Guns N' Roses: qualidade irregular e sem identidade musical

Resenha - Chinese Democracy - Guns N' Roses

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Por Fábio Cavalcanti
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Nota: 6


Antes de tudo, um perfil deste que vos escreve, em relação ao álbum em questão: apreciador da obra da banda (mas muito longe de ser um fanático), permaneceu em "jejum" de qualquer material do álbum que tenha vazado nos últimos anos, não tem absolutamente nada contra a reencarnação da banda, não tinha muitas expectativas (o bom e velho "tanto faz como tanto fez") durante a longa "gestação" deste novo trabalho, e ouviu o disco exatamente 10 vezes antes de fazer sua análise definitiva.

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Mas, por que tais informações são relevantes nesta resenha? Pois o álbum em questão é o "Chinese Democracy" do Guns N' Roses, finalmente lançado em 2008 (após mais de 10 anos de produção, e investimentos que passaram da marca de 10 milhões de dólares). E, para o bem ou para o mal, tal álbum adquiriu proporções épicas, o que gera uma necessidade de analisá-lo de uma forma bem mais cuidadosa.

Dito isso, deve-se lembrar aos desavisados que o Guns N' Roses atual traz apenas o vocalista Axl Rose, da formação original da banda. Ignorando o rótulo "Guns N' Roses" estampado na capa do disco, temos um trabalho praticamente "solo", com Axl Rose ditando todas as regras, e conduzindo sua orquestra de músicos, de uma forma bastante grandiosa e exagerada, algo que o vocalista considerou conveniente para este trabalho. Por causa disso, qualquer outro integrante desta indefinida formação atual não será citado aqui. E os exageros de produção (como orquestras e experimentações eletrônicas) também não precisam ser analisados a fundo, visto que estes se tornaram parte dessa "Sensational Axl Rose Band" (alguém entendeu a piadinha?). E, apesar do nome Guns N' Roses ser levado em conta aqui, qualquer pessoa pode optar por considerar esse álbum como sendo um trabalho solo de Axl Rose, sem problemas. Afinal, quem disse que o ouvinte também não pode ditar suas próprias regras ao ouvir música? Pois então...

O álbum é iniciado com a faixa-título "Chinese Democracy", que após sua longa (e, de certo modo, desnecessária) introdução climática, traz uma entrada furiosa da banda, resultando em uma música que certamente irá empolgar o apreciador da vertente mais agressiva do Guns N' Roses. Na sequência, "Shackler's Revenge" evidencia o primeiro toque realmente bizarro e equivocado do "Chinese Democracy", com uma produção de rock industrial que estraga boa parte da música, apesar desta trazer um dos mais poderosos e grudentos refrões do álbum.

Passado este momento inicial bastante "energético", temos a melódica e cadenciada "Better", talvez a melhor faixa do álbum, e que poderia muito bem ter sido concebida pela formação clássica do Guns N' Roses. A partir deste momento, temos uma sequência de músicas que favorece muito mais o lado "baladeiro" do Guns N' Roses. De fato, o álbum peca de forma vergonhosa ao trazer tantas baladas. Os destaques negativos vão para a esquisita e entediante "If The World", a sonolenta e pouco criativa "Sorry", e a exageradamente melancólica "This I Love" (da qual, destaca-se apenas o belo solo de guitarra). Ainda temos "Catcher in the Rye" e "Madagascar", que até possuem seus atrativos e aspectos "respeitáveis", mas falham na importante tarefa de cativar o ouvinte e realmente prender sua atenção.

Por outro lado, "Street Of Dreams" traz orquestras e pianos muito bem colocados, e uma bela melodia na linha de "November Rain", que "cresce" no ouvinte a cada audição. Destaque ainda mais positivo vai para a criativa e épica "There Was A Time", boa concorrente ao posto de futuro clássico do Guns N' Roses. As melódicas "I.R.S." e "Prostitute" podem soar fracas na primeira audição, mas acabam grudando na cabeça do ouvinte com o tempo... e de forma positiva.

Mas, isso significa que este álbum traz apenas baladas e rocks cadenciados melódicos? Não! Axl Rose mostra bastante fúria nas pesadas "Scraped" e "Riad n' the Bedouins", que soam extremamente agradáveis aos ouvidos dos fãs daquele Guns N' Roses mais espontâneo, pesado e descompromissado. Bem que Axl poderia ter substituído duas das piores baladas do álbum por mais dois rocks como esses...

O saldo final do "Chinese Democracy" acaba sendo levemente positivo, por trazer uma quantidade razoável de boas músicas, e por manter vivos alguns aspectos do Guns N' Roses original, como os bons solos de guitarra e o vocal ainda "venenoso" de Axl Rose. Sem contar algumas ótimas músicas, que chegam ao nível do Guns N' Roses clássico, em termos de qualidade musical (e até aquele fã mais conservador irá perceber isso com o tempo). Além do mais, o álbum já se tornou um tanto injustiçado, por ter recebido muitas críticas negativas relativas à grandiosidade na sua produção. Mas, vale lembrar que muitos álbuns clássicos de rock são igualmente grandiosos. Até mesmo os dois "Use Your Illusion" do próprio Guns N' Roses, já receberam críticas semelhantes. Resultado: tais álbuns estão bem próximos de se tornarem clássicos do rock! Isso significa que, em teoria, este novo trabalho pode ter o mesmo destino, não?

Porém, a verdade é que Axl Rose entregou um álbum de qualidade irregular, sem identidade musical realmente definida, entediante em alguns momentos, e com algumas músicas fraquíssimas, que nem chegam aos pés das piores músicas dos álbuns anteriores da banda. E apesar do aspecto "caixinha de surpresas" presente em cada faixa, que levará o ouvinte "recém-iniciado" a querer escutar o álbum mais vezes até desvendá-lo completamente, não restará nenhum real interesse em voltar a ouvir o "Chinese Democracy" depois disso. Tudo o que restará no ouvinte é aquela grande vontade de voltar a ouvir o hard rock arrepiante e realmente competente que apenas aquele velho Guns N' Roses pôde proporcionar um dia, tanto no clássico "Appetite for Destruction" quanto no quase ignorado álbum de covers "The Spaghetti Incident". No desespero, até mesmo um álbum do Velvet Revolver pode ser uma boa pedida...

Músicas:
1. Chinese Democracy
2. Shackler's Revenge
3. Better
4. Street of Dreams
5. If the World
6. There Was a Time
7. Catcher in the Rye
8. Scraped
9. Riad n' the Bedouins
10. Sorry
11. I.R.S.
12. Madagascar
13. This I Love
14. Prostitute


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Sobre Fábio Cavalcanti

Baiano, sempre morou em Salvador. Trabalha na área de Informática e ¨brinca¨ na bateria em momentos vagos, sem maiores pretensões. Além disso, procura conhecer novas - e antigas - bandas dos mais variados subgêneros do rock. Por fim, luta para divulgar, sempre que possível, o pouco conhecido cenário rocker da tão sofrida ¨Terra do Axé¨.

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