Em 08/04/2009 | Resenha - Kiss (Apoteose, Rio de Janeiro, 08/04/09)

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Resenha - Kiss (Apoteose, Rio de Janeiro, 08/04/09)


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São 35 anos completos de carreira, quase que ininterruptamente marcados por incessantes críticas tanto de uma parte da mídia especializada (ou não), quanto de uma parcela do público consumidor de música que não os aprecia em especial. Sem dar a menor bola para tudo isso, o Kiss vendeu milhões de discos e já tocou para milhões de pessoas, e passou pelo Brasil agora como parte de sua turnê “Kiss Alive 35”. Se em São Paulo eles já haviam tocado não somente na primeira visita ao Brasil em 1983, mas também em 1994 (no Monsters of Rock, com Black Sabbath e Slayer) e em 1999 (com a formação original reunida, efeitos 3D e o escambau), no Rio de Janeiro já fazia 23 anos que não se apresentavam.

O texto representa a opinião do autor, não do Whiplash.Net ou de seus editores.

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Fotos: Christy Barley e Luiz Fernando Müller

O público talvez não fizesse jus às expectativas em termos de quantidade (muitos faltaram em virtude dos altos preços dos ingressos, ou por conta de ser véspera de um “feriadão”), mas de qualquer forma 17.000 pessoas compareceram à Apoteose nessa quarta-feira de bonita lua cheia. Havia previsão de chuva, mas como isso não quer dizer absolutamente nada no Rio (a meteorologia erra uns 90% das previsões), tampouco parecia ser um problema a princípio. De uma forma ou de outra, as arquibancadas não foram abertas e portanto o público se aglomerou na pista, proporcionando um bonito visual.

Após a breve abertura realizada pela banda Libra, anunciada apenas no dia e presenciada somente por quem chegou cedo ao local, aos poucos a pista foi sendo tomada. O palco prenunciava um grande espetáculo, com a enorme estrutura incluindo 4 telões (2 atrás do palco, e 2 juntos aos PA’s), e armações de palco que simulavam paredes de alto-falantes, sobre as quais vários disparadores de fogos de artifício e acionadores de labaredas estavam posicionados. No seu meio, a bateria armada sobre um sistema elevatório, acima da qual ficava o lendário logotipo luminoso da banda, marca registrada desde os anos 70.

As luzes se apagaram na hora prevista, com os PA’s tocando “Won’t Get Fooled Again”, do The Who, tema escolhido pela produção, e não pinçado aleatoriamente. Ao final da música, a célebre frase “You wanted the best, you’ve got the best, the hottest band in the world: Kiss!”. A imensa cortina preta que cobria a frente do palco, com o logotipo prateado do grupo, subitamente despencou e foi retirada pelos roadies, ao mesmo tempo em que a banda atacava com os acordes iniciais de “Deuce”. Para quem ainda não sabe, a formação atual do grupo inclui os membros fundadores, líderes, vocalistas e compositores principais, Gene Simmons (baixo) e Paul Stanley (guitarra base), mais Tommy Thayer na guitarra solo e Eric Singer na bateria, ostentando as maquiagens e funções que original e respectivamente pertenciam a Ace Frehley e Peter Criss.

É curioso, e enormemente injusto, como o Kiss é uma banda taxada de mercenária, limitada, infantil, com tudo planejado e programado, etc. Gene e Paul sempre deixaram bem claro que fazem um rock básico e direto, e dentro deste espírito suas músicas são impecáveis, de extremos talento e criatividade. Seu propósito é, claramente, o de satisfazer seus fãs com um grande show, superprofissional, que envolve não somente música boa mas também muitos efeitos visuais e pirotecnias. Também, nunca negaram seu apreço pelo vil metal. Ao Iron Maiden é dado o privilégio de fazer o mesmo eternamente, sem problemas para os críticos de plantão, pode ter um mascote andando pelo palco, cenários egípcios, margem zero para improvisos, etc. O Black Sabbath pode colocar uma réplica do Stonehenge ou de uma igreja no palco, e ter anões circulando ao seu redor. Mas o Kiss não pode fazer nada, que já é injustamente jogado a um segundo escalão, “não é uma banda séria”. Talvez o uso de maquiagens e roupas cintilantes contribua para não serem levados a sério, mas a verdade é que é tudo uma grande hipocrisia: trata-se de um show com boa música, como qualquer outro de grande sucesso dentro do hard rock. Diversão paga, de comum acordo entre as partes envolvidas, tão somente.

