Velvet Underground: uma referência estética a começar pela capa
Resenha - Velvet Underground - Velvet Underground and Nico
Por Paulo Severo da Costa
Postado em 24 de abril de 2013
"Ainda que algumas poucas centenas de pessoas tenham comprado os discos do VELVET UNDERGROUND, cada uma delas formou uma banda". Atribuída a BRIAN ENO a frase aí exagera, mas não muito- assim como a noite de 4 de julho de 1976 levou ao London´s Roundhouse futuros membros do DAMNED, SEX PISTOLS e THE CLASH e mais uma meia dúzia para o emblemático show dos RAMONES naquele que seria o kick start do punk inglês- o experimentalismo de LOU REED, JOHN CALE, MAUREEN TUCKER, STEERLING MORRISON e, por um breve período, a modelo junkie NICO, influenciou profundamente da estética infratora do punk e ícones do glitter e space rock como BOWIE e MARC BOLAN ao noise experimental do SONIC YOUTH quase vinte anos depois. Minimalismo, experiências atonais e letras de sarjetas sujas do Queens forjavam a banda que, "em vida" foi sistematicamente ignorada.
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Apadrinhados por ANDY WHAROL, o VELVET (nome retirado de um romance sobre sadomasoquismo) começou a carreira em 1964 e, três anos depois lançava o debut "The Velvet Underground and Nico" que, conforme dito não foi reconhecido de imediato tornou-se uma referência estética a começar pela famosa capa interativa que, posteriormente se tornaria icônica. Gravado em oito horas ao custo irrisório- até para a época- de dois mil dólares o disco é um retrato da mente antenada – e doentia- de LOU REED, expondo a Nova York sombria em contraponto com as melodias assobiáveis do flower power.
Munidos da nada convencional viola clássica de CALE, o disco traz paisagens sonoras surrealistas: a ode sadomasoquista de "Venus In Furs" empata com as transgressões experimentais do DOORS trazendo toda sua estranheza vanguardista enquanto REED entoa "Brilhantes, brilhantes, brilhantes botas de couro/Garotinha açoitada no escuro/Vem ao sinal do sino, seu servo, não o abandone" como um pastor do apocalipse. Se "Run, Run, Run" faz o pastiche entre o folk e o british rock adornada por um solo de guitarra que beira a paródia, "All Tomorrow Parties" é psicodélica em sua sonoridade e ácida em sua crítica à elite decadente em versos sutis- "E quais trajes a pobre moça irá usar/Para todas as festas de amanhã/Um vestido de farrapos de não se sabe onde/Para todas as festas de amanhã".
" I´m waiting for the Man" inaugura os lamentos junkie, antecipando "Mr Brownstone" em vinte anos com REED sacrificando a alma em versos como "Eu estou esperando pelo meu homem/Vinte seis dólares na minha mão/Subindo para Lexington, 125/Sentindo doente e sujo, mais morto do que vivo/Eu estou esperando pelo meu homem". Foda? Caso nunca tenha ouvido "Heroin" em seus sangrentos sete minutos prepare-se para uma experiência esotérica e, no bom sentido, degradante; misturando uma sequência simples e hipnotizante de acordes seguidas do estouro caótico em sua parte final REED cospe ao mundo que "quando ponho um cravo em minha veia/E eu irei te dizer, as coisas não estão calmas como antes".
Acredito que daqui a duzentos anos alguns de nós ainda estaremos resenhando, lendo, ouvindo e falando sobre esse disco- um clássico sem dúvida.
Track list:
1. "Sunday Morning"
2. "I'm Waiting for the Man"
3. "Femme Fatale"
4. "Venus in Furs"
5. "Run Run Run"
6. "All Tomorrow's Parties"
7. "Heroin"
8. "There She Goes Again"
9. "I'll Be Your Mirror"
10. "The Black Angel's Death Song"
11. "European Son"
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