Shaman: o início

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Por Hugo Alves
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No final dos anos 1990, o Heavy Metal brasileiro passava por um momento no qual ainda desfrutava das glórias de produções impecáveis de toda a década, mas amargava um grande e doloroso período de incertezas. O Viper, banda pioneira no cenário nacional, abocanhara grande fatia da atenção da mídia especializada após discos excelentes como "Evolution" (1992) e "Coma Rage" (1994), com o clássico ao vivo "Maniacs in Japan" (1993) no meio, mas "Tem pra Todo Mundo" (1996) foi o tiro no pé que fez a banda cair no ostracismo quase que automaticamente. O Sepultura, que havia construído seu status de "Pelé do Metal brasileiro" através de verdadeiros petardos do cenário tupiniquim, como "Arise" (1991), "Chaos A.D." (1993) e aquele que talvez tenha sido o maior sucesso comercial da banda: "Roots" (1996), tentava agora com Derrick Green, que ocupava o lugar polemicamente deixado por Max Cavalera, provar-se ainda tão forte e já mostrava em "Against" (1998) sua nova cara. O Angra, a "outra face" do Metal brasileiro para o mundo (em paralelo ao Sepultura no que diz respeito à força internacional), havia estabelecido um novo som, verdadeira referência para a posteridade, através de "Angels Cry" (1993) e, principalmente "Holy Land" (1996). Houve ainda "Fireworks" (1998) que, a despeito de ser um disco muito bom, não repetiu o sucesso de seus antecessores. E foi a partir do fim da "Holy Tour", por volta de 1997, que a ruptura do Angra começou.

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A ruptura de um marco do Metal nacional

O fato é que o descontentamento do cantor e compositor Andre Matos para com o então empresário e detentor dos direitos sobre o nome da banda Antônio Pirani (também responsável pela revista Rock Brigade e pelo selo Rock Brigade Records) pode ser visto como o pivô da separação da primeira formação do Angra [Nota do autor: as informações a seguir foram retiradas de entrevista encontrada neste link e, em nenhum momento, cabe julgar qual parte esteve certa ou errada, e este não é o objetivo do texto; como autor, visei apenas pequisar e colecionar fatos, e compila-los de maneira inédita neste site]. De acordo com entrevista concedida por Matos ao site Metal Kings em Junho de 2004, ele nunca esteve de acordo com o modo como as coisas eram gerenciadas em relação ao Angra (muito embora tenha sido ele o responsável pelo contato com Pirani quando formou a banda junto a Rafael Bittencourt), o que ele nomeia como "um grande pesadelo". Ainda segundo o cantor, o que consta é que, ao iniciar o processo de composição do sucessor de "Holy Land", a banda estava prestes a assinar um grande contrato com a Sanctuary Records (divisão britânica da EMI) e ser a terceira maior banda sob os cuidados do selo (atrás apenas de Iron Maiden e Helloween), mas Pirani foi um grande causador de problemas e o motivo de a negociação não ter dado certo (Matos não foi mais específico que isto na entrevista). O cantor relata ter estado pronto para deixar a banda, mas foi impedido por obrigações contratuais. Os sentimentos do cantor, por fim, são depositados sobre o terceiro disco do Angra, "Fireworks" (1998), que ele julga muito bom, mas aquém de seus antecessores, principalmente pelo fato de ter sido um disco no qual ele trabalhou obrigado e não de maneira espontânea.

Na mesma entrevista, Matos relata ter descoberto a comercialização de diversos materiais piratas com o nome/ a marca Angra em países nos quais a banda tocou ao longo da turnê de "Fireworks" entre os anos de 1998 e 1999, e que Pirani não havia feito nada para coibir este tipo de prática. Conversou com o baixista Luís Mariutti e o baterista Ricardo Confessori, que ficaram ao seu lado mas, ao conversar com os outros dois membros da banda, os guitarristas Rafael Bittencourt e Kiko Loureiro, para o cantor ficou claro que estes últimos sabiam das práticas do empresário e em nenhum momento se mostraram contra tais atitudes. O último show da turnê "Fireworks" foi em 23 de Outubro de 1999 no Credicard Hall, em São Paulo. Após isto, Andre Matos, Luis Mariutti e Ricardo Confessori deixaram oficialmente o Angra, levando consigo ainda o tecladista Fabio Ribeiro, que havia trabalhado como sideman da banda no início da turnê de "Angels Cry" e na turnê de "Fireworks" (excetuando a perna europeia, que ficara a cargo de Fabrizio DiSarno). Estava consumada a primeira (de várias) e mais dramática ruptura da história do Angra.

A virada da década trouxe alguns dos membros trabalhando em seus projetos paralelos. Enquanto os membros remanescentes do Angra recrutavam Edu Falaschi (voz), Felipe Andreoli (baixo), Aquiles Priester (bateria) e Fabio Laguna (teclados) para dar início ao que viria a ser a fase de maior exposição e sucesso do Angra (mais especificamente a partir do lançamento de "Rebirth", lançado em 2001), Luis Mariutti logo incorporaria outra banda, Henceforth, com um som muito mais calcado no Thrash Metal, e que tinha ainda em sua formação seu irmão mais novo, o guitarrista Hugo Mariutti, por quem a banda foi formada. Andre Matos, por sua vez, trabalhava com o produtor alemão (e seu amigo pessoal) Sascha Paeth no projeto experimental Virgo (Paeth já havia colaborado com o Angra no disco "Angels Cry", que a banda gravou na Alemanha). Ricardo Confessori, porém, idealizou algo maior e notadamente não pretendia ficar relegado a projetos paralelos menores que aquilo que já havia alcançado em sua anterior e, até então, mais pretensiosa aposta.

