Guns N' Roses: O confuso e bem-humorado show em Curitiba em 2014

Resenha - Guns N' Roses (Estádio Vila Capanema, Curitiba, 30/03/2014)

Compartilhar no FacebookCompartilhar no TwitterCompartilhar no G+Compartilhar no WhatsApp

Por Roberto Oliveira
Enviar correções  |  Comentários  | 

O texto representa opinião do autor, não do Whiplash.Net ou dos editores.

Imprevisível, essa palavra poderia facilmente traduzir a personalidade de Mr. AXL ROSE, com sua vida repleta de excessos. Mas ela também se aplica aos horários em que costumavam começar as apresentações da banda que lidera. Quase duas horas, essa era a média de “tempo extra de espera” para o início de um show do GUNS N’ ROSES. Foi assim em São Paulo no dia 28/03/2014, e no Rio no dia 20/03, como já havia ocorrido na 3ª e 4ª edições do Rock In Rio, em 2001 e 2011. Já em Belo Horizonte, no dia 22/03, o atraso foi de “apenas” meia hora. Muitos curitibanos, portanto, já estavam apreensivos quanto ao “pós-show”, que poderia invadir a segunda-feira madrugada adentro. E não é que aqui eles foram pontuais? A exemplo do que também aconteceu em Brasília no último dia 25/03, o 5º show brasileiro da “South America Tour 2014” começou em Curitiba apenas dez minutos depois do horário, em um raríssimo episódio (até então) de pontualidade da banda. Essa foi a primeira vez que o GUNS N’ ROSES se apresentou na capital paranaense.

Rock e Metal: Doze ótimos álbuns para iniciantesClaudia Ohana: "Desculpa, mas eu arrasei" diz, sobre cover do Nirvana no Jô

Domingo, 30 de Março, o Estádio Durival Britto e Silva, também conhecido como Vila Capanema, estava cheio, mas não lotado. Após o show de abertura da banda curitibana MOTOROCKER, o público presente, cerca de 15 mil pessoas, pôde apreciar a performance de uma das maiores bandas de Hard Rock de todos os tempos, ainda que duas décadas depois do auge da fama e sem nenhum integrante da sua formação original, exceto o vocalista e líder, é claro. Por volta das 21h10, portanto, as luzes se apagam, e quando voltam a se acender, a banda já está a postos entoando os acordes de “Chinese Democracy”, a primeira da noite. Logo AXL ROSE surge em cena com o habitual figurino adotado nos últimos anos: jeans surrado, jaqueta, chapéu, longo bigode e óculos escuros, como se quisesse se esconder da sua própria persona, adquirida no decorrer dos anos, a do inquieto rockstar que outrora corria o tempo todo, ensandecido, de um lado para o outro do palco. Ele também parece economizar na voz que, não poucas vezes, fica quase encoberta pelo som da banda. Ainda no calor do início do show, uma sequência alucinante de três canções: “Welcome To The Jungle”, “It´s So Easy” e “Mr. Brownstone”, todas do primeiro álbum, “Appetite For Destruction”, de 1987. Mas o frenesi do público não condiz com a atitude indolente do frontman neste início de show, que se movimenta com uma certa indiferença, como alguém que estivesse apenas cumprindo com sua obrigação, sem esboçar qualquer sinal de empolgação. Ao contrário, sua expressão é de cansaço, e até de dormência. Ele parece estar pensando: “o que eu estou fazendo aqui em cima desse palco?” A sensação de alienação continuou na (tentativa de) execução de “Estranged”, seguramente o momento mais estranho da noite. AXL interrompe a canção ainda em seu início. “Stop!”, ele diz duas ou três vezes. Em seguida, a banda tenta novamente, sem êxito. O público fica perplexo, em silêncio. O que aconteceu? Teria AXL esquecido da letra? Ou alguma falta de sincronia da banda o teria incomodado? Não dá para saber ao certo. "I was confused... So, let´s play the diferent song" (“Eu estou confuso... Então, vamos tocar uma canção diferente”), com essas palavras, o desorientado vocalista deu a sentença para a banda “pular de faixa”, seguindo para “Rocket Queen”. Três canções depois, e lá vão eles tentar de novo. Desta vez, tudo dá certo e “Estranged”, ao final de seus dez minutos de execução, é mais aplaudida do que seria normalmente.

