Buffalo: uma jóia por anos perdida na poeira setentista

Resenha - Volcanic Rock - Buffalo

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Por Ricardo Seelig, Fonte: Collector´s Room
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Certos discos são tão espetaculares, apresentam uma qualidade sonora e artística tão elevada que nos fazem pensar porque diabos as bandas que os gravaram não se transformaram em monstros sagrados e ícones incontestáveis de um estilo. Esse é o caso de "Volcanic Rock", segundo álbum do grupo australiano Buffalo, uma verdadeira jóia brilhante e reluzente, que passou anos perdida na poeira setentista, mas que recentemente, graças aos inúmeros blogs e fóruns de download mundo afora, começou finalmente a ser redescoberta por toda uma geração de novos ouvintes.
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O Buffalo nasceu em Sydney, a mais importante cidade da Austrália, em agosto de 1971. O coração da banda era formado pelo vocalista inglês Dave Tice e pelo baixista australiano Pete Wells, que mais tarde faria parte de outro grande nome do rock daquele país, o Rose Tattoo. O embrião do conjunto foi o Head, grupo formado por Tice e Wells em 1968 e que passou por inúmeras formações. Foi apenas em 1971 que a banda alterou seu nome para Buffalo, por sugestão de seu empresário, Mel Myles.

Ainda que tenha lançado o bom álbum "Dead Forever" em 1972, o Buffalo não avistava muita luz no fim do túnel. O fraco desempenho do disco levou a banda a encerrar as suas atividades. Mas o que parecia uma parada eterna revelou-se apenas uma breve pausa. O motivo para isso foi a passagem do Black Sabbath pela Austrália, em janeiro de 1973. A Vertigo, que havia lançado "Dead Forever" e também era a gravadora do grupo de Ozzy Osbourne e Tony Iommi, queria um nome forte para a abertura dos shows da Sabbath pelo país, e foi atrás do Buffalo. Assim, o grupo ressurgiu praticamente das cinzas, tendo agora, além de Dave Tice e Pete Wells, o guitarrista John Baxter e o baterista Jimmy Economou.

A ótima repercussão dos shows ao lado do Black Sabbath gerou duas certezas para o quarteto: a de que valia a pena insistir mais um pouco, mantendo a banda ativa e na estrada; e que o quente mesmo era tocar o mais alto e pesado possível, batendo em cheio nas cabeças dos milhares de jovens australianos, que piraram com o som do grupo.

Tendo isso em mente, o reformulado quarteto entrou em estúdio para gravar o seu segundo disco. Batizado como "Volcanic Rock", o play chegou às lojas em 1973 e mostrou um som muito mais pesado, coeso e poderoso do que aquele apresentado no primeiro álbum. O trabalho abre com "Sunrise (Come My Way)", uma faixa agitada que fará a alegria de quem ainda chama o hard rock de "rock pauleira". Destaque para o refrão, grudento e com belas linhas vocais de Dave Tice.

Já "Freedom", a faixa seguinte, é uma tour de force com mais de nove minutos de duração, uma composição estupenda com uma longa introdução de guitarra de John Baxter. A estrutura dessa canção lembra o que Neil Young fez na clássica "Cortez the Killer", do disco "Zuma", de 1975. Sobre um andamento cadenciado, Baxter evolui com suas guitarras, despejando frases e melodias arrepiantes. Tice só aparece lá pelos dois minutos e tanto, cantando de forma arrepiante. Sua voz soa áspera e crua na medida certa, transparecendo feeling e emoção. A cama criada pela bateria de Economou e pelo baixo de Wells sustentam os delírios guitarrísticos de Baxter, que em seu solo faz uso de feedbacks e demonstra grande criatividade e talento. Enfim, "Freedom" é aquele tipo de faixa que, ao mostrar para os seus amigos que curtem som, inevitavelmente você irá ouvir o termo "sonzêra" em suas avaliações. O LP segue com "Till My Death", onde o destaque é o baixo de Pete Wells, bem na cara e repleto de distorção. O vocal de Tice também merece menção, e a faixa fechava o lado A do vinil em grande estilo.

O lado B de "Volcanic Rock" tem início com uma das melhores faixas do disco. "The Prophet" é outra composição cadenciada, mais ou menos na linha de "Freedom", com um riff repleto de groove de John Baxter. Além disso, conta com aquela que é, na minha opinião, a melhor performance vocal de Dave Tice em todo o play. A parte central tem mais um ótimo solo de Baxter, um guitarrista que possui um estilo muito mais focado naquilo que sente ao tocar uma canção do que na técnica propriamente dita. Aliás, essa observação não vale apenas para Baxter, mas se aplica com perfeição em toda a banda.

