Richard Berry: se uma música pudesse definir o rock de garagem, seria "Louie, Louie"

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Richard Berry: se uma música pudesse definir o rock de garagem, seria "Louie, Louie"


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Se existisse uma música que pudesse definir o rock de garagem, esta canção seria ‘Louie, Louie’. Este que começou como um despretencioso tema de R&B, sem ninguém prever, se tornou um hino do rock’n’roll e quase conseguiu ser votado como canção representante de dois estados, Washington e Oregon. Seu misterioso apelo, em parte causado pela letra incompreensível, levou até o FBI a estudá-la. Através dos anos, ‘Louie, Louie’ se tornaria um dos rocks mais regravados da história. Mas qual é a verdadeira estória por trás desta canção?

Se você verificar em sua coleção de discos, chances há de você ter alguma versão de ‘Louie, Louie’ gravado por alguém. Para se ter uma ideia, em 1984 foram computadas oitocentas gravações diferentes da canção. No entanto, especulava-se que pudesse haver ainda versões que a pesquisa, centralizados nos Estados Unidos e Inglaterra, não tivesse encontrado. Já em 1996, o número total de regravações se mostrava ser acima das mil e seiscentas.

‘Louie, Louie’ foi composta por Richard Berry, nascido em 11 de abril de 1935, no minúsculo vilarejo de Willsbrow, que pertence a Extension, no estado de Louisianna. Com pouco mais de um ano, ele e sua familia se mudaram para a Califórnia, onde cresceu e viveu boa parte de sua vida. Se formou no Segundo Grau na Jefferson High School onde conheceu e fez amizades com Jesse Belvin, Thomas Fox, Beverly Thompson e Cornell Gunter, amigos que lhe ajudariam a montar seu primeiro grupo vocálico, The Flaires. Como The Flaires, a turma gravou para uma série de selos pequenos da região da costa oeste, entre eles Empire Records, Modern Records, e Flip Records.

Richard Berry se destacava pela sua voz grave e por compor um grande número de canções, muitas dadas para outros artistas, algumas ganhando co-autores inexistentes, produtores trocando promoção do disco gravado por participação nos direitos autoriais de compositor. Berry tambem mostrava ser um ótimo pianista, quando era necessário.

Convidado pela Flip Records para lançar material solo, Richard Berry passaria a se especializar em baladas, seu grande ganha pão e, segundo o próprio Berry, bom para ganhar namoradas. Entre suas gravações mais famosas provavelmente está a sua anônima participação como vocalista na versão original de “Riot on Cell Block #9”, gravado pelo The Robins, qrupo que depois se tornaria o conhecido The Coasters. Berry, que não participava da banda, foi chamado para a sessão porque o vocalista do grupo que fazia os graves, não conseguia fazer as partes faladas como Lieber & Stroller tinham visualisado. Outra importante gravação de sua carreira é a parte da voz masculina no clássico de Etta James, “Roll Over Henry.” Embora não creditado, todas as respostas do personagem Henry aos clamores da cantora Etta James foram escritas e faladas por Richard Berry.

Mas com o tempo, Berry começou a querer fazer algo diferente. Foi quando ele ouviu um calipso chamado “El Loca Cha Cha” de Rene Touzet. Segundo conta a lenda, foi durante um descanso entre dois sets que fazia em 1955 com Rick Rillera & the Rhythm Rockers que Richard Berry compôs “Louie, Louie”, escrito em um guardanapo de papel e guardado no bolso. A canção esperou dois anos para ser gravada.

Sua versão não é roqueira, é Rhythm & Blues, porém com um tempero pseudo-calipso. A canção foi gravada para servir como lado B para a balada “You Are My Sunshine.” Lançado como Richard Berry & The Pharaohs pela Flip Records, foi “Louie, Louie” que acabou fazendo o compacto vender, se tornando em 1957, um sucesso moderado na cidade de Los Angeles. Achando que a canção já dera o que tinha que dá, Richard Berry naturalmente vendeu os direitos para o primeiro comprador que ofereceu alguma coisa por ela. No entanto, por forças além da compreensão lógica, a canção não morreu. Ela acabou sendo adotado por bandas no norte e noroeste da costa oeste, especificamente nos estados de Washington e Oregon. Como isto veio a se passar é uma história tão interessante quanto confusa.

Quem gravou “Louie, Louie” primeiro, depois da versão original de Richard Berry & the Pharaohs é uma area de discussão aguerridamente disputada. As bandas The Frantics e Dave Lewis Combo são as que mais contestam a honra de tocar a canção ao vivo em um bar primeiro, antes de alguém regravar a canção. Ron Holden & the Playboys é outro conjunto que se considera os verdadeiros primeiros a tirar a canção do compacto de Richard Berry e apresentá-la em seus gigs.

Segundo consta, foram as apresentações destas bandas, realizadas em bares e pontos de um público adolescente ainda na escola de ensino secundário espalhado pelo estado de Washington, que inspirou duas bandas a gravarem a canção. Little Bill & the Blue Notes alegam que eles são os primeiros a gravar ‘Louie, Louie’. Todavia, por problemas financeiros, só puderam lançá-la depois que uma outra versão já estava circulando. Esta versão é comprovadamente datado como a primeira regravação do modesto hit de Richard Berry. Direto da cidade de Tacoma, do estádo de Washington, surge The Wailers com sua versão de “Louie, Louie” lançado pela não tão pequena Liberty Records. Esta versão é de extrema importância para a história da canção pois, diferente do original, a versão dos Wailers ganhou um arranjo inteiramente roqueiro. O vocalista Rockin’ Robin Roberts esgoela a letra enquanto Rich Dangel cria e executa o solo de guitarra que todos imitariam dali em diante.

