Resenha - Bigorna - Cartoon

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Por Marcos A. M. Cruz
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Nota: 9


Devo confessar que escrever sobre este CD me foi, de certa forma, um grande desafio, pois além da expectativa que cercava sua chegada (gosto muito de seu antecessor, o "Martelo"), o comentário geral era que se tratava de um dos melhores discos de Progressivo do ano de 2002 (houve até quem dissesse ser um dos melhores de todos os tempos!)

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Entretanto, após ouvi-lo, me bateu uma decepção muito grande, a ponto de tê-lo reescutado duas ou três vezes seguidas, tentando meio inconscientemente fazer com que a razão se sobrepusesse à emoção, e eu deixasse de "nadar contra a maré", acabando por me render à grandiosidade da obra.

Todo esforço foi em vão...

Seria muito simples se pudesse apenas deixar o CD de lado, assumindo não haver gostado dele. Porém, antes de mais nada, tinha por obrigação profissional resenhá-lo, face ter assumido tal compromisso.

E para complicar ainda mais as coisas, de fato não há motivo para criticá-lo, pois analisado de forma racional, se trata de um grande trabalho, instrumentalmente falando à beira da perfeição, tanto que, como temos obrigatoriamente de aplicar notas às resenhas, não pestanejei em conceder um 9, baseado unicamente em critérios, digamos, "técnicos".

Seria comigo o problema? Estariam meus ouvidos insuficientemente apurados para o gênero, tendo eu de me resignar a ouvir somente músicas de três acordes?

Bem, espero que não, pois dentre meus discos preferidos, estão alguns "medalhões" do estilo. Além disso, um grande amigo, profundo apreciador de Progressivo, me relatou que havia tido a mesmíssima sensação!

Sendo assim, me prôpus então a ouvi-lo diariamente, até me sentir apto para passar para o papel (leia-se para a tela do micro) as razões que tornam (para mim) sua audição menos prazerosa que o primeiro CD, procurando evitar o que considero um dos principais erros que todos que escrevemos sobre música vez por outra cometemos, que é deixar se levar pelo gosto pessoal na hora de redigir um texto.

Antes de mais nada, faz-se necessário esclarecer que considero o já citado "Martelo", de 1999, um excelente trabalho, com arranjos criativos, mesclando Progressivo setentista com pitadas de música brasileira, com letras irônicas e muito bem-humoradas, soando como se fossem uma espécie de versão atual do MUTANTES na sua fase clássica.

E, um ponto muito importante, ele é cantado em português!

Vamos então a este CD, anunciado como sendo a "1ª Ópera-Rock Brasileira", e de fato o é, desconsiderando-se "A Extravagante Saga De Tchambie Em Busca De Uma Maldita Caneca De Café Decente", do SENADOR MEDINHA (pseudônimo de Diego Medina, ex-VÍDEO HITS), que está disponível na íntegra para download no mp3.com, que, entretanto, se trata de um trabalho distante do Progressivo, e até onde sei, nunca foi editado em CD.

Embora em menor escala, o "Bigorna" ainda traz algumas influências setentistas, notadamente nos timbres dos teclados e Moogs, além da profusão de intervenções de flautas e gaita e instrumentos acústicos. E os arranjos são ainda mais complexos que os do "Martelo".

Então, qual é o problema?

Em primeiro lugar, pelo fato de ser cantado em inglês, boa parte daquela atmosfera criada pelo anterior, que emula as pérolas nonsenses de Rita, Arnaldo & Cia, se perde totalmente, a não ser que o ouvinte fale fluentemente a língua.

O tema abordado, que seria uma espécie de paródia da Saga do Rei Arthur e os Cavaleiros da Távola Redonda, apesar de ser extremamente "batido", poderia vir a render uma boa história, ainda mais que a proposta seria relatar a lenda sob uma ótica bem-humorada, procurando manter uma das características marcantes da banda.

Porém, receio que o resultado final tenha deixado um pouco a desejar, e apesar de alguns momentos realmente divertidos, há outros onde as letras passam uma impressão, digamos, meio "infantil", ainda mais se levarmos em consideração a complexidade dos arranjos, o que as torna ainda mais deslocadas - traduzam as letras e as encaixe nas suas respectivas músicas para entender melhor o que digo...

Portanto, se o objetivo é atingir o mercado externo, há um certo risco embutido na empreitada, pois se trata de um paradoxo a mistura de arranjos sofisticados (que serão degustados apenas por ouvidos treinados e, por conseguinte, bastante exigentes) com letras que talvez não estejam à altura.

Mas voltando à questão da instrumentação, que por ser extremamente precisa e técnica, com certeza vai agradar em cheio aos ouvintes fanáticos por Progressivo, até porquê traz todos os elementos do estilo, e, como já foi dito, é executada de forma competente e precisa.

Este é exatamente o grande diferencial entre um trabalho e outro, pois o "Bigorna", ao perder aquelas características de "brasilidade", poderia perfeitamente passar por um álbum de alguma banda "gringa", ao contrário do "Martelo", onde havia um frescor e uma mistura de diversos elementos que os tornava algo único, diferente, e credenciava o CARTOON como um dos legítimos descendentes das bandas de Progressivo brazucas dos anos setenta, trazendo basicamente o que elas tinham de melhor.

O fato é que, para quem não é exatamente aficcionado pelo estilo, o "Bigorna" se torna um tanto quanto difícil de ser assimilado, tanto que, para "tirar a prova dos nove", surgiu uma ocasião onde pude levar ambos discos para serem ouvidos por pessoas que não entendem e não conhecem praticamente nada de Progressivo. Resultado: todas foram unânimes em preferir o "Martelo".

A mim isto soa como "um tiro no escuro", pois eles correm o risco de perder alguns dos antigos fãs, embora possam ganhar outros, mas estritamente dentro do universo Progressivo. Talvez seja esta a intenção, somente Khadu, Kiko, Boxexa e Bhydu é que poderiam dizer.

Reconheço que estou sendo muito exigente com a banda, e se este fosse seu primeiro trabalho, talvez o saudasse com tiros de canhão imaginários. Portanto, espero de coração que eu esteja enganado, eles saibam o que estão fazendo e que esta resenha venha a ser lembrada apenas como sendo lamúrias de um "chato de galochas", pois o CARTOON merece, sem sombra de dúvida, conquistar seu lugar ao Sol!

Faixas:
Prologue (instrumental)
From the Hands of God
Knights Nightmare
King's Song
King's Fugue
She Smiled
Guinevere
Marriage
Show Me Where Love Lives
Lily Fears
The Warning
March Of Despair
a) She's Coming!
b) Cool Down Emily Whith
c) Song Of Despair
Apocalypstic Man
Alberich's Blues
Letter To Marion
In The Gates Of Hell (instrumental)
The Last Battle
The Great Gates Of Freedom (instrumental)
Total time: 73:23

Músicos:
Khadu (voz, baixo, esraj, cítara e gaita)
Kiko (guitarra e vocal)
Boxexa (teclados, vocal e piano)
Bhydu (bateria, percussão e flauta)




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