Kiss: em 1974 procurando ir além da pouca repercussão
Resenha - Hotter Than Hell - Kiss
Por Flávio Remote e Alexandre B-side
Fonte: Minuto HM
Postado em 04 de junho de 2010
Como segundo capítulo desta caminhada, encontramos o KISS ainda em 1974 tentando buscar algo além da pouca repercussão trazida pelo lançamento de seu álbum de estréia.
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Após o término da excursão para promover o primeiro álbum, em Agosto de 1974 a banda entra em estúdio tentando capturar ainda melhor o que era ouvido nos palcos. Nesta época, a banda já tem dificuldade em agendar-se para abertura dos shows das atrações de maior quilate, pois freqüentemente "roubavam" a platéia como opening act, e eram recusados pelas demais bandas. A opção é então fazer algo que capturasse a crueza de tais apresentações, já demonstrada no título provisório deste segundo álbum, que seria "The Harder They Come" (algo como "Mais Pesado, Eles Vêm").
A banda se instala provisoriamente em Los Angeles, onde o álbum foi feito, a pedido da gravadora, que naquele momento tentaria ter sob sua responsabilidade tudo que cerca a feitura do álbum, desde as gravações até o agendamento de turnês e em especial divulgação e distribuição na mídia. Certamente aí encontramos o primeiro problema que resultou neste "Hotter Than Hell" ter sido um fracasso ainda maior do que o primeiro "Kiss": ainda tentando a tal independência (da Warner, já citada na crítica anterior), a Casablanca acabou fragilizando por demais a distribuição deste segundo álbum, não conseguiu o mesmo espaço de divulgação do álbum anterior, nem ao menos a posição 87 que o Kiss acabou conseguindo no álbum de estréia.
Outra estratégia que também não mostrou ser vencedora foi a de tentar fazer o álbum bem mais pesado que o anterior. O próprio produtor dos dois álbuns admite, em termos de sonoridade, que o ideal na verdade era ter dado apenas mais um passo pra frente, mantendo a característica do que já se estava fazendo, ao invés de tentar avançar "um quilômetro"…
O grupo odiou terrivelmente a ida para Los Angeles, e não fez nenhuma questão de esconder isso. Nesta época também fica clara a diferença de temperamentos entre as duplas Stanley/Simmons e Frehley/Criss. Gene Simmons evidenciou que, para ter relações mais amistosas com Ace e Peter, ele precisaria se manter chapado o tempo todo, e algo conhecido é que o linguarudo é desde sempre abstêmio e completamente careta.
Outros incidentes fizeram o clima ficar mais pesado do que a tentativa de soar pesado em vinil. Logo no primeiro dia em Los Angeles, a Gibson Flying V feita por encomenda para Paul Stanley é roubada, e ainda nesta estadia na Califórnia, Ace resolve ver quão rápido pode fazer a volta em um quarteirão de carro até acabar destruindo não somente o veículo, como também ter se arrebentado todo. Eles tiveram dificuldade em se adaptar à cidade, o que é tema da música "Comin’ Home", mas vejam a ironia disso: hoje, muito tempo e dólares depois, Gene Simmons reside em Beverly Hills, naquela cidade ensolarada.
Ainda assim, o álbum traz um primeiro lado repleto de clássicos. Um exemplo claro é que recentemente nos shows da nova turnê no Brasil (2009), quatro das cinco primeiras músicas foram tocadas. Nota-se claramente o crescimento de Ace Frehley como compositor, sendo o autor de "Parasite" e "Strange Ways", além da co-autoria da já citada "Comin’ Home". Nesta época também se pode notar o choque de egos entre os outros três, cada um buscando seu espaço na banda, e Peter "bate o pé" para cantar "Mainline", e ainda tenta convencer, infrutiferamente, os outros a incluir um solo de bateria de 7 minutos em "Strange Ways", a outra música cantada pelo baterista no álbum.
