comes the Night Time II
2. Awful Sound (Oh Eurydice)
3. It's Never Over (Hey Orpheus)
4. Porno
5. Afterlife
6. Supersymmetry

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Sobre Thiago El Cid Cardim

Thiago Cardim é publicitário e jornalista. Nerd convicto, louco por cinema, séries de TV e histórias em quadrinhos. Vegetariano por opção, banger de coração, marvete de carteirinha. É apaixonado por Queen e Blind Guardian. Mas também adora Iron Maiden, Judas Priest, Aerosmith, Kiss, Anthrax, Stratovarius, Edguy, Kamelot, Manowar, Rhapsody, Mötley Crüe, Europe, Scorpions, Sebastian Bach, Michael Kiske, Jeff Scott Soto, System of a Down, The Darkness e mais uma porrada de coisas. Dentre os nacionais, curte Velhas Virgens, Ultraje a Rigor, Camisa de Vênus, Matanza, Sepultura, Tuatha de Danaan, Tubaína, Ira! e Premê. Escreve seus desatinos sobre música, cinema e quadrinhos no www.observatorionerd.com.br e no www.twitter.com/thiagocardim.

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