Kreator: Religião e Guerras em análise de "Coma of Souls"

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Por Rodrigo Lourenço Costa, Fonte: Blog HM - História e Metal
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KREATOR – Album: Coma of Souls (1990)

Masters of war
Merchants of false peace
Bleeding the lives of the lost
Feeding them terminal disease
Breaking the rules
No matter who gets hurt
Wholesaling useless trash
Charging twice what it's worth

Freedom of thought a mirage
The coma is endless and deep
Feeling so worldly and wise
Fooled by the friends that we keep

Spirits on ice
They'll never be free
One-dimensional lives
Will the coma of souls outlive eternity

Children are pawns
For generals to play with and kill
Mercy will never be found
Where mayhem is done for the thrill
Righteous crusades
Murder to honor a god ?
No one is saved
Dead bodies shrivel and rot

Deep in the unconscious mind
Lies the oldest wisdom
Buried by centuries
Of war and inquisition
Truth is raped and crucified
By men with savage brains
And greed flows forth in endless waves
From fools to wretched slaves

Coma das almas (tradução)

Mestres da guerra
Comerciantes da falsa paz
O Sangrar das vidas perdidas
Alimentando-lhes a doença terminal
Quebrando as regras
Não importa quem fica ferido
Vendendo por atacado o lixo inútil
Carregar duas vezes o que vale a pena

Liberdade do pensamento - uma miragem
O coma é profundo e infinito
Sentimento tão mundano e sábio
Enganado pelos amigos que nós mantemos

Espíritos congelados
Nunca estarão livres
Vidas Unidimensionais
O coma das almas vai durar pela eternidade?

As crianças são penhores
Para os generais a jogar e matar
Piedade nunca será encontrada
Onde mutilação é feita por prazer
Cruzadas justas
Matar para honrar um deus?
Ninguém está salvo
Cadáveres murcham e apodrecem

Nos confins da mente inconsciente
Repousa a sabedoria ancestral
Enterrada por séculos
De guerra e da inquisição
A verdade é violada e crucificada
Por homens de cérebros selvagens
E a ganância flui adiante em ondas infinitas
Dos tolos aos escravos desprezíveis

Análise:

Como já caracterizado anteriormente, o KREATOR (nessa fase da carreira) se notabiliza por ser uma banda bem direta, que fala de maneira clara, objetiva e crítica junto à sua audiência. Em “Coma of Souls” não poderia ser diferente, quando logo na primeira estrofe Petrozza vocifera as primeiras linhas “Masters of war / Merchants of false peace” numa referência clara ao que aconteceu nos países do antigo bloco socialista, e em especial na URSS, quando os arsenais de guerra são vendidos sem nenhum controle por grandes comerciantes de armas, criando um mercado milionário de morte e destruição. Situação gravemente sentida com o fim da Alemanha Oriental em 1989, onde os soldados soviéticos estavam em situação de extrema penúria, e venderam tudo o que tinham nos acampamentos para guerrilheiros e terroristas dos mais variados lugares (MONIZ BANDEIRA, 2009, p. 200). Essa crítica fica ainda mais cristalina na continuação do verso "Breaking the rules /No matter who gets hurt /Wholesaling useless trash /Charging twice what it's worth”

No trecho "Freedom of thought a mirage / The coma is endless and deep" fala-se sobre a maneira dos líderes, que conduzem seus países de maneira autoritária e personalista, não dando chance das pessoas pensarem por si próprias.

O refrão, entretanto, deixa no ouvinte mais perguntas do que respostas “Spirits on ice / They'll never be free / One-dimensional lives / Will the coma of souls outlive eternity”. A crítica ao fundamentalismo está aí, mas não fica claro quem o “eu poético” está criticando, deixando ao ouvinte (e aos pesquisadores) um amplo leque de opções. Podem ser tantos os terroristas islâmicos, quanto os exércitos americanos, quanto a guarda chinesa. As almas congeladas são uma metáfora para dizer que àquilo que as religiões deviam cuidar (as almas humanas) está em coma devido às ideologias e destruição a que elas estão sujeitas no plano material.