A dobradinha "Pound of Flesh / Shylock" fecha o álbum de maneira sublime. A primeira soa como uma sensacional jam instrumental entre os músicos. Com quase cinco minutos de duração, introduz "Shylock", um dos grandes sons do hard rock setentista. Dona de um riff cativante, a faixa é um rock pesado clássico, com ótimas linhas vocais e um refrão que não sai tão cedo da cabeça. Além disso, possui longas passagens instrumentais, em um exemplo quase didático de como um bom hard rock deve soar. Pura magia em uma composição antológica!

Indiscutivelmente, "Volcanic Rock" é um dos trabalhos mais consistentes e impressionantes do hard rock setentista. O entrosamento do quarteto, aliado à qualidade das composições, resultou em um disco excelente, que rivaliza em pé de igualdade com álbuns de nomes consagrados do estilo, como Black Sabbath, Deep Purple e Led Zeppelin. Essa comparação pode até parecer exagerada em um primeiro momento, mas basta ouvir "Volcanic Rock" para perceber que ela é a mais pura realidade.

A capa do disco causou controvérsia quando o play chegou às lojas. A ilustração, mostrando um homem nu sobre uma montanha prestes a entrar em erupção, segurando uma rocha flamejante e flexível que lembra - e muito - o formato de um pênis, levou a inevitáveis interpretações e conclusões sobre o seu real sentido, fazendo com que vários lojistas se recusassem a expor e a vender o disco.

Ao longo dos anos, "Volcanic Rock" ganhou algumas reedições interessantes. O LP original, lançado pela Vertigo australiana em 1973, é objeto de desejo entre os colecionadores do cultuado selo. Para os amantes do vinil, a gravadora Akarma lançou em 2003 uma linda versão em LP de 180 gramas, preservando a arte original em uma bela capa gatefold. Recomendadíssimo! E, mais recentemente (em 2005), a também australiana Aztec colocou no mercado um CD remasterizado, em embalagem digipack, que, além das faixas adicionais, traz duas bônus tracks: a versão editada de "Sunrise (Come My Way)", lançado como single em 1973 para promover o disco; e uma estupenda execução de "Shylock" gravada ao vivo no Sydney Spring Festival, que aconteceu no Hyde Park de Sydney também em 1973.

Há ainda uma outra edição em CD, lançada pela gravadora Second Battle, com cinco faixas bônus - "Hobo", "Sad Song", "Just a Little Rock and Roll", "No Particular Place to Go" e "Barbershop Rock" -, todas elas presentes nos singles editados pelo grupo na primeira metade dos anos setenta.

Após "Volcanic Rock" o Buffalo ainda lançaria o bom "Only Want You for Your Body" em 1974 e os medianos "Mother´s Choice" (1976) e "Average Rock´n´Roller" (1977), esse último após o anúncio do fim do grupo, que encerrou suas atividades em novembro de 1976. Os integrantes se separaram mas continuaram envolvidos com música. Dave Tice voltou para a Inglaterra, onde passou a integrar o Count Bishops, e mais tarde retornou para a Austrália, onde teve passagens por diversos grupos, até decidir se lançar em uma carreira solo. Uma curiosidade: o baixista da sua banda é Mark Evans, ex-AC/DC. Pete Wells fez história com o Rose Tattoo, com quem gravou grandes discos - principalmente o primeiro, batizado apenas com o nome da banda e lançado em 1978 -, e também vagou por inúmeros nomes do rock australiano até falecer em 27 de março de 2006. Já John Baxter tocou com o Boy Racer e com o Sourthern Cross, enquanto Jimmy Economou, apesar de não abandonar a música, nunca mais alcançou um grande destaque na mídia, ficando envolvido apenas com bandas sem maiores repercussões.

Resumindo: se você nunca ouviu "Volcanic Rock" mergulhe agora mesmo nos sulcos de um dos melhores álbuns de hard rock dos anos setenta!

Faixas:
A1 Sunrise (Come My Way) 4:48
A2 Freedom 9:02
A3 Till My Death 5:38

B1 The Prophet 7:24
B2 i. Intro: Pound of Flesh 4:33
ii. Shylock 5:52

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Sobre Ricardo Seelig

Ricardo Seelig é editor da Collectors Room - www.collectorsroom.com.br - e colabora com o Whiplash.Net desde 2004.

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