A cantora que Paul McCartney chamou de "a maior" em um estilo vocal
Por Bruce William
Postado em 10 de junho de 2026
Paul McCartney nunca foi um cantor de uma voz só. Ao longo da carreira, ele alternou registros suaves, gritos rasgados, melodias quase antigas, humor, rock direto, baladas e experimentos de estúdio. Essa variedade ajuda a explicar por que algumas influências dele parecem óbvias, enquanto outras aparecem de forma mais discreta, escondidas em detalhes de fraseado, ritmo e brincadeira vocal.
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Uma dessas influências vem do jazz, mais especificamente do scat singing, técnica em que o cantor improvisa usando sílabas, sons e palavras sem sentido literal. McCartney falou sobre isso ao comentar "Check My Machine", faixa gravada em 1979 e lançada como lado B de "Waterfalls", single de McCartney II, em 1980. O Beatles Bible registra a música como parte daquela fase em que Paul trabalhava sozinho no estúdio, tocando vários instrumentos e experimentando com sons de forma mais livre.
McCartney descreveu esse período como sua fase de "professor maluco", quando gravava sozinho e, às vezes, nem se preocupava tanto com a clareza das palavras. Ele explicou que, em "Check My Machine", sabia que havia bastante eco em sua voz e que não importaria muito o que estava dizendo. A ideia principal era apenas fazer chegar a expressão do título.
Foi nesse contexto que ele citou alguns nomes do jazz que o inspiraram nesse tipo de liberdade vocal. "Há uma grande tradição antiga de scat, e eu sempre gostei de ouvir isso em discos de Fats Waller ou Louis Armstrong. A maior de todos no scat era Ella Fitzgerald. A forma como cantores de scat conseguiam encontrar ritmos em palavras sem sentido era tão inspiradora; dava para perceber que eles estavam se divertindo", disse McCartney, em fala publicada na Far Out.
A escolha de Ella Fitzgerald faz sentido. Ela foi uma das grandes vozes do jazz e ficou famosa não apenas pelo controle técnico, mas também pela capacidade de improvisar com naturalidade. No scat, isso significava transformar sílabas sem significado direto em música, usando ritmo, melodia e resposta ao acompanhamento instrumental. Para alguém como McCartney, sempre atento a melodias e a soluções vocais pouco óbvias, esse tipo de liberdade podia render ideias fora do caminho tradicional de letra e refrão.
Essa influência não quer dizer que McCartney tenha se tornado um cantor de jazz, nem que sua obra dependa diretamente desse estilo. O ponto é mais simples: ele ouviu nesses artistas uma permissão para brincar com o som das palavras. Em vez de tratar a voz apenas como veículo de uma letra clara, o scat mostrava que ela também podia funcionar como instrumento, textura e ritmo.
Esse gosto por vocalizações, frases meio absurdas e sons mais importantes pelo efeito do que pelo sentido aparece em vários momentos de sua carreira. Nos Beatles, Paul já tinha demonstrado apreço por estilos antigos, melodias de music hall e referências anteriores ao rock. Em sua fase solo e com o Wings, esse lado continuou aparecendo, às vezes de maneira mais organizada, às vezes em experimentos mais soltos.
No caso de "Check My Machine", o comentário sobre Ella Fitzgerald ajuda a entender uma parte menos óbvia de McCartney. Ele não estava apenas fazendo barulho de estúdio ou brincando com efeitos. Havia ali um músico que conhecia tradições antigas da música popular e via valor na alegria de cantar sem precisar explicar cada palavra. Para Paul, a maior cantora de scat não era uma curiosidade distante do jazz, mas alguém que mostrava como a voz podia encontrar ritmo até no aparente nonsense.
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