Diferente do álbum anterior, "Hotter Than Hell" praticamente não traz músicas da fase pré-Kiss, apenas "Goin’ Blind" (que chamava-se "Little Lady" no Wicked Lester) e "Watchin’ You" são mais antigas (esta, aliás, fez parte da demo gravada por Eddie Krammer antes da contratação pela Casablanca. As outras músicas, que acabaram no primeiro álbum, são "Black Diamond", "Cold Gin", "Strutter" e "Deuce").
Na avaliação da banda, "Hotter Than Hell" merece nota 3/5, apenas Ace o avalia como 3,5/5. Contribuem para esta avaliação tanto a mudança para Los Angeles, como a qualidade da gravação em si, pois Richie Wise afirmou não ter conseguido mixar o disco como queria e, mesmo tentando compensar na masterização, não obteve o resultado desejado.
A arte gráfica merece um capítulo à parte: a proposta foi fazer uma sessão de fotos para a contracapa que trouxesse um conceito de filmes de Felini como Satyricon, e promoveu-se uma festa muito louca com muita gente vestindo roupas esquisitas, quase numa orgia coletiva. Paul Stanley foi carregado completamente bêbado ao fim da sessão, e na verdade todos estavam bêbados, músicos ou não, exceto Gene. Em conseqüência do acidente de carro, Ace foi maquiado em apenas um dos lados da face, sendo o outro lado superposto pelo departamento de arte. As referências na capa a elementos japoneses trouxeram algo de repercussão por lá, algo que seria explorado mais pra frente. A expressão "jigoku no sakebi " que está no alto da capa ao lado direito significa "o grito do inferno". Já o símbolo contido mais abaixo conhecido como Chikara (Poder) seria novamente utilizado na banda cerca de 13 anos depois, no álbum "Crazy Nights".
A banda saiu em turnê , muita vezes tocando em clubes, pela dificuldade de se abrir shows para as demais bandas. O único single "Let Me Go Rock’n’Roll" não obteve êxito algum, ainda mais considerando as dificuldades de promoção da gravadora naquela ocasião. Há um registro no Kissology de um show praticamente na íntegra em San Francisco, no dia 31 de janeiro de 1975. Após um show em Santa Mônica, Neil Bogart, presidente da gravadora avisa que a tentativa com "Hotter Than Hell" havia fracassado e que era hora de partir para outro destino. Este destino chamava-se "Dressed To Kill".
N.R: Assim como o "Kiss", "Hotter Than Hell" nos traz lembranças especiais pela dificuldade de adquiri-lo. Hoje chega a ser ridículo falar isso, mas tanto a dificuldade de acesso ao disco de vinil (que é americano, nosso vinil do KISS é alemão) como a dificuldade monetária, pois na época éramos adolescentes e vivíamos na pré-história do Heavy Metal em nosso país. Vemos também dois lados muito diferentes do vinil, o primeiro lado totalmente clássico e o segundo tendo apenas "Watchin’ You" como mais conhecida (posteriormente a banda resgataria "Comin´ Home" no acústico). A despeito da já reclamada qualidade de gravação, há exemplos famosos de músicos que adoram o trabalho. Seja nas regravações do Anthrax ("Watchin´ You" e "Parasite"), na referência de Dave Mustaine que considera o melhor álbum do Kiss, o certo é que "Hotter Than Hell" também deixou seu legado na história da banda. Mas eles queriam muito mais.
· Lançamento: 22/10/1974
· Produtores: Kenny Kerner & Richie Wise
· Primeiro Single: "Let me Go, Rock’n'Roll" em ?/ 01/1975
· RIAA Gold Certification em 6/23/77
· O álbum mal chegou entre os 100 nas paradas.
Faixas
1 - Got to Choose – 3:54
2 - Parasite – 3:01
3 - Goin’ Blind – 3:36
4 - Hoter than Hell – 3:31
5 - Let me Go, Rock ‘n’ Roll – 2:14
6 - All the Way – 3:18
7 - Watchin’ You – 3:43
8 - Mainline – 3:50
9 - Comin’ Home – 2:37
10 - Strange Ways – 3:18
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