Esta versão se torna extremamente popular inicialmente no eixo Seattle - Tacoma, mas aos poucos se espalhando pelo estado de Washington e atingindo o estado vizinho de Oregon. E é aqui que a canção ganharia a sua versão mais popular. Duas bandas de Portland, Oregon gravariam a canção no espaço de uma semana uma da outra, curiosamente no mesmo estúdio, em abril de 1963. São elas Paul Revere & the Raiders, banda que acabaria se tornando bem popular nos Estados Unidos e The Kingsmen, uma banda que até hoje é essencialmente conhecida pela sua versão de “Louie, Louie”. Embora as duas fizeram sucesso, foi a versão do The Kingsmen que faria a canção mundialmente conhecida.

Lançado pela Columbia Records, a versão do Paul Revere & the Raiders populariza a canção rapidamente pela costa oeste americana. A banda iria ter uma boa longevidade com vários hits espalhados em mais de dez anos de atividade. Seu auge sendo possivelmente entre 1963 e 65, quando tinham seu próprio programa de televisão, ‘Where The Action Is’, transmitido costa a costa pela rede ABC-TV.

Já the Kingsmen, essencialmente uma banda de adolescentes despretenciosos, teve alterações na sua versão original quatro meses depois do lançamento de seu compacto. O vocalista Jack Ely deixou o grupo em setembro para começar a faculdade. Quando deu conta do sucesso que aquele pequeno compacto estava fazendo, implorou para ser aceito de volta à banda, proposta recusada. Ely então resolveu montar sua própria banda e excursionar como Jack Ely & the Kingsmen, o que, além de confundir o público, causaria uma disputa judicial que atrapalharia tanto a sua carreira como a do The Kingsmen originais.

Mas continua sendo a versão do The Kingsmen que faria a canção conhecida de costa a costa americano e depois internacionalmente. Por alguma razão, enquanto Califórnia e Washington curtiam a versão do Paul Revere & the Raiders, do outro lado do país, Massachussetts, Connetticutt, New York, Pennsylvania e Maryland ouviam ‘Louie, Louie’ pela primeira vez pela versão do the Kingsmen.

Como alguns dos melhores sucessos de Chuck Berry, “Louie, Louie” passou a ser material básico para se aprender a tocar rock ‘n’ roll, e a fama de canção modelo da típica banda de garagem inicia. Praticamente todo artista do meio rock ‘n’ roll já tocou se não gravou uma versão da canção. E na maioria esmagadora das vezes, a fonte de referência é a versão dos Kingsmen.

Richard Berry em 1965 decide abandonar a carreira, segundo ele mesmo por desgosto com a industria fonográfica e a exploração que ela exerce sobre seus artistas. Sem reconhecimento profissional e tendo colhido pouco ou praticamente nenhum dinheiro pelas suas composições, Berry sai de cena. Mora onde sempre morou, no lado sul de Los Angeles, o lado menos abastado da cidade, em relativo anonimato.

O sucesso e influência de sua despretenciosa composição é tão gigantesca que na década de oitenta um movimento público realizado no estado de Washington promoveu uma votação entre seus cidadãos para deciderem se queriam transformar “Louie, Louie” em música simbolo do estado. A canção não ganhou quorum, mas o estado vizinho de Oregon imediatamente promoveu a mesma enquete, que mesmo perdendo, ilustra bem o quanto esta canção é querida e representativa para a vida dos americanos. É praticamente a trilha sonora representativa da fase final da adolescencia daquela geração do inicio da década de sessenta.

Em 1983, a estação de rádio KFJC, de Los Altos Hills, na Califórnia, promoveu o primeiro encontro de Richard Berry com Jack Elys. Em um evento que duraria 63 horas, a rádio promoveu uma maratona de versões de “Louie, Louie”, que computaram um total de 800 versões indo ao ar ao todo. O evento ajudou a colocar o nome de Richard Berry a circular novamente dentro da indústria. Recebeu uma grande quantidade de convites, reativando sua carreira novamente, e em tempo, conseguiria reaver os direitos autorais pela sua principal composição.

Depois de sofrer sérios problemas de saúde, culminando com uma operação em função de uma aneurisma em dezembro de 1994, Berry diminuiu consideravelmente a quantidade de apresentações. Em fevereiro de 1996, em uma evento promovido pela Doo Wop Society do sul da Califórnia, Richard Berry reencontrou seus ex-companheiros dos Pharaohs pela primeira vez em trinta anos.

Richard Berry acabaria falecendo, enquanto dormia, em Los Angeles, no dia 23 de janeiro de 1997.

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Sobre Márcio Ribeiro

Nascido no ano do rato. Era o inicio dos anos sessenta e quem tirou jovens como ele do eixo samba e bossa nova foi Roberto Carlos. O nosso Elvis levou o rock nacional à televisão abrindo as portas para um estilo musical estrangeiro em um país ufanista, prepotente e que acabaria tomado por um golpe militar. Com oito anos, já era maluco por Monkees, Beatles, Archies e temas de desenhos animados em geral. Hoje evita açúcar no seu rock embora clássicos sempre sejam clássicos.

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