Passaram-se 3 anos desde que o Cannibal Corpse veio pela primeira vez em Minas Gerais. À época, Jack Owen, guitarrista e membro fundador, tinha acabado de, inesperadamente, deixar o grupo. Assim, o convocado Jeremy Turner veio e conseguiu dar conta do recado. Depois, para ficar tudo em família, Rob Barret, que passou pelo Cannibal de 93 a 97, após uma temporada no Malevolent Creation, foi chamado para assumir novamente o posto.
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Digo isto porque dá pra notar, literalmente, ali, no palco, que o grupo tem um tom familiar. Algo além de “entrosamento” e coesão nas peças executadas. Antes, exalam uma paixão ardorosa pelo death metal, mostrando-se satisfeitíssimos por estarem vivendo desse tipo de música e em contato com seu público. E que suporte eles possuem! É notório que Belo Horizonte, até por motivos históricos, é um dos locais mais propícios para a cena extrema. Mas não deixa de impressionar a massiva presença no Lapa Multishow. Creio que, se todos os ingressos não foram vendidos, algo muito próximo aconteceu.
Bom, também, para as bandas de abertura. A metade do set que pude acompanhar do Nervochaos não chegou a surpreender, mas mostraram um grindcore eficiente e correto, com boas pitadas de death. Já o Sextrash, praticamente tão – ou mais antigo – que o próprio Cannibal Corpse, tradicionalíssimo na cena e merecedor de muito respeito por tudo que realizou, fez um opening-act curto e de extrema competência, mesclando faixas dos clássicos "Sexual Carnage" e "Funeral Serenade" com o - ótimo - e mais recente "Rape From Hell", sem dúvida agradando a todos.
Após um longo período de ajustes e aos ansiosos gritos de "Cannibal! Cannibal!", os estadunidenses sobem ao palco com a dantesca "Unleashing The Bloodthirsty". Era a deixa para que a pancadaria não ficasse solta, mas fosse guiada pelos cinco monstros ali presentes. Barret e sua cabeleira desgrenhada oferecia bases precisas, já Pat O'Brien, na maior parte do tempo quieto e sem interagir muito, é, no entanto, o ponto nevrálgico - e o termo aqui mostra-se absurdamente perfeito por uma série de motivos - da devastação sonora aparentemente caótica mas que na verdade revela peças de construção e desenvolvimento intrincado, recheadas de recursos técnicos e de uma rapidez e intensidade que apavoram. É louvável o quanto conseguem deixar tudo redondo, azeitado, inquestionavelmente bem tocado e com um poder de destruição difícil de se ver.
Isto, claro, deve-se principalmente à inominável cozinha de Alex Webster e Paul Mazurkiewicz: não por acaso os únicos remanescentes da formação original e donos de punch e técnica absurdas. Se o primeiro é um cavalo no auge da forma mas com nítido rumo do que faz - a tarefa de acompanhar seus dedos bem de perto é de embasbacar, o que dizer do segundo? Paul é rápido e brutal, óbvio, mas não é um mero atleta. Dentro das fronteiras naturais que a música da banda impõe, donde não querem nem devem fugir, o descendente de poloneses (país que têm revelado bons grupos extremos) mostra uma considerável variedade de recursos e uma inteligência acima do comum: explora o kit com amplitude e equilíbrio, dando uma força excepcional à composições como "Staring Through The Eyes Of Dead".
"I Cum Blood", "Put Them To Death" e "Vomit The Soul", trinca que beira à covardia, vieram na sequência e inundaram a casa com a sensação de se estar vendo algo no mínimo histórico. George "Corpsegrinder" Fisher, ao que parece, já desenvolveu uma mutação celular na região do pescoço, dada à facilidade em guiar a multidão em violentíssimas hélices. Sem muita conversa, o vocalista destrói num gutural impecável e em tons rasgados muito bem vindos. Entre uma música e outra, apenas uma pequena pausa para descanso e pôr as coisas no lugar. Com tantos clássicos no repertório, realmente sobra pouco tempo para papo. As novas, "Make Them Suffer" e "Five Nails Through The Neck", foram muito bem recebidas, assim como o material do anterior, "Wretched Spawn".
"Pit Of Zombies" incinerou a casa, e o encerramento, com "Devoured By Vermin", "Hammer Smashed Face" e "Stripped, Raped And Strangled" foi urrado com devoção por todos os presentes, em três músicas explosivas de brutalidade sem igual que representam a essência do Cannibal Corpse. Webster, ainda, foi o mais simpático, descendo no fosso e cumprimentando aos fãs que estavam na grade. Como sempre, em bandas desta bagagem, dá pra chiar a ausência de algumas composições. É normal. Mas ninguém pode reclamar do repertório escolhido: a carreira do grupo foi representada em toda sua extensão, com simplesmente músicas de todos os álbuns de estúdio. Ou seja, quem foi, presenciou somente a nata da trajetória de um dos nomes mais importantes da cena extrema, sem deixar nenhuma obra de lado.
Ao final de uma hora e meia de show, duvido que alguém tenha saído insatisfeito. Mesmo com quase 20 anos de carreira e mais de um milhão de discos vendidos - feito notável para o tipo de metal que fazem - o Cannibal é uma banda que transpira união, humildade e ressalta o espírito underground com consciência do seu papel. Corpsegrinder mandou a sua mensagem, simples e direto: "todos aqui, continuem apoiando o death metal". E o fato de ter se apresentado com uma camisa do Nervochaos é apenas um dos sinais deste comprometimento.
Dá gosto ver algo assim. Eles já sabem que sempre serão imensuravelmente bem-vindos a Belo Horizonte. Com a imensa recepção calorosa que tiveram, tem todos os motivos para voltarem e comemorar suas duas décadas de trajetória em solo mineiro. O público merece.
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Maurício G. Angelo odeia definições. Acha que não entende nada de música, mas o suficiente. Pseudo-jornalista, pseudo-crítico e pseudo-escritor. Não gosta de explicar ironia. Escreve no Whiplash! desde 2003. Colaborou para uma série de veículos, como a revista Roadie Crew e os sites Rock Press, Duplipensar e Simplicíssimo. Ouve tudo aquilo que lhe interesse: do blues ao metal extremo, passando pelo pop, progressivo, clássico, jazz, eletrônico e MPB. Peca pelo tesão, nunca pela inércia. Alfabetizado, chato, detalhista e exigente: está continuamente tentando aprender a ler, e tem orgulho disso. Passou bons momentos ao lado de Rubem Braga, George Orwell, Pink Floyd e tantos outros. É apaixonado por palavras, pelo som e pelo silêncio. Erra muito. Muda mais ainda. E se permite ser hiperbólico, às vezes.
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