Marvin Gaye

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Por Fabio Ramos
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A carreira de Marvin Gaye - um dos artistas mais talentosos e visionários já lançados pela máquina de hits da Motown - contribuiu e muito para a evolução da chamada black music. O trabalho do cantor redefiniu o soul como uma forma de expressão criativa e, diga-se de passagem, nem um pouco conformista (o impacto da música era amplamente utilizado como um agente transformador da nossa triste realidade social). Talvez o maior mérito de Gaye tenha sido mesmo a notória guinada que ele deu em sua própria trajetória: cansado dos temas amenos abordados em suas primeiras canções, o cantor ousou contestar questões políticas e pessoais através da música. Querendo ou não, o seu ato de liberdade artística acabou inspirando muitos outros a seguirem o mesmo caminho...

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Marvin Pentz Gay Jr. - que, assim com Sam Cooke, acrescentou a letra "e" ao seu sobrenome depois de adulto - nasceu em 02 de abril de 1939, em Washington (capital dos EUA). O segundo dos três filhos do senhor Marvin Gay - um pastor ordenado pela conservadora seita cristã "Casa de Deus", que agrega elementos do Judaísmo ortodóxo e impunha rigorosas normas de conduta - começou a cantar na igreja com apenas 3 anos de idade. Não demorou muito tempo para o garoto tornar-se solista do coral. Também se dedicando ao piano e a bateria, a música se transformou numa verdadeira válvula de escape de sua apavorante vida familiar. Durante toda a infância, Gaye apanhava do pai quase que diariamente.

Assim que concluiu o 2º grau, o futuro cantor alistou-se na Aeronáutica e logo foi dispensado. Livre do serviço militar, Gaye retornou à Washington e passou a fazer parte de uma porção de "doo wop groups" (conjuntos amadores de rua) chegando, eventualmente, a integrar os Rainbows; que eram a principal atração local. Com a ajuda do mentor Bo Diddley, o grupo gravou um single para o selo Okeh - "Wyatt Earp" - que chamou a atenção do cantor Harvey Fuqua. Em 1958, Fuqua recruta os rapazes para aquela que seria a última formação do seu conjunto: os Moonglows. Após se transferirem para Chicago, os Moonglows gravam uma série de singles para a Chess (incluindo a canção "Mama Loocie", de 1959). Em uma apresentação na cidade de Detroit, a graciosa extensão vocal de Gaye despertou o interesse do gerente de gravadora Berry Gordy Jr., que persuadiu o cantor a assinar um contrato com o selo Motown em 1961.

Em seu primeiro trabalho para a Motown, como baterista nas gravações do grupo iniciante Smokey Robinson and the Miracles, Marvin conhece Anna Gordy (irmã de Berry) e os dois casam-se no final desse mesmo ano. Seus primeiros singles como artista solo não atingem o sucesso esperado e ele só consegue algum destaque na quarta tentativa - a canção "Stubborn Kind of Fellow - que, em 1962, torna-se um hit de pequenas proporções. Com as próximas duas músicas lançadas (as dançantes "Hitch Hike" e "Can I Get a Witness", de 1963), o cantor alcança o Top 30 das paradas; mas somente com a canção "Pride and Joy", também de 1963, que Gaye consegue colocar uma música sua no Top 10 pela primeira vez. O único problema nessa busca de reconhecimento público era que o seu desejo de tornar-se um cantor de exuberantes baladas românticas corria em direção oposta à expectativa de hits da toda poderosa Motown. Os longos anos de relacionamento entre Gaye e a companhia foram marcados por brigas de ambos os lados; já que as insistentes cobranças da gravadora por produto comercial eram incompatíveis com as suas ambições artísticas.

Ao lado de Mary Wells, ele inicia a famosa série de duetos com o lançamento de "Marvin and Mary Together", em 1964. Este seria o seu primeiro álbum a destacar-se nas paradas, emplacando hits como "Once Upon a Time" e "What's the Matter with You, Baby?" Como artista solo, Gaye continuou a desfrutar de um grande sucesso, colocando 3 músicas no Top 10 das paradas - "Ain't That Peculiar", "I'll Be Doggone" e "How Sweet It Is (To Be Loved by You)" - em 1965. No total, o cantor foi responsável por 39 dos 40 singles de sucesso que a Motown conseguiu; muitos dos quais ele mesmo escreveu e arranjou. Com Kim Weston, a segunda de suas parcerias vocais, Gaye lança no ano seguinte o disco "It Takes Two" e se estabelece como um dos principais artistas na era dos duos.

