Lou Reed: White Light / White Heat (NYC Man)
Por Rodrigo Contrera
Postado em 02 de janeiro de 2018
Não é de hoje que se percebe, então, que o Lou sempre foi herdeiro de uma tradição de gente que gostava de ingerir substâncias para descobrir na realidade alguma sensação que a fizesse sair da mesmice (Burton, De Quincey, Rimbaud, Burroughs, Leary, etc.). Lou, judeu que havia sido forçado a tratamento de choque porque transava com meninos e meninas, devia tentar escapar dessa forma. Como muitos. Há quem diga que não precisa. Há quem se convença de que não precisa. Há quem não precise.
A versão do CD:
"White Light" quase sempre é entendida como uma faixa que transita no limite do sensorial. Uma faixa agitada, dançante, com um baixo marcante, em que tudo parece vir de fora - e por isso nos atingir de dentro. Há um convite, uma espécie de festa interior, e um jeito maroto de nos dizer que a vida pode ser apenas nosso instante. Muitas são as fases da obra do Lou em que esse convite parece explícito - ou é. Como em Heroin, ou em momentos da carreira em que ele mesmo parecia ter pirado com a substância.
Tradução White Light:
http://www.loureed.it/traduzioni/white-light-white-heat/
Pode-se fazer as ilações de white light com cocaína, com a já falada heroína ou mesmo com as luzes estroboscópicas ou globos de luz que iriam se tornar febre especialmente na era disco, anos 70. Há quem diga que não se pode em sã consciência ir muito além. Nem o Lou embarcou na era disco para fazer a conexão. Outros citam rockabillies antigos, como White Lightning, sobre o luar. Já outros avançam rumo a ocultistas como Alice Bailey, e tentam provar que o Lou se referia a teosofistas de uma chamada magia branca (procurem o link nas referências).
O livro que teria inspirado White Light:
https://dangerousminds.net/comments/the_occult_book_that_inspired_the_velvet_underground
Creio que o que define a música é seu caráter de rock carnavalesco. A gente ouve o pessoal lá ao fundo, na gravação do CD, e imagina todos se mexendo. Uma guitarra que faz solos bem arranjados (alguns), uma base que dialoga com o baixo de forma simples, e uma espécie de deixa para perder os sentidos. Porque, se Lou grita ou uiva como em poucas canções do CD, aqui ele se deixa levar pela música. Uma queda para a festa. Para com ela... subir, ascender. É de notar como o próprio CD termina com um convite anacrônico em relação ao próprio Lou, como se só restasse mesmo isso (a festa).
Um aspecto que só agora me vem à mente é o jeito com que Lou canta, por vezes até gritando, mas sempre como uma espécie de resquício na vida que nos atém ao chão. Nunca é um chamado para algo além de nós. Os convites à festa, por mais extremos que por vezes até pareçam, são sempre a uma festa humana, restrita à nossa realidade. Mesmo as faixas - não esta - mais tranquilas parecem nos dizer que não existe nada em nós que não possa ser resumido apenas a nós mesmos, a nossa irrelevância de seres humanos em tudo limitados. Nem o Lou se preocupa em cantar - nunca - realmente BEM. Tudo é mais simples. Mesmo quando ele até tenta caprichar. Algo o convida a ficar aqui mesmo.
Na época em que eu o ouvia do CD player de minha irmã, lá do quarto dela, eu não conseguia entender o atrativo de algo desse tipo para um moleque que queria saber de histórias (daí minha fixação pelo Iron Maiden). Mas agora, bem mais velho, tendo vivido em meio a uma trupe bêbada por alguns meses, percebo. Lou simplesmente exulta pela vida. Imaginem se ele poderia não ter dado certo. Seria mais um dos perdidos da geração. Mas nada de hippie com ele, que a energia era outra.
Velvet - White Light (versão original):
Com o tempo, claro, outros se apropriaram do achado. Desde Bowie, passando por filmes recentes. Mas nenhum - novamente - capturando a essência disso que está ali. É como se a festa, em Bowie, não fosse mais uma ruptura, mas já estivesse aceita, enquanto em Lou parece quase um ato de rebeldia pura. Nada contra Bowie, que captou a influência com bastante rapidez. Mas a favor da versão original, pura e simplesmente isso. Novamente, Lou ganha de letra. Há quem transforme a faixa em outra coisa - quase um western -, mas aí também percebemos o que fica - e o que, por mais bonito que seja, vai embora.
Bowie - White Light / White Heat:
White Light / White Heat:
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