O baterista começou a desenhar a proposta de uma nova banda junto ao baixista Luis Mariutti, numa "nova velha" parceria mais que natural, já que se trata de uma das mais famosas e bem entrosadas "cozinhas" do Metal mundial. Para ajudar no processo de composição, eles recrutaram o irmão de Luis, Hugo Mariutti. Outra escolha bastante natural foi trazer de volta Andre Matos para a equipe, e este aceitou prontamente logo após finalizar seu projeto Virgo e retornar da Alemanha. O processo de composição mostrou-se bastante natural e prazeroso a todos os envolvidos, com a banda, a despeito de manter três quintos da formação original do Angra, apontar para uma nova direção musical sem, no entanto, esquecer os principais elementos que construíram a reputação e a fama de cada músico ali envolvido. Nesse ínterim, Hugo Mariutti tanto se destacou com suas contribuições que acabou sendo oficializado como membro do grupo. Já no ano de 2000, aconteciam as primeiras entrevistas do novo grupo que já tinha um nome, curto, chamativo, apelativo e poderoso: Shaman, uma mistura de inspiração pela canção "The Shaman" (presente no disco "Holy Land" do Angra) e das próprias linhas temáticas das primeiras canções que surgiam das sessões do quarteto. Na verdade, diz-se que inicialmente o grupo tentou trazer a marca Angra para si mas, por se tratar de um registro já de propriedade de Antônio Pirani, a saída foi encontrar um outro nome - e Shaman foi sugestão do baixista Luis Mariutti.

Entre os fãs, havia menos incerteza, pois os então ex-membros do Angra permaneciam trabalhando juntos no sentido de continuar o belo trabalho desenvolvido até o momento que deixaram a antiga banda e acrescentar novas nuances ao seu som. Entretanto, naturalmente ainda haviam questionamentos: seria o Shaman uma continuação do Angra, como um "Angra II"? A nova banda relembraria alguma coisa do Angra em seus sons próprios e mesmo em seus repertórios de shows? Se sim, permaneceria com apenas um guitarrista? Hugo Mariutti daria conta do recado?

A primeira resposta veio em 10 de Fevereiro de 2001, quando a banda fez seu primeiro show (no Brasil; eles já haviam se apresentado em 30 de Junho de 2000 em um show à parte no festival Ruisrock em Turku, na Finlândia) na cidade de Recife. A banda já tinha uma demo pronta, com quatro canções, todas apresentadas no repertório: "Time Has Come", "Here We Go", "Blind Shell" e uma instrumental chamada "Be Free". O passado no Angra foi relembrado através dos petardos "Carry on", "Streets of Tomorrow", "Nothing to Say", "Carolina IV", "The Shaman", "Wings of Reality" e "Lisbon", além de resgatar um passado ainda mais remoto de Andre Matos com "Living for the Night", de sua primeira banda, o Viper, e o encerramento com "Flight of Icarus", clássico oitentista do Iron Maiden. O passado ainda recente com o Angra foi valorizado - ainda mais pela adição de Fabio Ribeiro nos teclados em todos os shows - e a cara da nova banda também aparecia, ainda que timidamente, com aquilo que já tinham pronto. Hugo Mariutti, o então novato, impôs seu estilo, mostrando que seguramente daria conta de reproduzir canções do Angra quando necessário sozinho e adicionando peso extra, resultado de suas influências mais Thrash Metal.

Até que o disco de estreia do grupo estivesse pronto, a hoje conhecida como "Pre-'Ritual' Tour" estendeu-se até 24 de Julho de 2001, num grande show no El Rayo, na Cidade do México. Depois, a banda permaneceu concedendo entrevistas e aparições em programas televisivos e então ficou reclusa, cuidando de cada detalhe da nova empreitada. Havia muito o que provar. Matos, Mariutti e Confessori eram três nomes de peso nos cenários nacional e internacional, mas não eram maiores que o nome Angra, então havia sua independência e relevância posta em xeque; Hugo, o Mariutti mais jovem, já havia provado grande valor a seus companheiros e, mesmo ao vivo, também já vinha ganhando a simpatia do público, e agora era chegada a hora da mais difícil das provas, que seria o julgamento do público após conhecer o primeiro grande trabalho autoral com sua assinatura.

Não havia absolutamente nenhuma pessoa, porém, que estivesse preparada para o que viria a partir de então - nem mesmo os próprios integrantes da banda...


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Sobre Hugo Alves

Hugo Alves é formado em Letras (Português and Inglês) pela UNISO - Universidade de Sorocaba e futuro mestrando em Literatura ou Semiótica. Começou a escutar Rock aos 11 anos com "Bring Me to Life" do Evanescence, mas o que o tomou para sempre para o Rock and Roll foi "Fear of the Dark" (versão ao vivo no Rock in Rio), do Iron Maiden, banda que, ao lado de The Beatles, considera como favorita, amando quase que igualmente os sons de Viper, Angra, Shaman, Andre Matos, Rush, Black Sabbath, Metallica, etc. Foi vocalista das bandas Holygator e Bad Trip, iniciantes em Sorocaba/ SP, e também toca guitarra e baixo. Outra de suas paixões é a Literatura, pela qual desenvolveu o gosto pela escrita e comunicação.

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