Deep Purple: o melhor ao-vivo da história?
Resenha - Made In Japan - Deep Purple
Por Ronaldo Costa
Postado em 04 de outubro de 2007
Após o lançamento de três álbuns históricos e que pavimentaram a trajetória do Deep Purple nos anos 70, transformando-os, ao lado do Led Zeppelin e do Black Sabbath, em uma das bases do que viria a se tornar o hard rock e o heavy metal, o melhor e mais natural meio encontrado pelo grupo para se manter no topo foi a gravação de um disco ao vivo que deixasse registrado para a posteridade todo o talento, força e virtuosismo da banda naquele momento que, até hoje, é considerado pela maioria dos fãs como a melhor fase já experimentada pelo Purple. Não só conseguiram isso, como acabaram produzindo um dos melhores álbuns ao vivo de toda a história do rock, considerando-se todas as suas vertentes.

E realmente não é exagero nenhum considerar "Made In Japan" como um dos maiores discos ao vivo da história do rock. Tanto é que existe um volumoso número de pessoas que vai mais longe, dizendo não ser esse "um dos melhores" ao vivo, mas "o melhor" álbum ao vivo da história do rock. Opiniões à parte, o fato é que esse registro mostra o Deep Purple no auge de sua forma técnica e criativa, fato que pode ser verificado até mesmo nas várias improvisações que a banda faz no decorrer do disco. O petardo nasceu da gravação de apresentações da banda nas cidades japonesas de Tóquio e Osaka, para que se escolhesse com todo o cuidado quais músicas fariam parte do tracklist do álbum. Baseando-se principalmente em canções do álbum "Machine Head", o Purple construiu um dos maiores exemplos de até onde uma banda pode chegar em termos de genialidade e melhorar canções que já eram excepcionais em suas versões originais.
O álbum começa com a clássica "Highway Star", que se já provocava entorses em sua versão de estúdio, aqui tornou-se ainda mais rápida e vigorosa, numa execução de tirar o fôlego. Em "Child In Time", a canção seguinte, é até difícil apontar um destaque, já que a banda inteira tem uma performance sublime. Poderia citar com facilidade o belo trabalho de guitarra e o solo matador de Ritchie Blackmore, ou os teclados do mestre Jon Lord. No entanto, é impossível falar nessa música e não se lembrar dos vocais de Ian Gillan. O que o ‘Silver Voice’ faz com sua voz nessa canção é algo por demais embasbacante. Imagine então qual não deve ter sido a sensação da platéia presente àqueles shows ao assistir bem na sua frente a Ian atingindo agudos praticamente inacreditáveis? Um clássico absoluto. À seguir, temos um dos três riffs mais famosos e reproduzidos da história do rock, na mítica "Smoke On The Water". A música inteira é espetacular, mas gostaria de chamar atenção para a introdução, não apenas o riff histórico de Blackmore, mas para a entrada dos outros instrumentos, um a um. É algo até simples em termos de técnica, mas que provoca uma sensação difícil de se descrever.
Em "The Mule" o dono da festa é Ian Paice, um dos maiores bateristas da história do rock, e que faz um solo aqui onde esbanja técnica, categoria, velocidade e feeling. O destaque em "Strange Kind Of Woman", quinta faixa do disco, é a guitarra de Blackmore e o duelo que ela trava com os agudos de Gillan, na versão mais memorável já registrada para essa canção. O momento mais relaxante do álbum vem em "Lazy", clássico do "Machine Head", onde os músicos, em especial Jon Lord, têm momentos de pura ‘viagem’ e virtuosismo. Virtuosismo que, aliás, mostra-se em doses ainda mais cavalares no fechamento do álbum com "Space Truckin’". Aqui cada um dos integrantes deu vazão a tudo o que sabe, com improvisos geniais, tornando a música muito mais longa que em sua versão original.
Existe ainda uma versão remasterizada desse trabalho, com mais dois clássicos da banda ("Black Night" e "Speed King"), além de um cover de "Lucille".
Comentar discos históricos como esse é, normalmente, mais fácil do que fazer uma resenha sobre um lançamento, pois estamos falando de algo que já foi excessivamente ouvido, avaliado e reavaliado. No entanto, em certas ocasiões, é preciso se segurar um pouco para não exagerar nos elogios quando a obra é de tamanha qualidade. No caso de uma homenagem a um disco com esse, nem adianta tentar, pois não há como falar sobre esse disco e não carregar nas avaliações positivas. "Made In Japan" é clássico por mostrar uma das maiores bandas da história no que, pra muitos, foi a sua melhor fase. Clássico por exibir uma seleção com alguns dos maiores hinos do Deep Purple, tocados com uma competência técnica e uma energia fantásticas. O melhor álbum ao vivo da história do rock? Aí é uma questão de gosto, mas não dá pra chamar de exagerados aqueles que dizem isso.
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