Blue Cheer: Definindo as diretrizes básicas do Hard/Heavy

Resenha - Vincebus Eruptum - Blue Cheer

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Por Elias Rodigues Emídio
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Nota: 10

O texto representa opinião do autor, não do Whiplash.Net ou dos editores.


Apesar de Led Zeppelin (ainda como The New Yardbirds), Deep Purple e Black Sabbath (até então sob o nome de Polka Tulk Blues Band) existirem desde meados de 1968, seus primeiros lançamentos estavam bem longe do Hard Rock vigoroso (Heavy Metal para alguns) que os faria estourar mundo afora de 1970 em diante.
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Imagine agora em plena ressaca psicodélica em que artistas tão díspares como Jefferson Airplane, Grateful Dead, Arthur Brown, Jimi Hendrix Experience, Traffic, Donovan, Quicksilver Messenger Service (só para citar nomes famosos) dominavam as paradas de sucesso, um grupo que tocava mais alto que Cream e Hendrix juntos a ponto de ganharem o cognome de “grupo mais alto que Deus”.

Tal grupo existiu? Sim!!! Seu nome: Blue Cheer, também o nome de uma marca de LSD poderosíssimo vendido na época, por sua vez copiado de uma marca de sabão em pó.

O grupo, originalmente um sexteto, estava na ativa desde 1966, entretanto após sucessivas mudanças de formação em 1967 se estabelecem com um Power Trio com: Leigh Stevens na guitarra, Dickie Peterson no baixo e Paul Whaley na bateria. Todos tinham passagem por grupos menores (alguns como o Oxford Circle e Group B chegaram a fazer algum sucesso) e tinham musicais estilos bem consolidados.

De fato não podemos negar que desde os primórdios do rock existiam bandas com aspirações musicais mais pesadas: Yardbirds, Kinks (e os powerchords de hits como “You Really Got Me” e “All Day And All Of The Night”), o próprio Jimi Hendrix Experience, o subestimado Link Wray (haja vista seu pioneirismo em “Rumble” de 1958), entre outros. Porém quando assunto era esporro sonoro nenhum destes grupos superava esse pesado trio norte americano.

O Blue Cheer bem como Jimi Hendrix e Cream tinham as mesmas raízes musicais: o Blues. Entretanto, como disse certa Stevens o que a banda fez foi distorcer, contorcer, “entortar”, enfim maltratá-lo a ponto de deixa-lo irreconhecível. Para se ter uma ideia do arrombo sonoro do caras, reza a lenda que eles teriam estourado o equipamento de som na primeira tentativa de gravar seu disco de estreia e seus shows eram tocados com tanta potência, que alguns fãs reclamavam que daquela maneira acabariam surdos. E realmente não era brincadeira a maneira pela qual o Blue Cheer se apresentava e parecia impossível que apenas três caras em cima de um palco pudesse produzir tamanho estrago.

No final de 1967 o grupo consegue um contrato com a Phillips e em janeiro de 1968 é lançado um das maiores pérolas do Rock de Garagem sessentista: o seminal “Vincebus Eruptum”.

“Vincebus Eruptum” abre com uma versão (ou melhor dizendo uma reinvenção) abissal do clássico “Summertime Blues” de Eddie Cochran. Com sua marcante introdução “roubada” na cara dura da também clássica “Purple Haze” de Jimi Hendrix e os insanos vocais de Dickie Peterson, a canção é um dos primórdios do que anos mais tarde seria conhecido como Heavy Metal. Foi lançada como single e é responsável pelo sucesso do disco que alcançou a 11ª posição nas paradas americanas, uma ótima colocação para uma banda então novata. Para muitos esta é a melhor versão desta canção registrada em disco superior até mesmo a poderosa versão do The Who presente no álbum “Live At Leeds”.

“Rock Me Baby” cover de B.B. King leva a eletrificação do blues urbano até as ultima consequências. Já “Doctor Please”, a primeira composição de Peterson no disco, sugeria que ele precisava de ajuda médica tamanha a pancadaria sonora de quase 8 minutos de duração.

“Out Of Focus” mostrava o lado mais “acessível” da banda com um riff pegajoso permeando toda a música, e foi usada como lado B único single extraído do disco que tinha “Summertime Blues” como lado A.

O disco segue com outro cover “Parchment Farm” em uma versão que certamente causaria espanto em seu autor Moose Alison, tamanha a fúria com que é executada a canção. “Second Time Around” de Peterson é sem a dúvida a canção mais bruta do álbum. Com longas passagens instrumentais temos aqui a banda mostrando toda a selvageria de seu som com andamentos disformes (com direito a lisérgicos solos de bateria), paradas bruscas e solos extensos de guitarra altamente saturados com distorção e microfonia.

Foi a partir de “Vincebus Eruptum”, que as músicas ficaram Heavy de verdade. Quer gostemos ou não, foi o “Blue Cheer” com o seu tosco debute que definiu as diretrizes básicas do Hard Rock/Heavy Metal aprimorado anos mais tarde por bandas como Deep Purple e Led Zeppelin. Estão aqui os vocais ultra-agressivos de Peterson, a guitarra extremamente distorcida de Stevens, uma cozinha poderosa tocando no ultimo volume, longas passagens instrumentais com intervenções solos de baixo, guitarra e bateria (bem antes de isto de isto se tornar mero exibicionismo); tudo isso bem temperado com altas doses de blues.

Na época da sua estreia discográfica a banda foi altamente criticada por seu som sujo e nada psicodélico, onde o que menos importava era a técnica, o que valia mesmo era soar o mais pesado possível. Mas era justamente nestes “três acordes” que residia seu maior mérito e até hoje a banda é considerada pioneira no crossover entre o Heavy Metal e o Punk encontrando paralelo apenas em grupos como MC5 e Stooges.

Como disse Sergio Babo na brilhante resenha do disco presente na edição de julho de 94 da revista Showbizz: “... e foram tudo aquilo que a turma de Seattle, neo-hippies e afins tentaram ser, mas nunca conseguiram.” Precisa citar algo mais?

Lado 1.
1. Summertime Blues
2. Rock Me Baby
3. Doctor Please

Lado 2
1.Out Of Focus
2.Parchman Farm
3.Second Time Around

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