Resenha - Synchronicity - Police
Por Raul Branco
Postado em 10 de agosto de 2000
Conhece a história do jogador de futebol que abandonou a carreira quando estava no auge? Aconteceu algo parecido com o The Police, um dos mais importantes grupos dos anos 80. "Synchronicity" foi o canto de cisne de um trio que começou punk, bebeu das águas do ska e do reggae, misturou com uma pitada (bem pequena) de new wave e teve, como produto final, uma banda única, com um som inconfundível, não importando os elementos musicais que fossem adicionados com o passar dos anos. Boa parte disso se deve às composições, voz e baixo de Sting, mas não dá para imaginar The Police sem o maravilhoso trabalho de bateria de Stewart Copeland e a guitarra Telecaster de Andy Summers.

Produzido em 1983 pelo próprio trio e Hugh Padgham, o álbum foi concebido sob o conceito de sincronicidade, ou seja: há uma relação entre todos os eventos no planeta. Se uma borboleta bater as asas no oriente pode causar um furacão no outro lado do mundo.
Nunca Sting, como letrista, esteve tão inspirado no The Police. A primeira faixa do álbum é "Synchronicity I", cujo tema é explorado, repetida e hipnoticamente, até a bateria de Copeland entrar marcando forte e a voz de Sting nos trazer em versos o conceito de sincronicidade.
Na segunda faixa, "Walking In Your Footsteps", a guitarra de Summers nos faz pensar nos gritos de dinossauros, enquanto Sting fala da tolice que fazemos, seguindo as pegadas dos dinossauros a caminho da extinção. Em seguida, com um impressionante groove no baixo, "O My God" tem outra letra cerebral que revela um dos grandes trunfos deste disco: versos inteligentes e com temas fortes sem serem ambiciosos, herméticos ou chatos.
Pausa nas composições de Sting. Agora é a vez de Stewart Copeland e Andy Summers. "Mother", de Stewart Copeland, não é, definitivamente, uma música para tocar nas rádios FM. Com a voz ensandecida e harmonia explorada mais em notas dissonantes do que na obviedade, a letra é para fazer qualquer Norman Bates suar frio. "Miss Gradenko", de Summers, é uma música de pouca duração, mais ritmada e simples. Pareceria quase uma concessão de Sting e Copeland para com seu guitarrista, não fosse a riqueza intrínseca da música, que vai-se percebendo a cada audição.
Ao som de um sintetizador e da forte marcação da bateria, inicia-se "Synchronicity II", que rendeu um videoclip futurista e muito exibido na época de seu lançamento, com Sting ainda com o cabelo pintado e com o corte que usou para as filmagens de "Duna". Agora os versos não tratam de uma explicação do conceito, mas de uma exemplificação. A banda se reintegra em volta de seu cantor e volta a funcionar como uma unidade e com sua sonoridade habitual.
Depois de uma grande música, outra grande música. Um dos maiores, se não o maior sucesso do grupo, "Every Breath You Take", com sua letra obsessiva e um arranjo impecável, alavancou as vendas do disco até para um público que lhe era indiferente, embalado pelo dedilhado abafado da guitarra, o baixo simples e mesmerizador, a batida seca da bateria e, claro, a beleza em si da composição, capaz de resistir a qualquer arranjo ou interpretação.
"King Of Pain", que dá continuidade ao disco, é mais uma letra brilhante numa melodia cativante. Destaque para o trabalho impecável de percussão e bateria de Stewart Copeland, sendo agressivo na medida certa. Summers, mais uma vez, prepara a base para que seus parceiros brilhem. Na esteira de belas músicas, "Synchronicity" fecha com "Wrapped Around Your Finger" e a hipnotizante "Tea In The Sahara". A versão em cd ainda traz uma bonus track, "Murder By Numbers".
Depois deste disco antológico e os concertos para promovê-lo, o grupo acabou, vítima principalmente dos enormes egos de Sting e Copeland. Só viriam a reunir-se mais uma vez para uma coletânea fantástica, onde re-gravaram uma versão dispensável para "Don’t Stand So Close To Me". Como canto de cisne, porém, nada poderia ser mais grandioso e melhor para o lugar de honra que o trio conquistou no panteão do rock do que "Synchronicity".
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