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Não sei se todos percebem que vivemos um tempo veloz. Não necessariamente repleto de importância, mas, desde algum tempo e, é difícil pontuar o momento exato, a velocidade e o ineditismo dos “fatos” (com todas as aspas) tornoram-se estrelas principais da informação. Fato: não importa o que é noticiado, relevante ou não, o que faz diferença é quem disse primeiro, de quem foi o furo.
Um blogueiro de música precisa estar informado para processar essa informação e repassá-la com alguma dose de personalidade. Se não, é um simples replicador de dezenas de notícias diárias, muitas delas longe de se tornarem reais.
O que causa um certo espanto em mim é o movimento descartável como prática notória e fundamental para que o ciclo internético não se baste no hoje. Aquele acontecimento passa a ter uma vida útil mesmo antes de se tornar real. Vou usar um exemplo básico e trivial, ao menos para quem acompanha cinema ou mesmo música. Hoje um filme blockbuster não acontece para o público apenas no dia do seu release. Ele cria corpo – tal qual um feto em formação – no seu período de pré-produção, de escolha de elenco, diretores, figurinistas, fotógrafos, roteiristas e etc. Até aí, tudo bem. A questão é: será que é notícia divulgar quem poderá assumir o papel de vilão no próximo filme de James Cameron sem título?
Eu acho que não.
Sem nome, sem elenco e sem confirmação. Algum tempo depois saberemos pelo mesmo meio de comunicação ou por um similar, que outro ator foi cogitado para o filme de James Cameron que não tem nem previsão de começar a rodar e sequer teve roteiro aprovado. Este processo que é legítimo e trivial na indústria cinematográfica da conta da notícia de um nascimento de uma criança que sequer foi gerada; os sites correm para dizerem que: o filme (?) de James Cameron que não teve o roteiro aprovado (??) pelos possíveis (???) produtores talvez tenha (um nome à esmo às vezes) o ator fulano de tal para assumir o papel de vilão.
E isso vira notícia como se fosse notícia. Quantas vezes o ator cogitado sequer recebeu algum tipo de convite para um filme que praticamente não existe. De factual mesmo o nome de Cameron. E só.
Por que num blog de música abordar a velocidade?
Porque informação nunca teve o mesmo peso de conhecimento. Ser informado de possibilidades, achismos e alguns delírios não coloca pessoas físicas (leitores) e jurídicas (sites) na frente de ninguém, nem mesmo da notícia.
E neste ponto o jornal parece não perder validade tão expressa como esperam, uma vez que, mesmo frequentando a onda dos que conjugam veementemente o futuro do pretérito, ainda noticia o que aconteceu e não o que acontecerá ou o que poderá acontecer ou o que teria acontecido. Há uma overdose de informações que largam de mão a surpresa e descartam o imprevisível como personagem natural da vida.
Comprar um CD ou ir ao cinema já não tem a mesma sedução de tempos atrás, não apenas pelos fatores econômicos e sociais mas porque chegamos ao player ou à sala de exibição quase sabendo tudo das músicas ou do roteiro. Quem tocou, quem produziu, quem desistiu e quem morreu. Qual o motivo de ver ficha técnica de CD? Já tens ideia da história do filme, o que acontece no início da produção, de quanto tempo será a participação do ator e que ao final do filme tem uma surpresa…
Uma surpresa?!
Nem sempre foi assim. E isso não é apenas fruto de globalização. É também fruto do descarte das emoções que podem ser encaradas e sentidas mediante a… Desinformação. É difícil para alguém hoje admitir que ‘não está por dentro’ da última produção da Madonna ou que não sabe nada sobre a possível (olha a palavrinha aí) continuação do American Pie. “Eu preciso saber de tudo que eu gosto mesmo que tudo que eu gosto não seja um dado real ainda“.
Não é surpresa que não haja impacto nas produções cinematográficas e que as salas de cinema sejam na verdade as salas da nossa casa. Baixei, ouvi, gostei e deletei. Vamos ao próximo. Baixei, assisti, ri, chorei e deletei. Próximo.
Não há tempo para curtir cada frase, verso, linha, diálogo, emoção e pausa de qualquer filme ou disco que tenhamos dado um tempo. “Bom mesmo é o site que dá review do disco quase em tempo real”. Ninguém degusta a arte, ninguém se aprofunda nos elementos cortantes de uma produção artística para lhe dizer o que parece em momentos diferentes, em dias diferentes. O filme e a música ficam no HD para amostragem narcisistica da capacidade ad infinitum que o ‘seu’ PC possui.
… E sem degustação cerebral a gente aprende menos. A gente vive menos os detalhes do que está nos sendo dito através de qualquer manifestação plural ou de um produto que levou meses (ou anos, não é Chinese Democracy?) para ser concebido. Tudo fica na mesma altura e robustez e somos capazes de fazer as comparações mais estaparfúdias com o passado, quando no passado mastigávamos os filmes, as músicas e os shows e sabíamos de cór as falas, os versos e os escândalos que envolveram meticulosamente cada minuto de vida daquele espetáculo.
Este blogueiro está re-pensando sua interação com o mundo das artes. Não está sendo nada divertido.
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Daniel Junior é administrador do site Aliterasom e do site sobre futebol Pensando Futebol. Estudante de Língua Portuguesa, embora já tenha estudado Jornalismo e História. Tem 36 anos é músico e líder operacional em uma multinacional americana; fascinado por tecnologia, comunicação e séries de TV. Acredita que Lost foi a melhor criação do homem depois do Youtube e até hoje não acredita que 24 horas acabou.
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