Os clássicos da banda vão se sucedendo, entre uma ou outra música do controverso álbum de 2008 e, aos poucos, AXL vai se empolgando, resgatando seus habituais trejeitos e seu carisma, sem deixar, contudo, de entrar, a todo momento, no camarim ao lado do palco. Mr. ROSE não desperdiça uma única oportunidade sequer de sair de cena, seja no intervalo entre uma canção e outra, seja nos instrumentais das próprias canções, mesmo que durem apenas poucos segundos. A necessidade constante do vocalista de se “recarregar” é, sem dúvida, o motivo de tantos números solo dos demais membros da banda. O baixista, os três guitarristas, e o tecladista DIZZY REED (único membro mais antigo, que entrou na banda no início dos anos 1990 e saboreou, portanto, os tempos áureos do GUNS), cada um faz o seu número enquanto o vocalista, então com seus 52 anos, descansa, recupera o fôlego e troca de jaqueta. Esses números quebram o ritmo do show, mas os fãs não se importam com isso, afinal, são todos músicos virtuosos. O público também sabe que, logo depois de uma performance solo, pode vir “aquela canção”. E todas elas vieram, “Sweet Child O´Mine”, “Don´t Cry”, “Civil War”, entoadas por um AXL ROSE a essa altura plenamente revigorado, já sem óculos, e por alguns momentos até sem chapéu e com a tradicionalíssima bandana amarrada na cabeça. Mas não é a vestimenta que faz um astro do Rock, e sim suas atitudes. E o astro que todos queriam ver finalmente estava ali, Mr. ROSE entrou no clima, com uma segurança demonstrada também pela potência da voz, que passou a utilizar com mais ousadia, com seu inconfundível timbre agudo e ardido, que conseguiu alcançar as notas mais altas sem desafinar, mostrando que seus talentos vocais não estão tão limitados como dizem por aí. Empolgado, ele arriscou até umas corridinhas pelo palco, deixando transparecer um inesperado, e até surpreendente, bom humor.

Na pausa para o ato final de “November Rain”, quando as luzes se apagam, AXL, ao piano, toca por alguns segundos algo quase infantil, que decididamente NÃO faz paz parte da canção. Quando ele realmente começa a tocar o trecho certo, e os holofotes se acendem, o que se vê no rosto do roqueiro é um sorriso malandro de alguém que acabara de pregar uma peça na plateia. Quando o épico de dez minutos chega ao fim, AXL ainda reproduz nas teclas do piano as notas finais de “Layla”, de ERIC CLAPTON, em outro momento de descontração. “It´s funny”, ele diz, deixando escapar uma risada quase macabra, compartilhada pelo público. A chuvinha fina que caiu durante quase todo o show foi suficiente para um pequeno acúmulo de água no palco, o bastante para que um roadie entrasse em ação, de posse de um rodo. Seria algo normal, não fosse por mais uma intervenção bem-humorada de AXL que, após tomar gentilmente o rodo das mãos do roadie, fez ele mesmo o serviço, sob os aplausos da comunidade roqueira. Algumas músicas depois ele repetiu o ato, desta vez simulando uma valsa. AXL ROSE literalmente passou o rodo em Curitiba!

Ao final de quase três horas de espetáculo, o público, que já tinha ido ao delírio tantas vezes nessa nostálgica noite, se esbaldou ao som da apoteótica “Paradise City”, que fechou a apresentação acompanhada de efeitos pirotécnicos no palco e uma chuva de papel vermelho picado, que remete às rosas que ajudam a compor o nome da banda. AXL ainda jogou algo para a plateia, escancarando uma satisfação plena por estar ali. Ele pode ter um temperamento difícil e um gênio forte, pode não ter dito sequer uma única palavra em português durante o show inteiro, e talvez nem soubesse o nome da cidade em que estava tocando. Mas, a seu modo, AXL ROSE, um dos astros mais controversos e polêmicos de toda a história do Rock, surpreendeu o público curitibano com uma apresentação incomum, em que começou confuso, e terminou bem-humorado.

