Raul Seixas: assumindo a existência como tarefa
Por Vitor Cei Santos
Fonte: Torvelinho
Postado em 28 de junho de 2010
RAUL SEIXAS nasceu na manhã do dia 28 de junho de 1945, na cidade de Salvador, capital da Bahia. Autodeclarado filho do pós-guerra, ele cresceu sob a influência do modo de vida propagado pelo vindouro movimento contracultural. Contra as atitudes beligerantes do sistema, curtição e ações pacíficas. O novo comportamento, que no Brasil foi apelidado de desbunde, era praticado pela turma que escutava rock, lia os poetas beat, fazia filmes em Super-8, não cortava os cabelos e preferia fumar maconha a pegar em armas.
O desbunde, longe de ser uma simples alienação nos anos de chumbo do regime militar, foi uma atitude intempestiva e marginal que transgredia as normas sociais e políticas então vigentes. Na procura de uma nova forma de pensar o mundo, o desbunde tornava-se uma perspectiva capaz de romper com a razão instrumental e o militarismo característicos tanto das direitas quanto das esquerdas.
RAUL SEIXAS, avesso a qualquer tipo de autoridade, valorizou o individualismo, a heterogeneidade e a pluralidade. A ética universal impositiva foi substituída pelo pluralismo normativo, com o decorrente enaltecimento da metamorfose ambulante, isto é, do indivíduo fragmentado, descentrado, disposto a afirmar sua singularidade contra o rigor de todas as opressões.
Na discografia de RAUL SEIXAS os irracionalismos, as antíteses e os antagonismos extremados ocupam o centro da cena. A sua música é um mosaico exemplar da contracultura. Ele mistura, em sua obra, diferentes ritmos e estilos musicais, poesia e música, filosofia e astrologia, ocultismo e religião, crítica social e desbunde, tudo regado ao uso de drogas lícitas e ilícitas. Com essas características, suas músicas muitas vezes são recusadas por intelectuais e ativistas engajados, enquanto nem sempre são compreensíveis para as massas incultas.
Atento às tensões políticas e socioculturais de seu tempo, um esperançoso compositor oferecia ao público a promessa de superação do sofrimento imposto pela sociedade autoritária. Diante das dificuldades de mudar os pressupostos sociais e políticos que geram a barbárie, sua arte assumiu como principal meta a formação de indivíduos autônomos, autocríticos e com vínculos sociais, eliminando, no que têm de fundamental, as condições que geram a alienação e a violência. Todavia, uma proposta política concreta estava ausente.
Não podemos esquecer que RAUL SEIXAS, autodeclarado "mosca na sopa" e "carpinteiro do universo", primava pelo desbunde, proposta estética e política que apresenta a arte como divertimento, gozo, celebração, paixão, sempre à margem dos valores dominantes: caretas, opressores, racionalistas e bélicos. Sua limitada resistência política se dava por essa via.
Para nos salvarmos da opressão, mantendo a fidelidade às utopias não realizadas, o raulseixismo nos ensina que não devemos esperar o messias ou um líder revolucionário, mas sim reparar as injustiças e buscar erguer uma Sociedade Alternativa a partir da união coletiva de vontades individuais.
RAUL SEIXAS exortava insistentemente ao individualismo, instigando seus interlocutores a abraçarem sozinhos os próprios caminhos. Se assim procedia é porque sabia que, enquanto o venerassem, negariam a própria autonomia. Lúcido, ele não se identificava com um sábio, santo, profeta ou redentor do mundo. Ao mesmo tempo, convidava os fãs a questionarem-se a respeito de si mesmos e de suas vidas.
65 anos após o seu nascimento e duas décadas depois de sua morte, a obra de RAUL SEIXAS permanece importante por sua força imaginativa, utópica, por sua expressão e percepção das (im)possibilidades que permeiam a vida contemporânea. A sua vida nos revela a necessidade de assumirmos a existência como tarefa, uma tarefa da liberdade, que consiste na entrega à descoberta de nossas próprias possibilidades de existência. Pelo fato de ser uma construção permanente, um caminho de realização (nascimento e criação) e desrealização (morte e destruição), essa tarefa só é concluída com a morte.
Em 21 de agosto de 1989, dois dias após o lançamento do LP "A Panela do Diabo" e cinco dias depois do maior eclipse lunar do século XX, RAUL SEIXAS faleceu de parada cardiorrespiratória provocada por pancreatite crônica e hipoglicemia. A governanta Dalva Borges foi a primeira a encontrá-lo em seu apartamento na Rua Frei Caneca, em São Paulo. O corpo do compositor foi velado no Palácio das Convenções do Anhembi, na capital paulista, para onde uma multidão convergiu a fim de lhe prestar as últimas homenagens. Os fãs tornaram-se órfãos de utopia.
Hoje, o grande desafio de todos aqueles que, seguindo as idéias de RAUL SEIXAS, sonham e lutam por ideais utópicos que se mostraram inalcançáveis, será a dedicação a novos ideais, à descoberta de novos caminhos, pois sonho que se sonha junto é realidade, já dizia o compositor na canção "Prelúdio", do LP "Gita", de 1974.
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