De qualquer modo, os maiores duetos do cantor aconteceram em parceria com Tammi Terrell e canções como "Ain't No Mountain High Enough", "Your Precious Love" (ambas de 1967), "Ain't Nothing Like the Real Thing" e "You're All I Need to Get By" (ambas de 1968) tornaram-se hits instantâneos. O sucesso da dupla foi interrompido abruptamente em 1967, quando Tammi desmaiou nos braços de Gaye durante uma apresentação em Virginia (EUA). Aquela foi a primeira evidência de um tumor cerebral que encerrou a carreira dela e finalmente a matou em 16 de março de 1970. A doença e a eventual perda da colega deixaram Marvin profundamente pertubado. Ao mesmo tempo em que tudo isso acontecia, ele viu a música "I Heard Through the Grapevine" tornar-se o maior hit da sua carreira em 1968.

Na época, Gaye ainda teve que lidar com uma série de problemas pessoais. O casamento com Anna não ia nada bem, mas o que realmente o incomodava era o fato de considerar o seu trabalho completamente irrelevante em relação às transformações sociais que assolavam a América durante o período. Após colocar mais dois hits no Top 10 em 1969 - as canções "Too Busy Thinking About my Baby" e "That's the Way Love Is" -, ele passou a maior parte de 1970 recluso; reaparecendo no ano seguinte com o auto-produzido "What's Going On". As drásticas mudanças no conteúdo e no estilo do álbum alteraram para sempre a história da black music. Incorporando o jazz e a música clássica com um forte elemento percussivo, essa obra-prima de Gaye sustentava as profundas crenças espirituais do cantor; além de abordar questões como a pobreza e a corrupção policial nas músicas. Entre as principais temáticas do disco, também podemos destacar o conflito no Vietnã, que era uma das maiores preocupações de Gaye.

A ambição e a complexidade de "What's Going On" confudiram Berry Gordy, que inicialmente se recusou a lançar o LP (ele acabou cedendo, embora afirmasse que nunca entendeu o conceito total do álbum). O cantor sentiu-se vingado quando a magnífica faixa-título alcançou o 2º lugar nas paradas em 1971 e as duas canções seguintes - "Mercy Mercy Me" e "Inner City Blues (Make Me Wanna Roller)" - também chegaram ao Top 10. O sucesso comercial do disco garantiu que Gaye continuasse a ter todo o controle sobre seu próprio trabalho e isso ajudou a afrouxar as rédeas de outros artistas da Motown (como é o caso de Stevie Wonder, que também assumiu o controle de seu próprio destino). Mudando novamente a direção, Gaye concorda em compor para o filme "Trouble Man" em 1972 e acaba produzindo uma trilha-sonora basicamente instrumental, que mostrava o seu crescente interesse em jazz. A minimalista faixa-título, que tinha um vocal ocasional, foi mais um sucesso nas paradas.

O erotismo implícito em vários momentos de sua carreira atinge o ponto de ebulição em 1973, com o lançamento de "Let's Get it On". O álbum marcou outra mudança significativa na perspectiva lírica do cantor: agora a temática política dava lugar a uma visão profundamente pessoal de sua vida. A faixa-título chegou ao 1º lugar no Top 10 e o disco se tornou um de seus trabalhos mais bem sucedidos. Gaye se une a Diana Ross e os dois gravam em parceria o álbum de duetos "Marvin and Diana" em 1973. Ele começa a pensar em seu próximo disco solo, "I Want You", mas o divórcio com Anna Gordy consome muito do seu tempo em tribunais. Para compensar a ausência dos estúdios, a Motown lança "Live at the London Palladium", que ainda desovou o single "Got to Give it Up (Pt.1)", último hit do cantor à alcançar o número 1 nas paradas. Ele finalmente se separa de Anna em 1977.