Voltando ao aspecto meramente musical, o que se pôde assistir na Apoteose foi uma verdadeira celebração da melhor fase do Kiss, ou algo próximo disso. A primeira parte do show consistiu na reprodução quase completa do clássico álbum duplo ao vivo “Kiss Alive!”, carinhosamente conhecido pelos fãs como “Alive I”. Ficaram de fora apenas “Firehouse” e “Rock Bottom”, todo o resto foi tocado, praticamente na mesma ordem do disco original. Para quem duvidava, Gene Simmons e Paul Stanley se mostraram em ótima forma, em especial considerando-se que ambos aproximam-se dos 60 anos de idade. Claro que os agudos já não são mais os de outrora, mas isso é uma velha discussão que não cabe aqui (sempre haverá os “torcedores” que acham que, por exemplo, vocalistas como Dio, Glenn Hughes e David Coverdale nunca perderam a voz, por mais que os registros ao vivo comprovem o contrário). O que realmente importa é que ambos levaram bem tanto os vocais quanto mostraram desenvoltura em seus instrumentos, mesmo não sendo sabidamente virtuoses, longe disso. Tommy Thayer reproduziu com firmeza, de forma quase idêntica, os solos e poses de Ace Frehley, mesmo sem ter o carisma deste. Eric Singer idem, tirou de letra as partes de bateria, e cantou bem em “Nothin’ To Lose” e “Black Diamond”, entretanto sem chegar aos pés dos vocais originais de Peter Criss, um vocalista muito mais capaz e original. O vestuário de todos reproduzia fielmente os da turnê do disco “Dressed To Kill”, de 1975.

A plateia, em grande parte formada por pessoas que nunca tinham tido a oportunidade de ver o Kiss ao vivo, parecia não acreditar que seus ídolos estavam ali presentes. De fato, às vezes é difícil de se acreditar que aquele seja o mesmo Gene Simmons que participa dos programas de TV com uma aparência circunspecta e auto-indulgente. O público cantou junto da banda as letras, desde a abertura com “Deuce” e “Strutter”, que logo de cara conquistaram a galera com suas levadas empolgantes, e bons solos de Thayer. Até mesmo as coreografias de Paul, Gene e Tommy (fazendo logicamente as vezes de Ace) retratavam fielmente as dos anos 70. Algo um pouco anacrônico para os dias de hoje, mas de forma alguma deslocado, dadas as características do concerto, de celebração dos 35 anos do grupo.

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“Got To Choose” e “Hotter Than Hell” se seguiram, e ao final desta Gene saiu do palco e retornou com uma espada flamejante e fez seu famoso número de cuspidor de fogo, originalmente parte da apresentação de “Firehouse” (mas esta ficou fora do repertório atual, conforme mencionado acima). “Nothin’ To Lose” apresentou os vocais alternados de Simmons e Eric Singer, o que sempre cria um efeito de frenesi no público, sem contarmos com o fato de ser uma música de levada bastante contagiante. O mesmo pode ser dito da que a sucedeu, “C’mon And Love Me”, cantada por Paul. “She’s a dancer, a romancer, I’m a Capricorn and she’s a Cancer”, os versos simples e pegajosos eram cantados a altos brados pelo público, quase sobrepujando a voz de Stanley. Vale aqui um parêntese: o som na Apoteose estava simplesmente perfeito, suficientemente alto para um show de rock, mas sem exageros; claro e com todas as frequências bem audíveis, destacando-se um “gravão” que batia no peito dos presentes com força. Parabéns à produção pelo capricho.

As coisas pesaram com a rápida “Parasite” e a lenta e arrastada “She”, que incluiu ao seu final o solo de guitarra, onde mais uma vez Tommy Thayer personificou quase à perfeição Ace Frehley, quase que como se ele fosse somente um personagem e não um guitarrista de verdade. Inserções de Beethoven, “raios” disparados para todos os lados, funcionou tudo a contento. Pouco antes, porém, uma chuva começou a massacrar a Apoteose, e parte do público se refugiou embaixo das arquibancadas (frescura, pois como diz o ditado popular, “quem está na chuva, é para se molhar”). De qualquer maneira, a maior parte da plateia permaneceu em seus lugares, aclamou a chegada do temporal com bom humor, e começou a sacudir freneticamente para espantar a água que naquele momento caía inclemente. “Watchin’ You” veio a seguir, mais uma cantada por Gene, dentro do melhor espírito de resgate do clima anos 70. Simmons introduziu então no baixo “100,000 Years”, uma das melhores músicas do Kiss dessa fase inicial. A versão, de cerca de 15 minutos de duração, incluiu solo de bateria de Singer, que levitou envolta por uma cortina de fumaça, e uma longa interação de Paul com a plateia, sucedida por um duelo de voz e guitarra conduzido por Paul e Tommy.

