Resenha - Machina; Machines of God - Smashing Pumpkins
Por Fabrício Boppre
Postado em 16 de março de 2000
"MACHINA/The Machines of God", se não contarmos o box set "The Aeroplane Flies High" (1996) e a coletânea de lados B e singles "Pisces Iscariot" (1994), é o quinto álbum de estúdio do Smashing Pumpkins (Chicago, EUA). Nos dois primeiros discos, "Gish" (1991) e "Siamese Dream" (1993), o grupo já se destacava no cenário alternativo americano com seu rock distorcido e criativo. Billy Corgan, o líder absoluto da banda, já demonstrava ser um músico bastante talentoso, escrevendo excelentes canções, sejam baladas ou canções agressivas e pesadas. Chegou a gravar o disco "Siamese Dream" praticamente sozinho, uma vez que o resto da banda dificilmente se entendia. Mas a partir do terceiro disco, o clássico "Mellon Collie and the Infinite Sadness" (1995), a banda passou a incorporar em seu som influências variadas, não só no que diz respeito aos vários instrumentos usados nas músicas, mas também nos estilos que a banda adota, resultando assim em um disco inesquecível. Em "Adore", o quarto disco (1998), o amadurecimento e a evolução continua, mas agora a mudança foi bem mais sensível, e até traumática para alguns fãs que estavam acostumados com as guitarras de Corgan e do segundo guitarrista James Iha. "Adore" é mais um excelente disco, com a inspiração e o talento de Corgan sobrando novamente. Mas, devido ao uso de vários elementos eletrônicos e predomínio de canções lentas, introspectivas e sombrias, o álbum não fez tanto sucesso quanto os anteriores, sendo sem dúvida alguma incompreendido pela maioria.
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Mas em "MACHINA", lançado nos EUA em 29 de fevereiro de 2000, o quarteto americano voltou a plugar as guitarras e nos presentear com mais um excelente disco. E, logo na primeira frase da primeira música, a empolgante e pesada "The Everlasting Gaze", Billy canta: "You know I’m not dead", avisando a todos que o grupo não morreu após o lançamento de "Adore", uma vez que a banda realmente chegou a estar por um fio. O baterista Jimmy Chamberlain (que esteve fora da banda durante um tempo e não tocou no disco anterior, tendo voltado agora ao grupo) tem sérios problemas com drogas; vários eram os desentendimentos com a gravadora do grupo; a baixista D’Arcy parecia não suportar mais Corgan (tendo saído efetivamente da banda depois da gravação de "MACHINA" - Melisa Auf Der Maur, ex-Hole já está com o grupo) e o tecladista do grupo, Jimmy Malvoin, morreu vítima de uma overdose de heroína. Alimentados por esses fatos, muitos foram os boatos dando conta do fim do grupo, mas "MACHINA" não só põe um fim a isso tudo como também prova que o talento de Billy Corgan e cia. continua a gerar excelentes músicas e, para a alegria da grande maioria dos fãs, volta a destacar na maioria delas as guitarras cortantes e distorcidas de Iha e Corgan. A produção de Flood e Billy Corgan (dupla que deu certo em "Mellon Collie") também merece ser destacada. Flood chegou a dizer durante a produção que o novo álbum do Pumpkins era um dos melhores discos que ele já ouvira.
Musicalmente falando, essas são as constatações depois de algumas audições cuidadosas de "MACHINA": temos ainda alguma influência eletrônica (perceptível em "Raindrops + Sunshowers" e "The Sacred and Profane"), mas usada parcimoniosamente e em perfeita simbiose com os outros instrumentos, e não se sobressaindo demais como em alguns momentos de "Adore". Não há tantas canções pesadas e agressivas como em "Siamese Dream" ou "Melon Collie", mas parece que a banda finalmente encontrou sua identidade, equilibrando bem o peso e a delicadeza das músicas entre si (em "Mellon Collie" a banda pareceu para muitos pretensiosa demais fazendo canções hora extremamente delicadas e lentas e logo depois tocando uma outra bastante pesada e densa). "Heavy Metal Machine" possui um riff de guitarra cadenciado e pesado, que se aproxima do hard-rock/metal mais antigo, e uma letra sarcástica com relação ao rock: ""If I were dead would my records sell?" indaga Corgan, que logo depois diz: "Let me die / For rock’n’roll / Let me die / To save my soul". Outras canções que possuem guitarras se destacando são "The Imploding Voice", "Glass and the Ghost Children", além da excelente "Stand Inside Your Love", que, por sinal, foi a primeira música a sair em single antes do lançamento do disco, e que é, possivelmente, a melhor canção do disco. Podemos citar ainda outras excelentes músicas como "Wound", "This Time", "With Every Light", "Try, Try, Try", "With Every Light", "Age of Innocence" e "Blue Sky Bring Tears". Ao longo do disco destacam-se os belos arranjos criados por Corgan, que continua a abusar do seu talento e imaginação, criando sonoridades cativantes (sem precisar recorrer aos computadores, como ele fez em "Adore") e encaixá-las com perfeição nas músicas, em junção harmoniosa com as linhas de melodia bem sacadas e bons refrões. Os teclados estão presentes em grande parte das faixas, mas são sempre bem colocados e discretos, bem entrosados com as músicas e criando atmosferas bastante interessantes e bonitas.
As letras de Billy Corgan também continuam como um diferencial do Pumpkins, realmente acima da média da grande maioria de compositores que infestam o mercado atualmente. Corgan continua falando bastante de amor, nostalgia e outros sentimentos de maneira bastante poética e singela, sendo o andamento das músicas sempre como uma extensão de seu lirismo: ora triste e climático, ora mais contagiante e alegre. Em suma, em suas músicas transparecem os seus sentimentos e angústias, o que por si só já é uma qualidade. Isso, aliado à competência dos outros membros do conjunto, faz de "MACHINA" mais um disco exemplar da carreira desse conjunto americano, um dos mais importantes e aclamados do rock contemporâneo.
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