Como resultado do acordo judicial, Gaye foi ordenado a pagar pensão alimentícia. O mais estranho nessa história é que o cantor deveria gravar um novo álbum e que todos os royalties das vendas seriam repassados a sua ex-esposa como pagamento da pensão! O disco de 1978, um LP duplo ironicamente intitulado "Here, My Dear", explorou o relacionamento do casal em detalhes tão íntimos que Anna rapidamente pensou em processá-lo por invasão de privacidade. Nesse meio tempo, Gaye se casou novamente e começou a trabalhar em um novo álbum, "Lover Man", mas descartou o projeto quando o single principal "Ego Tripping Out" - que fazia um contraponto entre o seu lado espiritual e sexual, que o biógrafo David Ritz mais tarde chamou de "alma dividida" do cantor - fracassou nas paradas. O casamento com Janis Hunter começa a desmoronar e ele se afunda nas drogas. Tentando afastar-se de seus demônios pessoais, Gaye se muda para o Havaí.

Problemas com o imposto de renda fazem o cantor fugir para a Bélgica em 1981, onde ele inicia os trabalhos do ambicioso "In Our Lifetime". Este disco profundamente filosófico foi o último lançamento de Gaye pela Motown. O cantor reclamou que o selo editou e remixou todo o material sem o seu consentimento; além de parodiar a arte gráfica original e substituir o título do álbum por um ponto de interrogação na capa. Assinando com a Columbia em 1982, ele acabou se viciando em cocaína e ainda colecionou uma série de histórias de mau comportamento na companhia antes de ressurgir triunfante com "Midnight Love", que o trouxe novamente ao Top 10 com a canção "Sexual Healing". O sucesso do novo álbum coloca Gaye nas alturas e, em 1983, ele faz as pazes com Berry Gordy e aparece num especial de TV que celebrava o aniversário da Motown. Nesse mesmo ano, Gaye canta uma versão toda pessoal de "Star-Spangled Banner" no All-Star Game da NBA, que rapidamente se tornou uma das interpretações mais controversas e lendárias do hino nacional americano. Esta também seria a sua última aparição pública.

A dependência da cocaína aumentava a cada dia. Numa tentativa de recuperar o controle de sua vida, o cantor volta aos EUA e instala-se com sua família em Los Angeles. Tragicamente, o retorno ao lar acelerou a depressão que ele sentia. As brigas com seu pai eram constantes e Gaye ameaçou se suicidar uma porção de vezes. Finalmente, na manha do dia 1º de abril de 1984 - um dia antes do seu aniversário de 45 anos - o cantor é baleado e morto pelo Reverendo Marvin Gay, em consequência de uma acalorada discussão. Com a notícia da sua morte, a Motown e a Columbia se juntam e lançam duas coleções de out-takes: "Dream of a Lifetime" (uma compilação com baladas espirituais e músicas eróticas) e o inspirado "Romantically Yours" (uma série de baladas que levaram 12 anos para serem finalizadas e só viram lançamento em 1996). O trabalho de Gaye passou a ser reavaliado após a sua morte e "What's Going On" acabou sendo considerado por muitos críticos como um marco na história da música pop. A indicação de Marvin Gaye ao "Rock and Roll Hall of Fame" só serviu para reafirmar o quanto a obra do cantor continua viva e influente na mente de todos nós.

DISCOGRAFIA:
- The Soulful Moods of Marvin Gaye (1961)
- On Stage (1963)
- That Stubborn Kind of Fellow (1963)
- Tribute to Nat King Cole (1964)
- Hello Broadway (1964)
- Marvin and Mary Together (1964)
- Greatest Hits (1964)
- When I'm Alone I Cry (1964)
- How Sweet It Is (1965)
- It Takes Two (1966)
- Moods of (1966)
- Greatest Hits, vol. 2 (1967)
- United (1967)
- In the Groove (1968)
- You're All I Need to Get By (1968)
- Easy (1969)
- Marvin Gaye & His Girls (1969)
- M.P.G. (1969)
- Marvin Gaye & Tammi Terrell's Greatest Hits (1970)
- That's the Way Love Is (1970)
- What's Going On (1971)
- Trouble Man (1972)
- Let's Get it On (1973)
- Marvin and Diana (1973)
- Anthology (1974)
- Live! (1974)
- I Want You (1976)
- Live at the London Palladium (1977)
- Here, My Dear (1978)
- In Our Lifetime (1981)
- Midnight Love (1982)
- Dream of a Lifetime (1984)
- Romantically Yours (1996)
- The Very Best of Marvin Gaye (2001)

* adaptado do texto original em inglês no site VH1.com

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