No segmento final desta primeira parte do show, atacaram com “Let Me Go, Rock’n’Roll”, mais um rockão contagiante que por muitos anos ficou de fora do setlist, até por ter muito mais a ver com o Kiss hard rock original do que com o Kiss mais heavy metal, dos anos 80 e início dos 90. Todos os solos de guitarra, no melhor “boogie style” à la Foghat e afins, foram tocados com perfeição por Thayer. Até mesmo a base improvisada por Ace na gravação ao vivo original entrou neste arranjo, com Paul seguindo seus passos. Sutiãs arremessados no palco para deleite de Paul, que tocou segurando um deles com a mão direita. “Black Diamond” incluiu a longa introdução na guitarra de Stanley, que procedeu com as habituais brincadeiras de inserir “Stairway To Heaven” (do Led Zeppelin), trocou de guitarra (estava desafinada), antes de emendar na música do Kiss em si, com vocais principais cantados por Eric. Seu final apoteótico é a própria celebração do que o rock puro e simples tem de melhor: uma base pesada em andamento “mid-tempo”, com Tommy Thayer solando ajoelhado no chão, Gene e Paul em movimento pendular, seguidos por viradas de bateria que antecedem explosões e fogo. Por fim, a indefectível “Rock And Roll All Nite” dá, de forma objetiva, o recado do Kiss. Seu show é uma festa e deve ser curtido como tal, sem excesso de elucubrações e análises musicais. Uma chuva de papel picado cai nessa hora sobre o palco e o público mais próximo, anunciando o fim dessa primeira parte. O final, catártico, incluiu a esperada quebra da guitarra por Paul.

Após um rápido descanso, o retorno se deu com mais uma série de hits, relativos aos anos posteriores aos 3 primeiros discos, que caracterizaram a primeira parte do show. “Shout It Out Loud”, com vocais alternados de Paul e Gene, antecedeu duas músicas que fizeram muito sucesso no Brasil no início dos anos 80 (na época da primeira visita da banda ao país). A primeira foi “Lick It Up”, única do show oriunda da fase desmascarada, que incluiu um bem colocado fragmento de “Won’t Get Fooled Again” do The Who (sim, de novo!). Talvez “Lick It Up” soe um pouco deslocada no meio de um repertório e uma imagem “vintage”, mas de qualquer forma fez sucesso entre o público mais novo, que a conhecia de cor e salteado. Gene aproveitou para ressuscitar seu baixo em formato de machado, bem característico em shows daquela época. Seu solo não incluiu o tradicional voo, provavelmente por conta da pesada chuva que fustigou os presentes, embora já tivesse passado a essa altura do campeonato. O medo de um potencial “estabaco” quando atingisse a plataforma elevada deve ter sido decisivo. De qualquer forma, Gene cuspiu sangue (outro truque manjado, porém infalível) e o recado foi dado. “I Love It Loud” manteve o pique nas alturas, com seu refrão sem letra cantado, como sempre, em uníssono pela audiência.

“I Was Made For Lovin’ You” é sempre contagiante, sendo sua versão ao vivo infinitamente superior à original de estúdio, cujo arranjo era mais “dançante” (em virtude da época em que foi gravada, da chamada “disco music”). Durante sua execução, os responsáveis pela produção aproveitaram para testar a tirolesa que levaria Paul Stanley a “sobrevoar” o público durante a música programada para ser tocada em seguida, “Love Gun”. Provavelmente também devido à forte chuva que caiu antes, e pelo fato de vários pedaços de papel picado terem grudado no cabo de aço ligando o palco à plataforma no meio do público, o que ocorreu é que não somente o “voo" foi cancelado, como também a música, isso de forma aparentemente inexplicável. Uma pena, pois trata-se de outra das grandes músicas da banda. Emendaram portanto em “Detroit Rock City”, grande clássico do disco “Destroyer”, um fecho de ouro para uma noite impecável. A festa se encerrou com uma série de grandes explosões de fogos de artifício, lançados por trás do palco, enquanto a banda se despedia do público, a essa altura extasiado e plenamente satisfeito.

É difícil de imaginar que alguém tenha deixado a Apoteose não satisfeito com o espetáculo proporcionado pelo Kiss, tanto musical quanto visualmente. Talvez retornem daqui a algum tempo para promover o novo disco de estúdio que está sendo gravado no momento, mas o mais provável é que essa tenha sido a última visita deles ao Brasil. Quem viver, verá...

Setlist:

- Deuce
- Strutter
- Got To Choose
- Hotter Than Hell
- Nothin' To Lose
- C'mon And Love Me
- Parasite
- She (incl. Tommy Thayer guitar solo)
- Watchin' You
- 100,000 Years (incl. Eric Singer drums solo)
- Cold Gin
- Let Me Go, Rock'n'Roll
- Black Diamond
- Rock And Roll All Nite

Bis:

- Shout It Out Loud
- Lick It Up
- I Love It Loud
- I Was Made For Lovin' You
- Detroit Rock City

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Sobre Rodrigo Werneck

Carioca nascido em 1969, engenheiro por formação e empresário do ramo musical por opção, sendo sócio da D’Alegria Custom Made (www.dalegria.com). Foi co-editor da extinta revista Musical Box e atualmente é co-editor do site Just About Music (JAM), além de colaborar eventualmente com as revistas Rock Brigade e Poeira Zine (Brasil), Times! (Alemanha) e InRock (Rússia), além dos sites Whiplash! e Rock Progressivo Brasil (RPB). Webmaster dos sites oficiais do Uriah Heep e Ken Hensley, o que lhe garante um bocado de trabalho sem remuneração, mais a possibilidade de receber alguns CDs por mês e a certeza de receber toneladas de e-mails por dia.

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