Resenha - House of Bones - VersOver
Por Roberto Gutierrez
Postado em 13 de janeiro de 2004
Os ufanistas que me perdoem, mas, na história do heavy metal brasileiro, é possível contar nos dedos os álbuns que de fato possuem o tão famigerado – e almejado – "nível internacional". Essa conta não inclui, é claro, os Sepulturas e Angras da vida que, a partir de certo ponto de suas carreiras, cruzaram a fronteira do mundo independente em direção a uma infra-estrutura mais profissional, comparável à de artistas de outros gêneros musicais mais populares.

Esse déficit em relação ao heavy metal que se pratica no exterior não tem uma causa única. São inúmeras as bandas talentosas, bem-intencionadas e com enorme potencial que deixaram de estourar devido ou a uma péssima divulgação, ou a uma produção de quinta categoria, ou mesmo à necessidade de ganhar dinheiro (alguém conhece algum músico independente sem trabalho paralelo, dentro ou fora da música?). Da mesma forma, vez ou outra pipocam bandas que têm toda a sorte de apoio da mídia e das gravadoras, mas escorregam ou por pura falta de talento (para compor e/ou tocar), ou por vaidade pessoal, ou por cantarem em um inglês sofrível (essa vai especialmente para os muitos que desdenham desse fator), dentre outras zilhões de causas.
Mas como nem tudo são trevas, ocasionalmente ocorre o fenômeno do encontro do talento com o profissionalismo. E definitivamente este é o caso de "House of Bones", segundo álbum da banda paulista VersOver. Um álbum brasileiro de metal, enfim, consistente: bem composto, bem executado, bem gravado e bem divulgado. Tudo ao mesmo tempo agora. Parece que a fórmula da boa música pesada – riffs criativos, um vocalista com garra e melodias assimiláveis – havia sido esquecida em um canto qualquer e só agora resgatada.
Já na primeira audição, nota-se que a banda mudou consideravelmente seu estilo desde o último registro, "Love, Hate and Everything in Between", muito mais voltado para o prog-metal. "House of Bones", por sua vez, é heavy metal puro, difícil de rotular, principalmente porque há influências de vários sub-estilos: thrash, power, NWOBHM e, claro, progressivo, mas em doses menores. Isso tudo moldado de forma a criar um som muito particular e original. Para os mais afoitos, talvez Rage seja o melhor paralelo, mas quem gosta das fases áureas de Metallica e Megadeth também vai se sentir em casa. Em alguns momentos, Evergrey também me vem à mente.
Mas vamos deixar as comparações de lado. O fato inegável é que o VersOver parece ter adquirido identidade e concluído que as canções importam mais que a performance individual dos músicos. As onze faixas do álbum são interessantíssimas e tornam-se melhores a cada nova audição. "Prologue", apesar do título manjadão, abre o CD com riffs maravilhosos e um pique empolgante "a la" Rage. A simétrica "Wind up the Clock" é outro destaque: com três movimentos, possui belas passagens acústicas (o timbre do violão está fantástico) e um grande arranjo vocal. "DaemAngel" é hit pronto, coisa rara no metal nacional. Riffs muito bem sacados e um refrão pra lá de pegajoso (no bom sentido). "Signs of the Past", com a participação de Edu Falaschi nos vocais, se destaca pelo soberbo arranjo melódico.
Estas – e as outras músicas do álbum – mostram uma banda muito coesa e, principalmente, buscando se diferenciar no cenário metálico. A guitarra de Gustavo Carmo é sem dúvidas a estrela do álbum, com um timbre pesado e riffs e solos que esbanjam talento e originalidade. Seu irmão Rodrigo Carmo, vocalista, deu um salto qualitativo enorme com relação a "Love, Hate..." em termos de afinação e garra, mas ainda vacila na pronúncia em certas passagens. Contudo, se o álbum anterior pecou pelos fracos vocais, neste aqui o cantor é um dos responsáveis pelo ótimo resultado final da bolacha, fugindo do lugar-comum que são as notas altas do heavy metal melódico. Por fim, a cozinha de Fernando Hagihara (baixo) e do recém-chegado Daniel Roviriego (bateria) é eficiente e pesadíssima.
Com relação às letras, todo mundo já está careca de saber que se trata de um álbum conceitual baseado no suspense "A Casa de Ossos" de Adriano Villa. Mais um ponto positivo, pois a história é interessante e incomum. A única ressalva é que o texto em inglês (tanto as letras como as passagens não cantadas) apresenta alguns poucos erros que denunciam a "brasilidade" do trabalho. A produção, a cargo de Gustavo Carmo (que, além de tudo, é o principal compositor da banda), e a mixagem estão excelentes: todos os instrumentos estão bem timbrados e nítidos. A parte gráfica, apesar da confusão das páginas trocadas no encarte, é acima da média.
Enfim, um autêntico álbum de heavy metal que deverá fazer a alegria de qualquer um que se julgue amante do que há de melhor no estilo e que torça, como eu, para que o Brasil efetivamente contribua para o estilo com mais e melhores bandas. Parabéns ao VersOver, pelo talento e dedicação, e para a DieHard, pelo amor à música e visão de futuro.
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