Lou Reed NYC Man (2003): I'm Waiting for the Man
Por Rodrigo Contrera
Postado em 31 de dezembro de 2017
Todos somos de algum lugar. Mesmo quando isso não parece tão claro. Lou Reed era de Nova Iorque, e isso sem tirar nem pôr. NYC Man (Homem de NYC) é a coletânea lançada em 2003 que representa toda minha discografia do sujeito. Pouca. Mínima. Mas hoje temos Youtube.
Mas era estranho, porém, alguém se considerar de algum lugar - naquele fim de século (Lou vivia aquele momento em que tudo se tornava uma coisa só, afinal). Considero que ele correspondesse a um mesmo movimento, embora tardio, de retirar da Europa o centro das atenções. A pintura, a música, o jazz, o rock, o cinema, agora estavam em Nova Iorque. Claro que há mais na música. E no contexto geral.
Mas o seu lugar é aqui.
Tanto que ele próprio reconhece a atenção que deu à seleção, sequenciando-a e, com suas próprias palavras, pondo as pessoas certas para trabalhar na obra. Estamos, claro, numa época em que a integridade da obra toda parece responder a uma necessidade maior (uma espécie de coerência, de reafirmação de princípios, etc.). Algo diverso dos dias de hoje, em que pegamos tudo em picadinhos (o tempo todo). E em que não parecemos dar bola a esse tipo de coisa (obra preservada é coisa de outro tempo). Lou era um homem do século passado.
I'm Waiting for the Man
Os acordes aparentemente toscos do piano (de John Cale) desta faixa sempre me chamaram a atenção. Havia algo de moleque nesse jeito de tocar (e o próprio Lou nota no CD como a pegada é forte). Um jeito descompromissado de falar do "crime". Crime? Que crime? Ele (o protagonista) estava "apenas" esperando o Homem que iria lhe trazer a heroína de 26 dólares, ora. Algum problema nisso?
Velvet e I'm Waiting (original)
O garoto branco espera, e comenta enquanto espera, com os negros que o abordam, que não veio atrás das "mulheres deles". E que aprendeu logo que a primeira lição era saber esperar. Depois o garoto vai embora correndo, e comenta, como se sente bem agora. Pois é. A gente percebe que o mundo conspira contra ele. Mas que ele não liga.
Em que época estamos? Por volta de 1967 (quando eu nasci). Época de seriados como Columbo e Serpico (que vi de moleque). Época em que o mundo se tornava diferente, após e durante as lutas contra a segregação racial (o mundo politicamente correto nasceria ali). Mas onde estava Lou? Procurando sua fuga. Bissexual tratado com choques, de origem judaica, que não estava nem aí. Gostava de literatura e de rock, e de arte.
Sei algo daquilo que seja isso. Comentar a chegada do traficante. Mas pouco. Passei por meses as noites de dia e fim de semana num teatro do chamado underground paulista. Até aí nada demais. Mas o teatro fica no entroncamento da Frei Caneca com a Paim. Onde o pessoal ia quando a energia, digamos, acabava? Descia apenas um quarteirão. É lá que ficava o sujeito de "paletó e chapéu de palha" (sqn). Por vezes, a pessoa já chegava abastecida, claro. Por vezes, estava na fissura e era obrigada a sair.
Matéria sobre o underground em NYC naquela época
http://www.telegraph.co.uk/travel/destinations/north-america/united-states/new-york/articles/The-Velvet-Undergrounds-New-York-in-search-of-the-citys-darker-side/
O jeito simples e matreiro com que o Lou aborda um assunto corriqueiro para quem vivia como ele causa sensação até hoje. É como se não houvesse lei nem culpa ou responsabilidade rondando nada do que acontece. Como se fosse natural. Porque era natural. Ocorre que o mundo mudou. E tudo se torna mais complexo, e há coisas em meio a tudo isso. E a simplicidade do Lou Reed da época chega quase a chocar. Sinal dos tempos.
Basta repararmos na edição original da música, neste CD, e em versões inspiradas (algumas delas que posto por aqui), para diagnosticarmos o óbvio: ninguém superou o original. Pouco importa que Cale se meta a fazer isso num concerto milionário. Ou que Echo tente algo com violões. A própria versão de Bowie, que foi seu parceiro em algumas obras, parece mais datada, inclusive. Creio que parte da razão para isso está no caráter eminentemente tosco do original. Algo de selvageria, ali. Algo de momento. Algo de real. O resto, por melhor tocado que seja, é edulcuração. Dourar uma pílula desnecessariamente. O título da música virou título de livro para falar de rock e drogas. Nada mais óbvio, de certa forma.
Livro
Velvet sem Cale e I'm Waiting ao vivo no Matrix
Outras versões
Echo & The Bunnymen
Velvet (Cale and Musk) tocam a música
https://www.rollingstone.com/music/news/see-velvet-undergrounds-waiting-for-the-man-reunion-w508487
Bowie - I'm Waiting for the Man
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