Há um certo exagero, e talvez até uma implicância por parte da imprensa no que diz respeito ao vocalista da banda de Rock que, no auge da fama, vendeu mais de 100 milhões de cópias no mundo inteiro. AXL ROSE pode não ser mais o mesmo, mas também não está tão decadente assim. "Thank You! I would like to see you again!” Nós é que agradecemos. Os fãs também vão gostar de ver GUNS N’ ROSES novamente!

Confira o setlist do show:

Chinese Democracy
Welcome To The Jungle
It´s So Easy
Mr. Brownstone
Better
Estranged (interrompida)
Rocket Queen
Nice Boys (cover do Rose Tattoo)
Estranged
solo do guitarrista Richard Fortus
Live And Let Die
This I Love
solo do baixista Tommy Stinson: "Holidays In The Sun" (cover dos Sex Pistols)
solo do tecladista Dizzy Reed
Catcher In The Rye
You Could Be Mine
solo do guitarrista Dj Ashba
Sweet Child O´ Mine
instrumental
November Rain
solo do guitarrista Ron ´Bumblefoot´ Thal: "Abnormal"
Don´t Cry
Civil War
Knockin´ On Heaven´s Door
instrumental
Nightrain
instrumental
Patience
The Seeker (Cover do The Who)
instrumental
Paradise City

Comente: Axl Rose é imprevisível?

Quer ficar atualizado? Siga no Facebook, Twitter, G+, Newsletter, etc

GosteiNão gostei

Compartilhar no FacebookCompartilhar no TwitterCompartilhar no G+Compartilhar no WhatsApp

Rock e Metal
Doze ótimos álbuns para iniciantes

Comedy Central: Halford, Sambora, Bach e outros em sérieTodas as matérias e notícias sobre "Guns N' Roses"

Paul Di'Anno
Nota 7,5 para Bruce e nota zero para Axl Rose

Rockstars
Veja algumas fotos antes da fama - parte 1

Axl e Slash
Quando quase foram acusados de abusar de menor

Os comentários são postados usando scripts e logins do FACEBOOK, não estão hospedados no Whiplash.Net, não refletem a opinião dos editores do site, não são previamente moderados, e são de autoria e responsabilidade dos usuários que os assinam. Caso considere justo que qualquer comentário seja apagado, entre em contato.

Respeite usuários e colaboradores, não seja chato, não seja agressivo, não provoque e não responda provocações; Prefira enviar correções pelo link de envio de correções. Trolls e chatos que quebram estas regras podem ser banidos. Denuncie e ajude a manter este espaço limpo.

Todas as matérias da seção Resenhas de ShowsTodas as matérias sobre "Guns N' Roses"

Claudia Ohana
"Desculpa, mas eu arrasei" diz, sobre cover do Nirvana no Jô

Dimebag
Relato e fotos inéditas do último Natal dele

Fotos de Infância
Gene Simmons, do Kiss, muito antes da fama

Dave Mustaine: 10 coisas que você não sabia sobre eleMortes: as mais estranhas do mundo do RockMamonas Assassinas: músicos já sabiam que iam morrer?Carcass: frontman defende Babymetal das críticas dos puristasMetallica e Lady Gaga: Para quebrar a República da Geração MimimiTarja Turunen: vídeo da cantora no The Voice Finlandês

Sobre Roberto Oliveira

Autor sem foto e/ou descrição cadastrados. Caso seja o autor e tenha dez ou mais matérias publicadas no Whiplash.Net, entre em contato enviando sua descrição e link de uma foto.

Link que não funciona para email (ignore)

Whiplash.Net é um site colaborativo. Todo o conteúdo é de responsabilidade de colaboradores voluntários citados em cada matéria, e não representam a opinião dos editores ou responsáveis pela manutenção do site, mas apenas dos autores e colaboradores citados. Em caso de quebra de copyright ou por qualquer motivo que julgue conveniente denuncie material impróprio e este será removido. Conheça a nossa Política de Privacidade.

Em agosto: 1.237.477 visitantes, 2.825.604 visitas, 7.034.755 pageviews.

Usuários online