O mundo pós Guerra Fria tornou-se muito mais perigoso, inundado de armas (HOBSBAWN, 1995, p. 250-251). Há uma democratização dos meios de aniquilação, uma “privatização” dos mercados de morte, o que leva a situações como as relatadas nos versos “Children are pawns / For generals to play with and kill / Mercy will never be found / Where mayhem is done for the thrill”, uma imagem que amplamente conhecemos dos conflitos de guerrilha pelo mundo, com crianças segurando armamentos pesados, ensinados a odiar desde a tenra idade. Ensinados a matar, apenas porque o outro não segue o seu líder e seus preceitos religiosos/políticos.

No trecho “Righteous crusades / Murder to honor a god?” consolida a mensagem da música, que trata das guerras religiosas, e novamente faz o ouvinte refletir sobre a necessidade de matar em honra de um deus. Esse trecho da canção é muito feliz quando se refere a deus e não a “Deus”, pois se distancia totalmente de qualquer religião, não trazendo qualquer julgamento de valor e sem dizer que esta ou aquela religião está certa.

O último verso da música é cantado de maneira diferente, e é onde o “eu poético” conclui seu raciocínio e alerta sobre a natureza humana que traz para o seio da religião a ideia de matar para doutrinar. Em “Deep in the unconscious mind / Lies the oldest wisdom” fala sobre como o ser humano sabe a resposta, dentro de cada ser, sem depender que profetas digam o que é certo ou errado. Na sequencia "Buried by centuries / Of war and inquisition" temos a primeira referência a alguma religião específica, quando fala sobre a inquisição, dizendo que a consciência humana ficou enterrada pela ideias do dogma católico. “Truth is raped and crucified / By men with savage brains / And greed flows forth in endless waves / From fools to wretched slaves” finaliza reforçando a questão dos mercadores da morte, que criam cartéis, máfias e outras organizações criminosas ao redor do mundo, abastecendo as guerras religiosas que fazem milhões de vítimas por conta dos homens e seus desejos de poder.

Para encorpar essa letra cheia de críticas virulentas e questões inquietantes, o KRATOR criou uma melodia intensa, com andamento muito acelerado, como era a característica mais marcante da banda até aquele período. As guitarras são a “alma” da canção, como começam rasgadas e furiosas, em riffs duplicados, acompanhados pela avalanche sonora despejada pela bateria. A intensidade não deixa dúvidas que a letra trata de um assunto que desperta sentimentos como a raiva e a angustia. Quando há a quebrada no andamento para a entrada da última estrofe, numa cadência que faz o ouvinte prestar mais atenção à letra, com ênfase na pronúncia das palavras. Quando a música volta ao andamento inicial, o vocalista Mille Petrozza berra de maneira desconcertante e alerta “Coma of Souls”.

A pergunta suscitada pela canção ainda permanece sem resposta: O coma das almas sobreviverá eternamente?

Referências bibliográficas

CHRISTIE, Ian. Heavy Metal: a história completa. São Paulo: Editora Arx, 2010.

HOBSBAWN, Eric. Era dos Extremos: O Breve Século XX (1914-1991). São Paulo; Companhia das Letras, 1995.

MONIZ BANDEIRA, Luiz Alberto. A Reunificação da Alemanha: do ideal socialista ao socialismo real. 3ª edição, São Paulo: Editora Unesp; 2009.

NAPOLITANO, Marcos. A História depois do papel. In PINSKY, Carla Bassanezi (org.) Fontes Históricas. 2ª Edição, São Paulo: Contexto, 2010.
______. História e Música: História cultural da música popular. 3ª Ed. Belo Horizonte: Editora Autêntica, 2005.

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Post de 13 de dezembro de 2017


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