Cynic: Rompendo as barreiras do heavy metal em sua estréia

Resenha - Focus - Cynic

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Por Thiago Pimentel
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Nota: 10

O texto representa opinião do autor, não do Whiplash.Net ou dos editores.


"Focus" é um daqueles álbuns únicos e especiais. Totalmente singular, inovador e arriscado. Tendo seu lançamento no ano de 1993, o disco foi visto com certa desaprovação na época. Desaprovação esta vinda dos puristas que não conseguiam compreender a proposta da banda. Tal fato contribuiu para a dissolução do CYNIC antes mesmo do lançamento de um segundo álbum (felizmente, após mais de 10 anos, a banda reuniu-se e gravou outro álbum).
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Publicado originalmente em hangover-music.blogspot.com

O grupo originalmente praticava um vigoroso thrash metal - que a cada demo lançada tornava-se mais técnico. Logo no começo dos anos 90 as principais mentes por trás do Cynic - Paul Masvidal (guitarra & vocal) e Sean Reinert (bateria) - "dão um tempo" e ingressam no DEATH, do saudoso Chuck Schuldiner. Após essa experiência o disco de estréia da banda é lançado. "Focus" rompe as barreiras do heavy metal com influências gritantes de jazz fusion e vocais limpos carregados de efeito - os famosos vocais robóticos -, tudo isso aliado com generosas doses de peso e momentos leves e sutis, quase ambientais.

"Veil of Maya" é responsável pela abertura do álbum. A faixa resume bem o som do grupo, possuindo boa parte das características que aparecerão em outras canções do disco. Sendo uma dessas características uma assinatura do grupo: os refrões parecendo mantras (ahamkara, veil of maya...), com o vocal robótico intercalado com os guturais. Os solos, revezados por Paul Masvidal e Jason Gobel, são absurdamente técnicos. A dupla soa como uma versão heavy metal de Al Di Meola e John McLaughlin (Mahavishnu Orchestra) - ambos guitarristas de fusion.

Quem acha que a essa altura já sabe como o disco irá soar quebrará a cara: as faixas são completamente singulares e diferentes entre si. Abordando o lado mais metal, e refletindo a influência de death metal da banda, temos as faixas mais pesadas do álbum - mas, ainda assim cheias de variações e momentos mais limpos -, que são: "How Could I" - com um incrível solo de guitarra no final - e "Uroboric Forms" - repleta de riffs pesadíssimos e uma bateria que remete o que Sean fez no DEATH. Ambas são as faixas com mais uso de vocal gutural, vocais estes que foram gravados por Tony Teegarden, que foi convidado para participar das gravações e também contribuiu tocando teclado.

Outros destaques ficam para o lado mais fusion desse registro, representada por "Textures" e "Sentiment". O baixo, incrivelmente jazzístico, de Sean Malone destaca-se nessas faixas. "Textures" é uma canção instrumental que dispensa comentários. Cheia de incríveis variações e muito peso - é um tipo de música que deixa claro que o heavy metal chegou em um outro nível. Já "Sentiment" tem excelentes linhas de bateria, com Reinert mostrando incrível criatividade e domínio nas baquetas. A característica mais marcante dessa faixa são as vocalizações, explico: elas não "dominam" a música. É como um grande "plano de fundo" com o instrumental destacando-se, lembra uma narrativa. Enfim, faixa muito interessante.

As músicas restantes ("I'm But A Wave To..." , "Celestial Voyage" e "The Eagle Nature") são igualmente excelentes e mesclam bem todos os elementos do álbum. Na versão remasterizada, que saiu em 2004, "Focus" conta com as seguintes canções adicionais: "Cosmos", "Endless Endeavors" e "The Circle's Gone". Todas excelentes faixas que seguem mais ou menos o estilo de "Sentiment". Também foram inclusos remixes de "How Could I" - com um destaque maior no teclado - "Veil of Maya" e "I'm But A Wave To...")

Liricamente as músicas parecem, assim como o instrumental, terem vindo do espaço. É possível encontrar nas letras diversas referências a mantras, espiritualidade, paz e coisas desse tipo - o que reflete bem o gosto de Paul Masvidal por meditação e similares. Muitos termos complexos envolvendo psicologia e temas que envolvam reflexão também são abordadas.

Enfim, "Focus" é uma verdadeira obra prima. Felizmente foi reconhecido, mesmo que tenha sido anos depois de seu lançamento. Claro que as músicas, por sua alta complexidade, podem causar estranhamento em uma primeira audição. Logo recomendo que o ouvinte, principalmente para quem não aprecia fusion ou death metal - ambos gêneros musicais de difícil assimilação - insista e tente entender o som, que por ser tão singular soa estranho. Caso você desconheça, este álbum pode ser sua porta de entrada pra alguns desses estilos

Concluo a resenha recomendando "Focus" para qualquer um que tenha a mente aberta, goste de um instrumental bem tocado, e aprecie música que fuja da obviedade.

Músicas-chave:
How Could I; Veil of Maya; Uroboric Forms

Formação:
Jason Gobel - Guitarras
Sean Malone - Baixo
Paul Masvidal - Vocal, guitarras
Sean Reinert - Bateria e teclados

Tracklist:
1. Veil of Maya 05:23
2. Celestial Voyage 03:40
3. The Eagle Nature 03:31
4. Sentiment 04:24
5. I'm But a Wave To... 05:31
6. Uroboric Forms 03:32
7. Textures 04:42
8. How Could I 05:29
9. Veil of Maya [2004 Remix] (5:21)
10. I'm But a Wave To... [2004 Remix] (5:21)
11. How Could I [2004 Remix] (6:19)
12. Cosmos (4:21)
13. The Circle's Gone (5:20)
14. Endless Endeavours (9:55)

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Sobre Thiago Pimentel

Tenta, desde meados de 2010, escrever textos que abordem as vertentes da mais peculiar - em seu ponto de vista - manifestação artística do ser humano, a música. Para tal, criou o blog Hangover-Music e contribui no Whiplash.Net. Além disso, é estudante de jornalismo, guitarrista e acredita que se algum dia o Deus metal existira, ele morreu em 13/12/2001.

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